sábado, 27 de fevereiro de 2010

Possível topografia dos lugares interiores #1

1. os olhos virados para dentro


Aqueles olhos não são meus,
Aqueles olhos não são nossos,
Não foram teus nem sequer de alguém.
Animal nenhum os teve nas órbitas,
Nem trazidos pela derrapagem no gelo
(mais organismos aqui dentro não bastariam).
Não são olhos de morte, vida muito menos,
Nem olhos de ver ou olhos de enganar,
Nem sequer olhos de partir sem intenção de retornar.

São talvez,
- aqueles olhos? –
Dois dedos de um Deus a apontar para o infinito,
Quem sabe mesmo uma acção ou refracção,
Vou arriscar duas córneas, dois cristalinos,
Muitos humores, luz, restos de acomodação.
Se não servem para olharmos para dentro
Ignoro pois para que servirão.

Talvez sejam
- aqueles dois?-
dois olhos, dois.



Hermenegildo Espinoza

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Gira-discos #15

Pedro Abrunhosa - Dealer e Dilema

Em tempo de faces ocultas e muitas hipóteses de movimentos sub-reptícios, enfim, a cara de um povo que sempre gostou de enfiar a carapuça no que lhe é alheio, falta pensar novamente - e era bom que de forma contínua - quem somos, e o que quer o povo português fazer com o seu Portugal. De modo que não vejo letra mais apropriada. Não se sintam incomodados se o barrete começar a pairar sobre as nossas cabeças. É a ordem natural das coisas.

Tenho um quadrado de cimento em que me deito,
Não há lugar para um futuro tão estreito,
Sigo o asfalto, lá do alto do meu prédio
Tenho pr’a mim que a tentação não tem remédio.
E se me mato, se me trato em directo,
Abro o jornal, qualquer canal, sou predilecto,
E na TV, no DVD, fazem-me estrela,
Ontem ninguém, hoje, quem sabe, uma novela.

Tanto barulho, tanto engulho no deserto,
Está aqui escrito que este plano bate certo,
Mato o juíz, mato a perdiz, mato o sobreiro
Com um só tiro, mas um tiro bem certeiro.
Diz quanto custa à minha custa o teu perdão,
Um carro novo com motor de foguetão,
Uma vivenda, uma merenda a vida inteira
Fazer Domingo de Segunda a Sexta-feira.

Eu não sei onde é a saída,
Se é no beco ou na avenida.
Ai, País, País é um problema, vive

Entre o dealer e o dilema,
Entre a sesta e o sistema.
Entre o dealer e o dilema
Entre a sesta e o sistema.

Tenho um petardo lá na cave do anexo,
Vem nos jornais que sou um gajo complexo,
No futebol talvez o leve pr’a tribuna,
Não há lugar onde o país mais se desuna.
Sou visionário ao contrário do que se pensa,
Ter tantos cargos faz a vida tão intensa,
Entre a medalha, e a canalha nunca vai,
Se é de madeira esta cadeira um dia cai.

Tenho a certeza que à mesa sou honesto,
Um envelope no decote compra o resto,
Um escadote pra subir até ao fundo,
Lugar cativo lá no céu do outro mundo.
Quero uma estátua de prata à minha porta,
Que a redenção é coisa que não me importa,
Quero um cavalo, quero um trono onde me sente
Se não for rei, porque não ser presidente?

Eu não sei onde é a saída,
Se é no beco ou na avenida.
Ai, País, País é um problema, vive

Entre o Dealer e o dilema,
Entre a sesta e o sistema.
Entre Dealer e o dilema
Entre a sesta e o sistema.





Hermenegildo Espinoza

domingo, 21 de fevereiro de 2010

O buraco negro e a sua amante estelar



Em cima e ao lado esquerdo da imagem, detectado pelo Very Large Telescope do Observatório Europeu do Sul (ESO), está o maior buraco negro encontrado até hoje, especificamente o mais distante e maciço: qualquer coisa como uma massa quinze vezes maior do que a do Sol. Está ele ali, na zona da galáxia NGC 300, exibindo a formosura da sua alta densidade, nem a luz escapando aos seus caprichos, e, ao seu lado, companheira constante, uma estrela em final de vida, restando-lhe menos de um milhão de anos (muito tempo para nós, no entanto), que, não tarda (tardará para nós, enfim, que raio!), explodirá como uma supernova, dando origem, depois e por fim, a um buraco negro também.
Há poemas que não conseguem ser tão bonitos quanto isto.




Hermenegildo Espinoza

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

entre escassas linhas #10

dizem que o homem é uno.
concordo.
e que vive em múltiplos mundos.
consinto.
mas questiono.
para simplificar, considero que o homem, uno, vive em duas realidades, um lá e um cá, um ontem e um amanhã; é o suficiente para considerar a vivência como múltipla.
volto a consintir.
volto a questionar.
como?
dividindo-se para se tornar duplo?
duplicando-se para se poder dividir?
hesito,hesito, hesito e...
...perco-me.

Pitt

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

O estranho caso do homem para quem o dia tem mais de vinte e quatro horas

O nosso Ministro das Finanças do XVIII Governo Constitucional de Portugal, Teixeira dos Santos (que, segundo a fiabilidade da Wikipédia, é natural da Maia e formado em Economia pela Universidade do Porto, sendo, portanto, um homem do norte, carago!) revelou, na entrega tardia da proposta de Orçamento de Estado, que a duração do seu dia ultrapassa as vinte e quatro horas, o que não deixa de ser surpreendente, mesmo para o nosso país já acostumado a bizarrias. Diria uma tia-avó minha, já há largos anos debaixo de uns bons metros de terra: « vocês é que sois os sujeitos das ciências e das investigações e que gostais de saber mais do que deveis, que isso para mim é tudo bruxedo, mas investigai, investigai, que eu garanto que anda aí Belzebu metido no meio!». Era realmente uma santa a senhora, cheia de fé no poder da ciência. Ainda bem que não me viu chegar a homem: sempre desejou que eu me tornasse padre. Sorte a dela que não teve o desgosto de me ver a enveredar pelo caminho oposto, sorte a minha que nunca toquei numa batina.



Hermenegildo Espinoza

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Uma história rapidinha do Dia de São Valentim e reticências

Para os mais românticos, dia dos namorados. Para os mais religiosos, dia de São Valentim.

Quer uma referência, quer outra, são filhas da mesma barriga, por assim dizer.

Reza a história que o bispo romano Valentim contrariou as ordens do imperador Cláudio II, ao continuar a celebrar os casamentos pelo imperador proibidos enquanto decorresse guerra (era minimamente conhecida a influência psicológica que a família tinha e tem nos guerreiros). Este fora da lei foi descoberto e condenado à morte. Na prisão, deixavam-lhe flores e escritas a dar conta de que "ainda acreditavam no amor". Consta também que, ainda na prisão, Valentim se apaixonou por Asterias e...bláblá... morreu precisamente no dia 14 de Fevereiro. Facto é que este dia se tornou imortal, tanto para românticos como para religiosos.


Agora, se me é permitido, punha de parte esta versão mais soft de dia dos namorados e recorria a Saramago para fazer valer a versão hard da coisa, aquela que não se enquadra nem nos românticos, nem nos religiosos, mas que é deveras a que prevalece hoje em dia, uma versão à adão e eva.


"É verdade que dia sim, dia não, e este com altíssima frequência também sim, adão dizia a eva, Vamos para a cama, mas a rotina conjugal, agravada, no caso destes dois, pela nula variedade nas posturas por falta de experiência, já então se demonstrou tão destrutiva como uma invasão de carunchos a roer a trave de casa".

[...]

"(...)o senhor fez aquele aparecer umas quantas peles de animais para tapar a nudez de adão e eva, os quais piscaram os olhos de cumplicidade, pois desde o primeiro dia souberam que estavam nus e disso se haviam aproveitado."

Acho tudo tolerável e admissível neste dia, menos a parte comercial da coisa.


Nota 1: Encarem o post como uma forma de julgar a sociedade de consumo.
Nota 2: Para os que queiram seguir livremente o curso do pensamento (e sejam menos crentes) suponham que, em vez de um adão e uma eva, esse tal senhor teria criado, como primogénitos, um adão e um ivo. Ou então uma adona e uma eva.

Pitt

sábado, 13 de fevereiro de 2010

O que está para vir #2

Um pâncreas artificial para regular os níveis glicémicos de doentes com Diabetes tipo 1 (insulinodependentes). As aplicações tecnológicas a nível biomédico não param de dar sinais de grande expectativa para o resto do século que temos pela frente. Um pâncreas artificial, meus caros. Nunca percebi as reticências de alguns em reconhecer a arte e a sensibilidade inerentes no estudo científico, ou julgam que não é algo precioso (e comovente à sua maneira) conciliar tecnologia com medicina/fisiologia/bioquímica/farmacologia/matemática e conceber alternativas para a deficiência ou menor rendimento das formas que nos são naturais enquanto organismos?
A proposta foi feita e demonstrada por investigadores da Universidade de Cambridge, e, basicamente, junta os conceitos pré-estabelecidos de bomba de insulina e sensor de níveis glicémicos no sangue. Ao que parece, é relativamente eficaz em relação aos métodos já existentes por permitir um maior controlo dos níveis de glicemia durante o sono e nas crises de hipoglicémia, especialmente nas crianças. Está tudo sumariamente bem explicado aqui. É só carregar aqui. Aqui mesmo.





Hermenegildo Espinoza

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Leituras & Remédios #10



A leitura como um dos melhores remédios.
Em 1947, enquanto trabalha nos serviços administrativos dos Hospitais Civis de Lisboa, José Saramago – assim o próprio nos conta no Aviso que precede a história deste seu livro – conclui, aos 24 anos, aquele que virá a ser o seu primeiro romance publicado, não sem antes um infindável novelo de peripécias acontecer. Entre o manuscrito original que desaparece da editora para o qual o mandara, até aparecer noutra editora onde, sendo chamado, é convencido a abdicar dos direitos de autor e consentindo a transformação do título original de “A Viúva” para o definitivo “Terra do Pecado”. Este último era mais atractivo comercialmente, garantiam. E assim o primeiro livro de José Saramago surgiu no meio literário português, perdendo-se depois no tempo. Só em 1997, o autor o voltaria a incluir na sua bibliografia, possibilitando a leitura de uma nova edição do livro.

Como primeiro registo de um escritor que, décadas mais tarde, acabaria por ganhar o maior prémio literário do planeta, uma exigente análise depara-se logo nas primeiras páginas com o inegável: esta é uma obra quase não-saramaguiana, isto é, vislumbrando toda a sua obra desde que se tornou um notável nas letras portugueses, ou seja, desde que a sua popularidade tardia irrompeu (em 1980, com a publicação de Levantado do Chão) para níveis altíssimos, este livro não se enquadra na pessoa de Saramago, pelo menos aquela que estes muitos anos nos têm habituado, para quem o lê. Para começar e com maior contraste, a escrita de Saramago é normal, normal no sentido de que as regras de pontuação são inteiramente respeitadas: os diálogos, os parágrafos mais frequentes, os pontos finais a colocar pausas no fôlego da escrita. Tudo, está bom de ver, diferente do seu estilo actual: períodos longos, diálogos integrados na narração e separados por vírgulas, bem como o narrador omnipresente e omnisciente. Depois, o tema, neste caso, quase corriqueiro, sem grandes alaridos: uma mulher ainda jovem que se vê viúva com dois filhos ainda pequenos para criar e a responsabilidade de continuar a gerir os negócios da quinta da família, assim como todo o mundo rural ainda preso a velhos costumes (representado grandemente na personagem de Benedita, a governanta da casa), sedento de apontar o dedo às reviravoltas na vida de Maria Leonor (a viúva), o seu fugaz envolvimento com o irmão do seu falecido marido e a relação ambivalente com o médico da vila e amigo de longa data da família, o doutor Viegas, um ateu confesso e um arauto de um mundo moderno, deslocado do tradicionalismo português. Todo este enredo também se demarca dos temas fracturantes que deram a Saramago a fama: a humanidade, a morte, a política, a religião e o nosso lugar no mundo. Não quer isto dizer que eles não aparecem na história (a habitual crítica mordaz à religião, ao catolicismo, aparece já em doses consideráveis nas palavras deste jovem Saramago) mas a magnitude com que eles são expostos é que não faria lembrar o Saramago sempre cáustico e irónico dos nossos dias.
Contudo, para matar a curiosidade que nos permite tentar perceber como chegamos a ser o que somos, como se processa a maturidade que nos faz bons e argutos naquilo que trabalhamos, este livro, duro e directo dentro das suas paredes de quase trezentas páginas - porém, de suave extrapolação para o mundo -, dá uma espreitadela ao jovem Saramago que nunca se lembraria, naquele ano de 1947, de vir a ser um expoente do mundo artístico português, o único português agraciado com o Nobel da Literatura.

(E agora é aquela altura em que peço perdão aos bons críticos literários por me ter intrometido. Que venham as pedras, sempre dá para aprender a me desviar delas)


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José Saramago,
Terra do Pecado,
edição da Editorial Caminho.





Hermenegildo Espinoza

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Trago de Ilusão

Não fossem as sequelas deixadas pelo doloroso terramoto de Átila no meu rosto, tirava o chapéu ao pançudo da Madeira. É certo que, hoje em dia, mais do que prestar homenagem, há que cuidar da reputação e imagem.Caprichos à parte: do fundo dil cuore, acho duplamente oportuna a aprovação daquela lei que tem moldado novelescamente a política. Primeiro, porque atingido o tido como impossível é sem dúvida a melhor prenda de anos que alguém pode ter (ou acreditam em coincidências? Não são cá dos meus!). Segundo, porque ponderando ir até aquela ilha disfrutar dumas férias, num futuro muito próximo, até respirarei melhor. Esta é uma lei sensata que repõe justiça na repartição dos rendimentos para, ou melhor, das Regiões Autónomas. “A César o que é de César”.

Dilema, o meu. Porque Madeira? Em vez de disfrutar dumas férias nessa ilhota galardoada com a alteração da Lei das Finanças Regionais, podia rumar ao Carnaval brasileiro e desfrutar glúteos melanciosos. Na verdade, "Em Fevereiro abunda a bunda mas é no Brasil porque cá abunda o frio que faz com que as poucas bundas que abundam fiquem com pele de galinha".

Quem sabe, amanha ainda acordo e, no primeiro trago de café, vejo aprovada a Lei das Finanças Pittianas. E aí, sim: Brasil, mi aguardji!

p.s. Parabéns, Alberto João Éden.

Pitt

Não te deixaremos morrer, Hermann Hesse

Este blogue está - para todos os efeitos e com todo o orgulho - estranho e quase a roçar o bizarro. O que significa, também, que anda a cumprir os requisitos para a sua permanência. Nos últimos textos que temos debitado, além da razia emocional e algum desepero antropológico mais do que evidentes da nossa parte, temos levado com comentários que, sucintos e certeiros, têm despertado pequenas revoluções interiores. Veja-se este exemplo e também este, de alguém que julgo que não quer, e bem, deixar morrer as palavras de Hermann Hesse no seu Siddartha. Se a busca pela individualização como ser inteiro com algum significado perene passa por aí, não garanto, mas não há que temer esse caminho. São ideias profícuas para novas Leituras & Remédios. Vamos tentar. Fica anotado.



Hermenegildo Espinoza

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Palavras Proibidas...

“Depois a trágica retirada para o jazigo ou cova,

E depois o princípio de morte da tua memória.

Há primeiro em todos um alívio

Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido…

Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,

E a vida de todos os dias retoma o seu dia…


Depois, lentamente esqueceste.

Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:

Quando faz anos que nasceste, quando que faz anos que morreste;


Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.

Duas vezes no ano pensam em ti.

Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,

E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.”

In Poesia de Álvaro de Campos Vol. I, Fernando Pessoa, PLANETA DEAGOSTINI

Caros Malditos e leitores aspirantes a malditos,

Já há um largo período de tempo que não exponho neste nosso blogue as minhas palavras, que dizem alguns, serem de uma sabedoria natural. Mas não creio em tal. Comecei este meu post com um poema de Álvaro de Campos, poema esse que eu tenho uma admiração especial, pois é difícil encontrar uma definição de morte melhor do que a de Álvaro de Campos.

A morte é um processo lento e gradual, e não como nós aprendemos a paragem do funcionamento do tronco cerebral (é apenas o inicio). Consiste então numa queda no esquecimento principalmente por parte daqueles que nos amam.

Mas porque estou eu a falar de morte? Simplesmente porque nos últimos tempos, comecei a pensar mais nesta questão, e no sentido da vida. E cheguei à conclusão que o sentido da vida reside no objectivo de morrer realizado. Mas como podemos então sentirmo-nos realizados, quando não temos uma pessoa do nosso lado a apoiar, com a sua força, com a sua vontade de viver, de crescer, de amar, de encantar? Temos de procurar essa pessoa, que alguns dizem ser a nossa cara metade… Pode acontecer que tenhamos encontrado essa pessoa, e nunca tivemos coragem para lhe dizer, com um receio certo de ouvir um não. Talvez as palavras que sempre desejamos dizer são palavras proibidas. O seguinte excerto da música “Vontade de Mudar”, dos Madredeus, traduz o que eu digo.

“Pobre, de quem não tem

De quem não tem ninguém

E sonham que nunca é tarde

Quando encontrar alguém”

Isto é mais um dos meus devaneios, assumindo-me no papel de entidades distintas de mim, e reflectindo sobre as suas vidas, vivências, sentimentos e relações. É difícil viver na angústia de uma solidão rodeada de gente. Não tenho mais palavras…

Ubirajara Piatã © PD