domingo, 25 de março de 2012

Possível topografia dos lugares interiores #54

54. um pé navicular.


Enquanto na popa todos esperavam,
a vida verdadeira balançava na proa.
O coração gritava: lancem a âncora!,
mas o pé só tropeçava entre a brisa
que se acomodava no arco plantar.

Que vai ser de nós?, lamentavam
os vários tarsos encolhidos
entre a física do pé-motor
e a anatomia do pé-descalço.

Não vos espera nada, respondia
o altivo resto do corpo,
nada mais vos resta, avisava,
do que aprender a bolinar
neste duro chão salgado.




Hermenegildo Espinoza

terça-feira, 20 de março de 2012

20 de Março de 2009

Felicitações Malditos!
3 anos de divagações...

quinta-feira, 15 de março de 2012

Epitáfios para um médico de algibeira XI

/Era conhecido por ser um médico acanhado. Competente, sim, mas acanhado. Temia contar más-notícias. Dizia que, apesar do inevitável, o melhor cuidado paliativo era não lembrar repetidamente ao corpo o desânimo do seu tiquetaque. Dizem que esse médico morreu de uma coisa maligna, muito dolorosa, muito desanimadora. Também há quem garanta que não quis saber do que padecia afinal. Até poderia desconfiar, mas preferiu acolher o inevitável com o tiquetaque de sempre. O tiquetaque persistente de um relógio suíço./



sábado, 10 de março de 2012

Possível topografia dos lugares interiores #53

53. cada sonho é uma hérnia da realidade.


Os sonhos podem ser directos
podem partir da ânsia tangível
ou mesmo ser indirectos e esguios.

Fogem da realidade como as hérnias do corpo,
como se todas as suas camadas fossem vísceras
que se entendiaram com o refúgio da pele.
Se nos complicam a vida, estrangulam rapidamente,
e morrem tão sem sangue como num corpo lívido.

Por isso - apontam os cirurgiões -,
aos homens que insistem em sonhar
não lhes basta uma realidade para ficar
mas toda a realidade da qual podem fugir.




Hermenegildo Espinoza

quinta-feira, 1 de março de 2012