quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Pouco me importo, se, arrastado pelos mercados, der falência o BIMM.
Mas esta crise vai além da algibeira.

A crise chega a tudos.

um maldito

terça-feira, 15 de novembro de 2011

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Possível topografia dos lugares interiores #47

47. a arte de refilar nas salas de espera.


Uma cadeira não esquece as horas,
os minutos prolongam-se nos ossos doridos
enquanto alguém espera uns segundos eternos.

Não há má notícia que aguarde a sua vez
nem maus diagnósticos que se acumulem
nos corredores de olhares cabisbaixos.

Quem refila na sala de espera
tem medo que o medo da dor
chegue e não avise ninguém.




Hermenegildo Espinoza

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Possível topografia dos lugares interiores #46

46. não chegaremos ao tempo dos pés inchados.


Os que padecem
de felicidade insuficiente
vivem no estigma da ausência
na falta que lhes faz um relógio
que acelere o tempo em que a felicidade
corre desenfreadamente nas artérias.

Os que se queixam
de felicidade restrita
vivem acordados numa insónia
num sonho estagnado no passado
que não lhes traz a almejada boa-aventurança
numa fé carcomida pela rouquidão dos discursos.

Os que vão morrer
numa parca felicidade
não terão tempo de ver
os dois pés inchados
porque o coração incapaz
não aguenta a nossa triste figura.



Hermenegildo Espinoza

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Gattuso e a paralisia do nervo abducente.


O sexto par craniano, no olho esquerdo, anda a apoquentá-lo. O olho que se recusa a mexer. O olho esquerdo parado. A história do jogador que via a dobrar. Aguenta-te, Gattuso.


Hermenegildo Espinoza

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Possível topografia dos lugares interiores #45

45. o senhor Broadman desenhou um mapa.


Um bicho faz-de-conta tornou-se real
e o verdadeiro cérebro
tornou-se o cérebro faz-de-conta.

Desconhece-se o paradeiro
do bicho faz-de-conta
mas há estudos que apontam
claramente
que o verdadeiro cérebro
está debaixo das arcadas do mundo
a brincar à cabra-cega com o consciente.

O senhor Broadman desenhou um mapa
cheio de números, casas e sentidos,
toda a morada do verdadeiro cérebro,
e tentou convencê-lo a regressar
com palavras científicas, as mais sábias.
Pobre senhor Broadman, não sabia mentir,
e por isso o verdadeiro cérebro exilou-se
vive por aí entretido a tentar perceber
o que aconteceu ao bicho faz-de-conta
que endoideceu a querer ser real.





Hermenegildo Espinoza

domingo, 25 de setembro de 2011

Possível topografia dos lugares interiores #44

44. as úlceras do corpo que chora.


Úlceras do corpo que chora,
pode o corpo chamar para si a tristeza
que mais nenhum corpo quer?

Quando a firmeza é vazia,
sabe a pele a ácido
das úlceras do corpo que chora.

O corpo todo ele frouxo
vive embargado
preso nos arames
de uma amizade ulcerada.



Hermenegildo Espinoza
backstage

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Epitáfios para um médico de algibeira VIII

/Os médicos de algibeira acabam também por morrer. Morrem despercebidos, os pobres coitados, esquecidos no bolso fundo de uma ideia inquieta./



Hermenegildo Espinoza

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

?

"La meta es el olvido.
Yo he llegado antes"

Jorge Luís Borges

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Possível topografia dos lugares interiores #43

43. o juramento hipocrático da tristeza.


Já só te falta o tédio,
o jornal e o café,
as mesmas queixas e pessoas
e a solidão pé ante pé.

As tuas horas vencidas
convertem-se em outras adquiridas,
muitas são as pessoas que anda viverão
enquanto amargas a tua depressão.

Que tu guardas a tua tristeza
na doença e na pureza,
sem que um diagnóstico te separe.




Hermenegildo Espinoza

domingo, 10 de julho de 2011

Possível topografia dos lugares interiores #42

42. o sal concentrado na pele.


Entre o ar dos dedos e o sal do mar
a nossa pele entre os corais.

Estranha esta aparência de búzio:
só queremos enrodilhar-nos no verão.

Resta o companheirismo bivalve:
entre nós e a topografia da casa.



Hermenegildo Espinoza

sábado, 25 de junho de 2011

Possível topografia dos lugares interiores #41

41. todos sabemos chorar sem o pedir.


Alguém viu no espelho um vulto
de um menino metido consigo,
e logo esse alguém pediu:
- abre as asas, rapaz -
mas do solo o menino não descolou
no solo nenhuma pena caiu,
e teve o rapaz o acesso de bondade
de nos contemplar do alto da sua meninice
naquela posicão anatómica descritiva
de quem pode chorar sem o pedir.

Não tinha sombra, não tinha rosto,
um vulto não tem anatomia, tem suposições,
e alguém disse num tom cuidadoso:
- daqui não avançamos mais -
e viu-se invertido ao espelho
teve medo das suas feições de criatura
e também não teve necessidade de pedir.

Num atlas de anatomia actualizado
apareceu por cima um espelho de bolso
todo ele numa nitidez húmida
e uma pena fustigada pelo vento:
tão belo era esse prefácio da descrição
de quem pode chorar sem o pedir.




Hermenegildo Espinoza

quinta-feira, 23 de junho de 2011

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Possível topografia dos lugares interiores #40

40. se um dia o meu corpo não pedisse licença.

Raiados os dedos de benjamim
eu pediria uma inflamação de ossos
que de encontro à tua delicada bacia
criasse todos os dias do mundo.

Pretenderia ouvir todo o estalar dos meus ossos
todo o estirar dos meus tendões furiosos,
e pediria tanto que a orquestra dos ossos chatos
desse de si uma ovação às minhas contorções.

Eu poderei exercitar todos os instrumentos
que na arrecadação do meu corpo se amontoam
a tirar o tapete ao seu maestro, que vai pensando:
se um dia o meu corpo não pedisse licença.



Hermenegildo Espinoza

terça-feira, 7 de junho de 2011

^

um acento circunflexo é tudo menos circunflexo.

a menos que circunflexo seja sinónimo de "timbre fechado",
ou que um dedo cubista lhe tenha tirado as curvas.

não acredito que o picasso tenha perdido o seu tempo a moldar-lhe as formas,
e acredito ainda menos que "cúpula circunflexa" seja uma cupúla timbre fechada.

pitt

domingo, 5 de junho de 2011

Possível topografia dos lugares interiores #39

39. sistema desconfiança – humor – fragilidade.


Justamente em nós
cabe toda a desconfiança
que o corpo tem de si.

Justamente de nós
foge por vezes o humor
que o corpo não omite.

Justamente através de nós
a desconfiança e o humor
vão pintando fragilidades.





Hermenegildo Espinoza