quinta-feira, 25 de março de 2010

Possível topografia dos lugares interiores #3

3. a grande concavidade na base da nuca


É esta a semiologia e o retrato anatómico do corpo
daqueles que passam muito tempo de pescoço estirado
para o alto, para longe, para finos recortes de horizontes,
espelhados sabe-se lá onde e por que justificações ou álibis.

Normalmente acompanhados por errantes tentativas
chamadas também processos de aprendizagem do assobio,
como iniciação e manutenção do escorreito fluir do sopro.
Afinal temos mais fáscias encerrando a nossa maquinaria
do que aquelas que nos são dadas a vislumbrar.

E se questionarem e exigirem explicações:
- O que se passa com a minha nuca, doutor?
Não fales logo nas suas vértebras
nem respondas de pronto hiperlordose cervical.
Sempre lhes poderás dar tempo de imaginar
que andam vergados pelo peso dos sonhos,
de cabeça tendendo para tropismos de expectativas.




Hermenegildo Espinoza

segunda-feira, 22 de março de 2010

de comissuras labiais...

É dado sem esperar moeda de troca. Porém, se retribuído, enaltece corações.
Gesto muitas vezes invonluntário, simples, efémero e, contudo, com efeitos duradouros.
Relembrem lá o último que receberam!
Hmm... Nhami!
Não importa se veio de "um fiat 600 ou de um mercedes".
Muito menos importa a intelectualização do coiso. Pouco mais ou menos, se liberta endorfinas, blá,blá,blá... ou se é parte constituinte de comportamentos de membros da mesma espécie, humanos suponho, face a um dado estímulo - um padrão comportamental, portanto.
Antes interessa a... sensação.
Essa sim, desprovida de qualquer filtro e isenta de processamento lá nas medulas. Sensação pura e crua.
(com tudo o que aqui escrevi, perdi a essência do último que recebi)
Se vivia sem ele? Jamais.
E vocês, viviam sem ele?

Que seja a primeira coisa a ser feita amanha. Vá, pode ser depois de lavar os dentes e do chichi matinal.

Pitt

sábado, 20 de março de 2010

Felicitações...

Felicitações a este notável clube e a todos os malditos que a ele pertencem. Faz hoje um ano que começamos a expressar os nossos devaneios nesta pequena extensão da infindável internet. Espero que para o ano cá estejamos todos a solenizar um segundo aniversário.


Com os melhores cumprimentos

Adegesto Pataca

Per voi, dannazione!


Um ano passou!


Adegesto, o Pataca,
Douto na episteme,
Desde que pôs cá o leme,
Nunca mais fechou matraca.

Um ano passou!

Por entre os dias,
Bachiatari, o mestre,
De indumenta rupestre,
Espalhou no blog sabedorias.

Um ano passou!

Não é muito dado a datas, "o home",
Nem a terras ou a mares.
Mas plausível G.M.Tavares,
Espinoza é o seu nome.

Um ano passou!

Oriundo de sítios remotos,
É índio de cara,
Também a este bando se juntou,
Piatã, Ubirajara.

Um ano passou!

" sim...
hum...
yeah..."
Cluni!

Um ano passou...

Pitt

...um ano passou.
um ano.
um.
1.



Ao Adegesto, felicito-o pela sua periodicidade (período 6).
Ao Bachiatari, ou melhor, Alter Ego,felicito-o pela sua originalidade.
Ao Cluni, felicito-o pelo seu libido e pelo sagrado xis.
Ao Hermenegildo, felicito-o pela qualidade e assiduidade das marcas que no blog maldito deixa.
Ao Piatã, felicito-o por nos alinhar e sincronizar os chakras.

Cumprimentos, camaradas

Pitt

Lemniscata

O Clube dos Médicos Malditos faz hoje um ano. No baptismo, tínhamos muito que fazer e pouca vontade. Continuamos a ter muito que fazer, mas agora a vontade é muita. Portanto, hoje é dia de um. O regozijo da data está em termos aguentado. Nada mais há para querer, penso eu, a não ser continuar. A persistir na adoração ambígua à entropia e na resistência à pasmaceira altiva. Está o Clube, nós os seis, apontado para o infinito. Os números que vierem no meio serão para lembrar aos nossos corações e à nossa razão de que o tempo passa, mas que, se quisermos, o fazemos contrair à nossa imponência. Dou a palavra aos meus irmãos.




Hermenegildo Espinoza

terça-feira, 16 de março de 2010

Gira-discos #17



The Killers - Happy Birthday Guadalupe!


Fernando Pessoa, ou melhor, Álvaro de Campos (que me perdoe Pessoa a troca inicial de identidades entre homens tão distintos, o mesmo se aplicando ao senhor engenheiro Campos) escreveu, em 1931, um poema magnífico, chamado Oxfordshire, que termina assim: «É-se feliz na Austrália, desde que lá se não vá.» Por um lado, é um fecho tão simples mas ao mesmo tão entricheirado para o poema, algo que se nota tão ao de longe, mesmo para míopes, prebíopes ou para gente portadora de cataratas mentais, com nevoeiros cerrados a empobrecer o raciocínio, quer por preguiça, quer por teimosia. Por outro, olhando para nós, fazendo da nossa epiderme o nosso próprio espelho (uma espécie de queratina com poder de reflexão), resta-nos interrogar se, da mesma maneira que podemos ser felizes na Austrália desde que nunca lá punhamos os pés, se não temos sido, ou vamos sendo, felizes em lugares onde não estamos, onde nem sequer um dia iremos estar. Felizes a pensar o que hipoteticamente seremos, a que futuro nos levará o passado que ainda há momentos era presente. Eu sei que é chato falar disto, mas não sei falar de mais nada a não ser de dúvidas, tudo são dúvidas, mesmo a alegria de pensar ou a expectativa de pensar que posso ser alegre a pensar. Será que posso ser feliz desde que nunca me ponha dentro de mim mesmo? São questões essenciais para ruborizar até mesmo o senhor de la Palisse. Dá vontade de cantarolar, a descoberto de qualquer fachada: estar à espera ou procurar?
Nunca estive em Guadalupe, mas posso garantir que seria muito feliz por lá.



Hermenegildo Espinoza

sábado, 13 de março de 2010

Somações espaciais

Nós gostamos muito de ler outras coisas, não nos entricheiramos em nós mesmos. Daí que andamos a espreitar os outros na tentativa de nos encontrarmos. Diz o Cluni que só nos devemos perder por mulheres, mesmo que tudo indique que não dará certo, mas vale o risco, diz ele, no meio de tanta chapada poderá aparecer um miminho para fazer um homem pular. Sabe bem o Cluni do que fala, ele que já se tem metido em situações caricatas, com a constante presença de elemento XX no meio da caldeirada.
Ora bem, vamos lá então aumentar as sinapses deste blogue. Para a barra lateral entram o Debastadelas (gente com tendências gastronómicas algumas vezes requintadas com fragrâncias de javardice - um festim, portanto. Desejamos uma longa vida ao blogue e que o Xico Cruz adquira assiduidade para com a sua higiene) e também o Ideias de Vão de Escada (onde há histórias de uma vida, fragmentos de outras, bom-gosto, sarcasmo e, invariavelmente, respeitinho para com a língua portuguesa). Como modo de agradecimento deixamos a Alice. Dá para deixar as pessoas felizes em tempos conturbados.







O Clube dos Médicos Malditos

quarta-feira, 10 de março de 2010

Possível topografia dos lugares interiores #2

2. as asas do nariz não ajudaram Ícaro a voar


O cheiro do ar tem muitas constelações:
Ursa maior, Ursa menor, receptores por localizar.
Não podemos voar se não quisermos aprender a mudar.
Imagina flutuares até à estratosfera,
imagina voltares à terra de igual modo e feitio.
Se assim o fizeres não leves a mal,
mas serás engolido pela voracidade da nossa esfera.

Asas de cera em nada se comparam
às de cartilagem e alguma gordura do nariz,
pois se com as outras podes ter a ilusão de voar
com estas podes ter a certeza, chama-lhe diagnóstico,
do síndroma benigno de descobrir o sítio onde queres ficar.

Disseram-me que Ícaro pode ter voado até à altura do sol
ignorando as advertências de Dédalo seu pai, seu leme,
mas aposto que inalou e bem o cheiro da queda e da morte,
e nesse sítio ficou a descansar, sem as asas de cera e as do nariz.






Hermenegildo Espinoza

segunda-feira, 8 de março de 2010

o estado das coisas

Malditos,
a Terra está a dar de si! E não é capricho meu (muito menos peido).
Deparamo-nos com sucessivos terramotos e replicas: Chile, Japão, Turquia e Chile novamente... Quisera eu estar em todos esses sítios, como estive em Átila. Lá, deixei as minhas marcas e fui marcado. A verdade é que seria contraproducente, e praticamente impossível, estar em todos esses espaço-tempos muito próximos, como também seria utópico, nesse intervalinho de tempo, aqui o Pitt soltar uns flatos valentes. É que nem mesmo estando mal dos intestini seria capaz de gerar catástrofes consecutivas dessa natureza.
Continuando...
Mini-sismos, chuvas torrenciais que fazem com que cão e gato deêm a mão; ou melhor, a pata (sabem vocês muito bem a quem me refiro!)
Dia da Mulher e, o melhor de tudo, o desvanecimento de um 11 que realça outro: são eles, o FCP e a distância pontual a que se encontra do glorioso.
Para os mais superticiosos, com certeza, é o fim do mundo.
Para os portistas, aposto, o fim do mundo é!
... e o mundo que só acaba em 2012.
O facto é que, contra superticiosos, não há argumentos.

O Pitt

terça-feira, 2 de março de 2010

Gira-discos #16

... porque o miúdo diz tudo.

Pitt

segunda-feira, 1 de março de 2010

do espinoza #12

O professor, meu colega


Há dias conheci um cardiologista que, na sua maneira humilde e muito mais experiente, acolheu-me no seu consultório. (Não se apoquentem, está tudo bem com a minha máquina). Eu andava muito curioso para o conhecer, não só pelo motivo que na altura me empurrou para a busca de uma opinião sobre o estado da engrenagem cardíaca do meu corpo, mas também porque, aconselhado por médicos amigos, este era um cardiologista daqueles que não se esquecem.
- Mas que raio - disse eu na altura - não se esquece porque ele é um dos bons ou um dos maus?
- Logo verás, mas vais achar piada ao professor.
Professor? Mas se o homem nem sequer dá aulas em algum sítio - soube eu depois - como diabo é que o sujeito era apelidado de tal? É que nem era doutor ou outro ilustre e pavoneante cognome, era conhecido por professor e mais nada.
Estive pouco mais de uma hora dentro do consultório.
Quando saí vinha com o sorriso iluminado. (Não se apoquentem, está tudo bem com a minha máquina). No tempo que estive lá dentro, devo ter apanhado com o melhor comunicador de área médica que já tive oportunidade de conhecer. Nem me atrevi a confessar-lhe que era seu colega de profissão. Deixei-o falar. Explicou e dissertou sobre o coração e o sistema circulatório como nunca vi. (Não se apoquentem, está tudo bem com a minha máquina). Tinha-me na mão como um puto a olhar para uma caixa de legos e sem fazer ideia nenhuma como montar tudo. E ele montou tudo. Eu ia acenando afirmativamente. (Não se apoquentem, está tudo bem com a minha máquina). Mandou fazer as devidas análises e procedimentos. (Não se apoquentem, está tudo bem com a minha máquina). Voltei ao consultório a segunda vez para discussão dos resultados. Nunca lhe contei que era médico também. Nova dissertação e comunicação a roçar a perfeição. Ao sair apertou-me a mão e confidenciou:
- Se quer que lhe diga, meu caro, Hermenegildo nem é um nome assim tão mau. Um dia ainda se vai aperceber disso. Devo-lhe confessar que penso que Hermenegildo até é um nome que cai muito bem num médico.
E fui-me embora.
Como é que anda a minha engrenagem cardíaca? Está tudo bem, não se apoquente, foi o que me disse o professor.




Hermenegildo Espinoza

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Possível topografia dos lugares interiores #1

1. os olhos virados para dentro


Aqueles olhos não são meus,
Aqueles olhos não são nossos,
Não foram teus nem sequer de alguém.
Animal nenhum os teve nas órbitas,
Nem trazidos pela derrapagem no gelo
(mais organismos aqui dentro não bastariam).
Não são olhos de morte, vida muito menos,
Nem olhos de ver ou olhos de enganar,
Nem sequer olhos de partir sem intenção de retornar.

São talvez,
- aqueles olhos? –
Dois dedos de um Deus a apontar para o infinito,
Quem sabe mesmo uma acção ou refracção,
Vou arriscar duas córneas, dois cristalinos,
Muitos humores, luz, restos de acomodação.
Se não servem para olharmos para dentro
Ignoro pois para que servirão.

Talvez sejam
- aqueles dois?-
dois olhos, dois.



Hermenegildo Espinoza

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Gira-discos #15

Pedro Abrunhosa - Dealer e Dilema

Em tempo de faces ocultas e muitas hipóteses de movimentos sub-reptícios, enfim, a cara de um povo que sempre gostou de enfiar a carapuça no que lhe é alheio, falta pensar novamente - e era bom que de forma contínua - quem somos, e o que quer o povo português fazer com o seu Portugal. De modo que não vejo letra mais apropriada. Não se sintam incomodados se o barrete começar a pairar sobre as nossas cabeças. É a ordem natural das coisas.

Tenho um quadrado de cimento em que me deito,
Não há lugar para um futuro tão estreito,
Sigo o asfalto, lá do alto do meu prédio
Tenho pr’a mim que a tentação não tem remédio.
E se me mato, se me trato em directo,
Abro o jornal, qualquer canal, sou predilecto,
E na TV, no DVD, fazem-me estrela,
Ontem ninguém, hoje, quem sabe, uma novela.

Tanto barulho, tanto engulho no deserto,
Está aqui escrito que este plano bate certo,
Mato o juíz, mato a perdiz, mato o sobreiro
Com um só tiro, mas um tiro bem certeiro.
Diz quanto custa à minha custa o teu perdão,
Um carro novo com motor de foguetão,
Uma vivenda, uma merenda a vida inteira
Fazer Domingo de Segunda a Sexta-feira.

Eu não sei onde é a saída,
Se é no beco ou na avenida.
Ai, País, País é um problema, vive

Entre o dealer e o dilema,
Entre a sesta e o sistema.
Entre o dealer e o dilema
Entre a sesta e o sistema.

Tenho um petardo lá na cave do anexo,
Vem nos jornais que sou um gajo complexo,
No futebol talvez o leve pr’a tribuna,
Não há lugar onde o país mais se desuna.
Sou visionário ao contrário do que se pensa,
Ter tantos cargos faz a vida tão intensa,
Entre a medalha, e a canalha nunca vai,
Se é de madeira esta cadeira um dia cai.

Tenho a certeza que à mesa sou honesto,
Um envelope no decote compra o resto,
Um escadote pra subir até ao fundo,
Lugar cativo lá no céu do outro mundo.
Quero uma estátua de prata à minha porta,
Que a redenção é coisa que não me importa,
Quero um cavalo, quero um trono onde me sente
Se não for rei, porque não ser presidente?

Eu não sei onde é a saída,
Se é no beco ou na avenida.
Ai, País, País é um problema, vive

Entre o Dealer e o dilema,
Entre a sesta e o sistema.
Entre Dealer e o dilema
Entre a sesta e o sistema.





Hermenegildo Espinoza

domingo, 21 de fevereiro de 2010

O buraco negro e a sua amante estelar



Em cima e ao lado esquerdo da imagem, detectado pelo Very Large Telescope do Observatório Europeu do Sul (ESO), está o maior buraco negro encontrado até hoje, especificamente o mais distante e maciço: qualquer coisa como uma massa quinze vezes maior do que a do Sol. Está ele ali, na zona da galáxia NGC 300, exibindo a formosura da sua alta densidade, nem a luz escapando aos seus caprichos, e, ao seu lado, companheira constante, uma estrela em final de vida, restando-lhe menos de um milhão de anos (muito tempo para nós, no entanto), que, não tarda (tardará para nós, enfim, que raio!), explodirá como uma supernova, dando origem, depois e por fim, a um buraco negro também.
Há poemas que não conseguem ser tão bonitos quanto isto.




Hermenegildo Espinoza

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

entre escassas linhas #10

dizem que o homem é uno.
concordo.
e que vive em múltiplos mundos.
consinto.
mas questiono.
para simplificar, considero que o homem, uno, vive em duas realidades, um lá e um cá, um ontem e um amanhã; é o suficiente para considerar a vivência como múltipla.
volto a consintir.
volto a questionar.
como?
dividindo-se para se tornar duplo?
duplicando-se para se poder dividir?
hesito,hesito, hesito e...
...perco-me.

Pitt

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

O estranho caso do homem para quem o dia tem mais de vinte e quatro horas

O nosso Ministro das Finanças do XVIII Governo Constitucional de Portugal, Teixeira dos Santos (que, segundo a fiabilidade da Wikipédia, é natural da Maia e formado em Economia pela Universidade do Porto, sendo, portanto, um homem do norte, carago!) revelou, na entrega tardia da proposta de Orçamento de Estado, que a duração do seu dia ultrapassa as vinte e quatro horas, o que não deixa de ser surpreendente, mesmo para o nosso país já acostumado a bizarrias. Diria uma tia-avó minha, já há largos anos debaixo de uns bons metros de terra: « vocês é que sois os sujeitos das ciências e das investigações e que gostais de saber mais do que deveis, que isso para mim é tudo bruxedo, mas investigai, investigai, que eu garanto que anda aí Belzebu metido no meio!». Era realmente uma santa a senhora, cheia de fé no poder da ciência. Ainda bem que não me viu chegar a homem: sempre desejou que eu me tornasse padre. Sorte a dela que não teve o desgosto de me ver a enveredar pelo caminho oposto, sorte a minha que nunca toquei numa batina.



Hermenegildo Espinoza

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Uma história rapidinha do Dia de São Valentim e reticências

Para os mais românticos, dia dos namorados. Para os mais religiosos, dia de São Valentim.

Quer uma referência, quer outra, são filhas da mesma barriga, por assim dizer.

Reza a história que o bispo romano Valentim contrariou as ordens do imperador Cláudio II, ao continuar a celebrar os casamentos pelo imperador proibidos enquanto decorresse guerra (era minimamente conhecida a influência psicológica que a família tinha e tem nos guerreiros). Este fora da lei foi descoberto e condenado à morte. Na prisão, deixavam-lhe flores e escritas a dar conta de que "ainda acreditavam no amor". Consta também que, ainda na prisão, Valentim se apaixonou por Asterias e...bláblá... morreu precisamente no dia 14 de Fevereiro. Facto é que este dia se tornou imortal, tanto para românticos como para religiosos.


Agora, se me é permitido, punha de parte esta versão mais soft de dia dos namorados e recorria a Saramago para fazer valer a versão hard da coisa, aquela que não se enquadra nem nos românticos, nem nos religiosos, mas que é deveras a que prevalece hoje em dia, uma versão à adão e eva.


"É verdade que dia sim, dia não, e este com altíssima frequência também sim, adão dizia a eva, Vamos para a cama, mas a rotina conjugal, agravada, no caso destes dois, pela nula variedade nas posturas por falta de experiência, já então se demonstrou tão destrutiva como uma invasão de carunchos a roer a trave de casa".

[...]

"(...)o senhor fez aquele aparecer umas quantas peles de animais para tapar a nudez de adão e eva, os quais piscaram os olhos de cumplicidade, pois desde o primeiro dia souberam que estavam nus e disso se haviam aproveitado."

Acho tudo tolerável e admissível neste dia, menos a parte comercial da coisa.


Nota 1: Encarem o post como uma forma de julgar a sociedade de consumo.
Nota 2: Para os que queiram seguir livremente o curso do pensamento (e sejam menos crentes) suponham que, em vez de um adão e uma eva, esse tal senhor teria criado, como primogénitos, um adão e um ivo. Ou então uma adona e uma eva.

Pitt

sábado, 13 de fevereiro de 2010

O que está para vir #2

Um pâncreas artificial para regular os níveis glicémicos de doentes com Diabetes tipo 1 (insulinodependentes). As aplicações tecnológicas a nível biomédico não param de dar sinais de grande expectativa para o resto do século que temos pela frente. Um pâncreas artificial, meus caros. Nunca percebi as reticências de alguns em reconhecer a arte e a sensibilidade inerentes no estudo científico, ou julgam que não é algo precioso (e comovente à sua maneira) conciliar tecnologia com medicina/fisiologia/bioquímica/farmacologia/matemática e conceber alternativas para a deficiência ou menor rendimento das formas que nos são naturais enquanto organismos?
A proposta foi feita e demonstrada por investigadores da Universidade de Cambridge, e, basicamente, junta os conceitos pré-estabelecidos de bomba de insulina e sensor de níveis glicémicos no sangue. Ao que parece, é relativamente eficaz em relação aos métodos já existentes por permitir um maior controlo dos níveis de glicemia durante o sono e nas crises de hipoglicémia, especialmente nas crianças. Está tudo sumariamente bem explicado aqui. É só carregar aqui. Aqui mesmo.





Hermenegildo Espinoza

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Leituras & Remédios #10



A leitura como um dos melhores remédios.
Em 1947, enquanto trabalha nos serviços administrativos dos Hospitais Civis de Lisboa, José Saramago – assim o próprio nos conta no Aviso que precede a história deste seu livro – conclui, aos 24 anos, aquele que virá a ser o seu primeiro romance publicado, não sem antes um infindável novelo de peripécias acontecer. Entre o manuscrito original que desaparece da editora para o qual o mandara, até aparecer noutra editora onde, sendo chamado, é convencido a abdicar dos direitos de autor e consentindo a transformação do título original de “A Viúva” para o definitivo “Terra do Pecado”. Este último era mais atractivo comercialmente, garantiam. E assim o primeiro livro de José Saramago surgiu no meio literário português, perdendo-se depois no tempo. Só em 1997, o autor o voltaria a incluir na sua bibliografia, possibilitando a leitura de uma nova edição do livro.

Como primeiro registo de um escritor que, décadas mais tarde, acabaria por ganhar o maior prémio literário do planeta, uma exigente análise depara-se logo nas primeiras páginas com o inegável: esta é uma obra quase não-saramaguiana, isto é, vislumbrando toda a sua obra desde que se tornou um notável nas letras portugueses, ou seja, desde que a sua popularidade tardia irrompeu (em 1980, com a publicação de Levantado do Chão) para níveis altíssimos, este livro não se enquadra na pessoa de Saramago, pelo menos aquela que estes muitos anos nos têm habituado, para quem o lê. Para começar e com maior contraste, a escrita de Saramago é normal, normal no sentido de que as regras de pontuação são inteiramente respeitadas: os diálogos, os parágrafos mais frequentes, os pontos finais a colocar pausas no fôlego da escrita. Tudo, está bom de ver, diferente do seu estilo actual: períodos longos, diálogos integrados na narração e separados por vírgulas, bem como o narrador omnipresente e omnisciente. Depois, o tema, neste caso, quase corriqueiro, sem grandes alaridos: uma mulher ainda jovem que se vê viúva com dois filhos ainda pequenos para criar e a responsabilidade de continuar a gerir os negócios da quinta da família, assim como todo o mundo rural ainda preso a velhos costumes (representado grandemente na personagem de Benedita, a governanta da casa), sedento de apontar o dedo às reviravoltas na vida de Maria Leonor (a viúva), o seu fugaz envolvimento com o irmão do seu falecido marido e a relação ambivalente com o médico da vila e amigo de longa data da família, o doutor Viegas, um ateu confesso e um arauto de um mundo moderno, deslocado do tradicionalismo português. Todo este enredo também se demarca dos temas fracturantes que deram a Saramago a fama: a humanidade, a morte, a política, a religião e o nosso lugar no mundo. Não quer isto dizer que eles não aparecem na história (a habitual crítica mordaz à religião, ao catolicismo, aparece já em doses consideráveis nas palavras deste jovem Saramago) mas a magnitude com que eles são expostos é que não faria lembrar o Saramago sempre cáustico e irónico dos nossos dias.
Contudo, para matar a curiosidade que nos permite tentar perceber como chegamos a ser o que somos, como se processa a maturidade que nos faz bons e argutos naquilo que trabalhamos, este livro, duro e directo dentro das suas paredes de quase trezentas páginas - porém, de suave extrapolação para o mundo -, dá uma espreitadela ao jovem Saramago que nunca se lembraria, naquele ano de 1947, de vir a ser um expoente do mundo artístico português, o único português agraciado com o Nobel da Literatura.

(E agora é aquela altura em que peço perdão aos bons críticos literários por me ter intrometido. Que venham as pedras, sempre dá para aprender a me desviar delas)


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José Saramago,
Terra do Pecado,
edição da Editorial Caminho.





Hermenegildo Espinoza

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Trago de Ilusão

Não fossem as sequelas deixadas pelo doloroso terramoto de Átila no meu rosto, tirava o chapéu ao pançudo da Madeira. É certo que, hoje em dia, mais do que prestar homenagem, há que cuidar da reputação e imagem.Caprichos à parte: do fundo dil cuore, acho duplamente oportuna a aprovação daquela lei que tem moldado novelescamente a política. Primeiro, porque atingido o tido como impossível é sem dúvida a melhor prenda de anos que alguém pode ter (ou acreditam em coincidências? Não são cá dos meus!). Segundo, porque ponderando ir até aquela ilha disfrutar dumas férias, num futuro muito próximo, até respirarei melhor. Esta é uma lei sensata que repõe justiça na repartição dos rendimentos para, ou melhor, das Regiões Autónomas. “A César o que é de César”.

Dilema, o meu. Porque Madeira? Em vez de disfrutar dumas férias nessa ilhota galardoada com a alteração da Lei das Finanças Regionais, podia rumar ao Carnaval brasileiro e desfrutar glúteos melanciosos. Na verdade, "Em Fevereiro abunda a bunda mas é no Brasil porque cá abunda o frio que faz com que as poucas bundas que abundam fiquem com pele de galinha".

Quem sabe, amanha ainda acordo e, no primeiro trago de café, vejo aprovada a Lei das Finanças Pittianas. E aí, sim: Brasil, mi aguardji!

p.s. Parabéns, Alberto João Éden.

Pitt