Invejo-vos a inocência, comuns dos mortais. A despreocupação com que vivem o vosso dia-a-dia, na desnecessidade de viverem com essa dor de pensar celebrizada outrora, mas em que já ninguém acredita. Pois eu vos digo: Existe; Não para todos, não para muitos mas pelo menos para mim, existe. Não é tão literária, não é tão cognitiva, como a perfeição Pessoana descreve, como o poeta a profetiza. Surge-me num contexto diferente, surge-me em vivências diferentes, logo, e certamente não caindo na falácia de um raciocínio indutivo mas na veracidade de um empirismo comprovado, incide de maneira diferente, metamorfizada e saída desse seu primeiro casulo porque é conhecida. Chamo-lhe dor de pensar e chego a crer que possa não ser íntegro. Esclareço-vos, portanto – é todo um confronto intrapessoal que avassala a parte metafísica do que sou, que abana alicerces de honra e respeito, que se solta e corre ao lado dos antílopes transformando-se subitamente no predador que os devora de seguida. É tudo isso, mas é também algo de que não me declaro inocente. Há quem lhe chame, e ela própria o faz, de Alter Ego.
Sinto-me no dever do esclarecimento perante vós e é com a humildade das minhas vestes e barbas brancas pingadas pelas pingas do suor do pudor e da vergonha que vos confesso a sua - no fundo minha – história: No decorrer da génese de grandes guerreiros na Academia Shashi-Bakau, há cerca de 3 séculos atrás, os Grandes Anciãos e Mestres marciais encarregues da formação das novas camadas de futuros Mestres ensinavam a estes últimos a Técnica da Separação: consistia num dos mais importantes ritos de formação – a separação dos dois grandes pólos que o indivíduo tem no seu interior: o bem e o mal. Além de dotar os jovens mestres do quase total controlo da mente, era como que a medida de segurança que permitia aos seus tutores garantir que estes estavam no caminho certo, a lutar pelos objectivos certos. Encurtando o texto, digamos que a minha técnica não foi de execução perfeita, ficando um espaço oculto na minha mente ao qual não consigo aceder, uma personalidade alternativa com capacidade de auto-controlo, um outro eu.
Ao longo dos anos, e à medida que domino novos ensinamentos, reúno armas novas para a abater este inimigo, para arrancar do corpo o tormento do parasitismo imprevisto e espontâneo desta alma imaterial que teima em aparecer, sedenta da sua hora de tomada de posse. Já é assim há anos, custando-me desde amizades e momentos de solidão, batalhas perdidas e lares dizimados, ao sossego e paz da brisa que toca ao de leve as folhas castanhas do Outono.
Estou velho e cansado, miuchi, cada vez mais fustigado por esta avassaladora casualidade de encontros, alvo de uma personalidade negra fortalecida ao longo de séculos que avançou sem rédea de espada afiada em punho, retalhando e dissecando aquilo que a parte pura se encarregava de construir. Agora, com o terreno conquistado e fortaleza erigida, decide atacar, no apogeu de um exército de sombras cujo destino são aqueles que me rodeiam e em última instância, eu. Afasto-me, por isso, de vós Malditos e despeço-me dos restantes, não ciente se alguma vez regressarei do confronto em terreno desconhecido que está prestes a acontecer. Que permaneça a pluripotência dos ensinamentos que vos deixei a todos, aquando da sobriedade da minha alma.
Entrego-me à guerra com os olhos atentos à penumbra e a um inimigo de difícil rasto. O último espirro de sangue não será o meu. Faço-vos uma vigília antes de partir, caros Malditos, curvo-me na vénia do perdão pela nuvem de discórdia e o clima de desconfiança que indirectamente hei semeado entre vós – há no entanto uma lição a tirar daqui.
Derramo o sangue sobre esta epígrafe como prova de autenticação e de sanção.
Sonkei ken Ichibun,
Bachiatari Sensei