quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Leituras & Remédios #10



A leitura como um dos melhores remédios.
Em 1947, enquanto trabalha nos serviços administrativos dos Hospitais Civis de Lisboa, José Saramago – assim o próprio nos conta no Aviso que precede a história deste seu livro – conclui, aos 24 anos, aquele que virá a ser o seu primeiro romance publicado, não sem antes um infindável novelo de peripécias acontecer. Entre o manuscrito original que desaparece da editora para o qual o mandara, até aparecer noutra editora onde, sendo chamado, é convencido a abdicar dos direitos de autor e consentindo a transformação do título original de “A Viúva” para o definitivo “Terra do Pecado”. Este último era mais atractivo comercialmente, garantiam. E assim o primeiro livro de José Saramago surgiu no meio literário português, perdendo-se depois no tempo. Só em 1997, o autor o voltaria a incluir na sua bibliografia, possibilitando a leitura de uma nova edição do livro.

Como primeiro registo de um escritor que, décadas mais tarde, acabaria por ganhar o maior prémio literário do planeta, uma exigente análise depara-se logo nas primeiras páginas com o inegável: esta é uma obra quase não-saramaguiana, isto é, vislumbrando toda a sua obra desde que se tornou um notável nas letras portugueses, ou seja, desde que a sua popularidade tardia irrompeu (em 1980, com a publicação de Levantado do Chão) para níveis altíssimos, este livro não se enquadra na pessoa de Saramago, pelo menos aquela que estes muitos anos nos têm habituado, para quem o lê. Para começar e com maior contraste, a escrita de Saramago é normal, normal no sentido de que as regras de pontuação são inteiramente respeitadas: os diálogos, os parágrafos mais frequentes, os pontos finais a colocar pausas no fôlego da escrita. Tudo, está bom de ver, diferente do seu estilo actual: períodos longos, diálogos integrados na narração e separados por vírgulas, bem como o narrador omnipresente e omnisciente. Depois, o tema, neste caso, quase corriqueiro, sem grandes alaridos: uma mulher ainda jovem que se vê viúva com dois filhos ainda pequenos para criar e a responsabilidade de continuar a gerir os negócios da quinta da família, assim como todo o mundo rural ainda preso a velhos costumes (representado grandemente na personagem de Benedita, a governanta da casa), sedento de apontar o dedo às reviravoltas na vida de Maria Leonor (a viúva), o seu fugaz envolvimento com o irmão do seu falecido marido e a relação ambivalente com o médico da vila e amigo de longa data da família, o doutor Viegas, um ateu confesso e um arauto de um mundo moderno, deslocado do tradicionalismo português. Todo este enredo também se demarca dos temas fracturantes que deram a Saramago a fama: a humanidade, a morte, a política, a religião e o nosso lugar no mundo. Não quer isto dizer que eles não aparecem na história (a habitual crítica mordaz à religião, ao catolicismo, aparece já em doses consideráveis nas palavras deste jovem Saramago) mas a magnitude com que eles são expostos é que não faria lembrar o Saramago sempre cáustico e irónico dos nossos dias.
Contudo, para matar a curiosidade que nos permite tentar perceber como chegamos a ser o que somos, como se processa a maturidade que nos faz bons e argutos naquilo que trabalhamos, este livro, duro e directo dentro das suas paredes de quase trezentas páginas - porém, de suave extrapolação para o mundo -, dá uma espreitadela ao jovem Saramago que nunca se lembraria, naquele ano de 1947, de vir a ser um expoente do mundo artístico português, o único português agraciado com o Nobel da Literatura.

(E agora é aquela altura em que peço perdão aos bons críticos literários por me ter intrometido. Que venham as pedras, sempre dá para aprender a me desviar delas)


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José Saramago,
Terra do Pecado,
edição da Editorial Caminho.





Hermenegildo Espinoza

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Trago de Ilusão

Não fossem as sequelas deixadas pelo doloroso terramoto de Átila no meu rosto, tirava o chapéu ao pançudo da Madeira. É certo que, hoje em dia, mais do que prestar homenagem, há que cuidar da reputação e imagem.Caprichos à parte: do fundo dil cuore, acho duplamente oportuna a aprovação daquela lei que tem moldado novelescamente a política. Primeiro, porque atingido o tido como impossível é sem dúvida a melhor prenda de anos que alguém pode ter (ou acreditam em coincidências? Não são cá dos meus!). Segundo, porque ponderando ir até aquela ilha disfrutar dumas férias, num futuro muito próximo, até respirarei melhor. Esta é uma lei sensata que repõe justiça na repartição dos rendimentos para, ou melhor, das Regiões Autónomas. “A César o que é de César”.

Dilema, o meu. Porque Madeira? Em vez de disfrutar dumas férias nessa ilhota galardoada com a alteração da Lei das Finanças Regionais, podia rumar ao Carnaval brasileiro e desfrutar glúteos melanciosos. Na verdade, "Em Fevereiro abunda a bunda mas é no Brasil porque cá abunda o frio que faz com que as poucas bundas que abundam fiquem com pele de galinha".

Quem sabe, amanha ainda acordo e, no primeiro trago de café, vejo aprovada a Lei das Finanças Pittianas. E aí, sim: Brasil, mi aguardji!

p.s. Parabéns, Alberto João Éden.

Pitt

Não te deixaremos morrer, Hermann Hesse

Este blogue está - para todos os efeitos e com todo o orgulho - estranho e quase a roçar o bizarro. O que significa, também, que anda a cumprir os requisitos para a sua permanência. Nos últimos textos que temos debitado, além da razia emocional e algum desepero antropológico mais do que evidentes da nossa parte, temos levado com comentários que, sucintos e certeiros, têm despertado pequenas revoluções interiores. Veja-se este exemplo e também este, de alguém que julgo que não quer, e bem, deixar morrer as palavras de Hermann Hesse no seu Siddartha. Se a busca pela individualização como ser inteiro com algum significado perene passa por aí, não garanto, mas não há que temer esse caminho. São ideias profícuas para novas Leituras & Remédios. Vamos tentar. Fica anotado.



Hermenegildo Espinoza

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Palavras Proibidas...

“Depois a trágica retirada para o jazigo ou cova,

E depois o princípio de morte da tua memória.

Há primeiro em todos um alívio

Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido…

Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,

E a vida de todos os dias retoma o seu dia…


Depois, lentamente esqueceste.

Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:

Quando faz anos que nasceste, quando que faz anos que morreste;


Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.

Duas vezes no ano pensam em ti.

Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,

E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.”

In Poesia de Álvaro de Campos Vol. I, Fernando Pessoa, PLANETA DEAGOSTINI

Caros Malditos e leitores aspirantes a malditos,

Já há um largo período de tempo que não exponho neste nosso blogue as minhas palavras, que dizem alguns, serem de uma sabedoria natural. Mas não creio em tal. Comecei este meu post com um poema de Álvaro de Campos, poema esse que eu tenho uma admiração especial, pois é difícil encontrar uma definição de morte melhor do que a de Álvaro de Campos.

A morte é um processo lento e gradual, e não como nós aprendemos a paragem do funcionamento do tronco cerebral (é apenas o inicio). Consiste então numa queda no esquecimento principalmente por parte daqueles que nos amam.

Mas porque estou eu a falar de morte? Simplesmente porque nos últimos tempos, comecei a pensar mais nesta questão, e no sentido da vida. E cheguei à conclusão que o sentido da vida reside no objectivo de morrer realizado. Mas como podemos então sentirmo-nos realizados, quando não temos uma pessoa do nosso lado a apoiar, com a sua força, com a sua vontade de viver, de crescer, de amar, de encantar? Temos de procurar essa pessoa, que alguns dizem ser a nossa cara metade… Pode acontecer que tenhamos encontrado essa pessoa, e nunca tivemos coragem para lhe dizer, com um receio certo de ouvir um não. Talvez as palavras que sempre desejamos dizer são palavras proibidas. O seguinte excerto da música “Vontade de Mudar”, dos Madredeus, traduz o que eu digo.

“Pobre, de quem não tem

De quem não tem ninguém

E sonham que nunca é tarde

Quando encontrar alguém”

Isto é mais um dos meus devaneios, assumindo-me no papel de entidades distintas de mim, e reflectindo sobre as suas vidas, vivências, sentimentos e relações. É difícil viver na angústia de uma solidão rodeada de gente. Não tenho mais palavras…

Ubirajara Piatã © PD

domingo, 31 de janeiro de 2010

Realidade Percebida #8

Pergunto-me se é mesmo preciso ter pontaria para acertar com uma flecha numa maçã. Não basta apenas sorte? Diga-se que, nos tempos que correm, de uma maneira ou de outra eu não acertaria, ou por cataratas, ou por falta de sorte. Mas isso sou eu.
Pela primeira vez em meses voltei a sentar-me no velho cadeirão. A mente está mais cansada que nunca, o espírito é varrido pelas vagas mundanas da putrefacção que me rodeia e os objectivos estão mudados. De certa maneira, e por antitético e estranho que pareça, sinto-me mais novo. Infelizmente, sinto-me também outro.
"No cruzamento de Kahplan o touro encontrou dois caminhos. E ele sabia que era ele quem escolhia os caminhos e não o contrário. Escolheu a direita. E assim, ele enriqueceu, teve uma grande família e foi feliz; No cruzamento de Kahplan a cabra encontrou dois caminhos. E ela sabia que era ela quem escolhia os caminhos e não o contrário. Escolheu a direita. A cabra acabou esfomeada, sem amigos e sem sabedoria. Nunca foi feliz na vida".
Este ensinamento resume tudo isso.
Há sonhos, sonhadores e há pessoas felizes. Não se enganem: Se houver uma voz, um quente atordoante no peito ou uma lágrima no canto do olho que vos façam perder a força nas pernas e ficar afónicos antes sequer de berrarem, esse caminho vale a pena. Ser pragmático uma vez pode ser melhor que mil vezes teórico.

Com muita estima,

Bachiatari Sensei

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

entre escassas linhas #9

Há momentos em que o olhar transcende o ver.
(mentira, diz uma voz)
Não protesto.
Calo-me e divago...

"Admiro a sua silhueta de ser.
Descubro-a na penumbra do mundo.
Tem o seu destino traçado - depende de mim.
Tem a luz como inimiga, mas depende dela para se expôr.
Não a mentira, não a voz!
Não me vê, mas olha por mim..."

...porque da minha inveja eu tenho a sombra.

Pitt

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

O nosso nome é vida

Todos estes dias têm sido, grosso modo, um mandamento histológico de enormes prolongamentos relacionais para uma correcta extrapolação da vida enquanto ciência mutável e capaz de copular alegremente com o meio. Ou então para a loucura. Que venha outro louco para nos julgar.
Ao estudante de ciências, em toda a sua largura, é permitida uma endossimbiose com o desconhecido e, se incorporamos esse nevoeiro – eficiente para todos os efeitos uma vez que tem permanecido na escalada dos dias como variável constante – tornamo-nos, de igual modo, uma penumbra eficiente para nós mesmos . Até ao dia em que não mais os nossos olhos ou qualquer outro sentido tenham dificuldade em aperceber-se dos vários estímulos: passamos de penumbra à exactidão, tendencialmente revelando um alto mecanismo de segurança de nos negarmos a nós mesmos. É que enquanto resistirmos a essa falsificação de nós mesmos, somos a coisa menos má que poderia existir. Daí a beleza da Ciência: é o caminho mais íngreme e compensatório para afirmar que poderíamos ser tanto mais ao mesmo tempo que nos exaltamos enquanto pequena coisa. Exemplifique-se de maneira grosseira, perdoando certos círculos com diâmetros díspares, decorrentes da fraca manipulação informática por parte do autor:


Por isso somos vida, não uma consequência dela, mas a vida. Vida. Imaginem uma vida chamada Hermenegildo Espinoza. Daí que a minha não seja lá muito bonita.





Hermenegildo Espinoza

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

O sítio das coisas quase selvagens

A passagem de um ano não é mais do que isso: o ponto em que, de certa forma, mudamos os algarismos dos anos. Não mudamos fortemente, as promessas de bolso vazio são muitas, tudo aquilo que sempre queríamos ser não chega, pelo menos de maneira imediata e consumada. E ,se chega, não se deverá à miraculosa nova página do calendário. Antes à nossa força de acção. E à resistência mútua de par acção-reacção entre nós e o meio. Exemplifique-se: o Clube está na mesma, os seus membros com os mesmos defeitos e qualidades, mas com uma preguiça temporária, fruto muito provável de uma não capacidade em resistir à força do meio sobre nós. Estamos, grosso modo, preguiçosos. Uns ainda a recuperar o fígado das misérias, a adquirir o ritmo circadiano estabelecido antes das épocas festivas. Estamos intermitentes, contudo apostados na continuidade.
O médico, naquilo que nos concerne e no que temos oportunidade de falar intra-grupo, tenta, inevitavelmente, remar contra a hegemonia dos sítios selvagens, onde não sabemos conceber a não-humanidade, pois sempre haverá médicos enquanto houver humanidade e homens e mulheres e erros e novas variáveis e surpresas e mistérios e frases copulativas e vontade e ousadia e mais passado e mais presente e mais futuro. Sem isto não fomos, não somos, não seremos. Os lugares nomeados de selvagens para nós não existem (mas podem, e bem, ser imaginados): são antes lugares menos humanos ou de menor prevalência de humanidade. São os sítios das coisas quase selvagens.




Hermenegildo Espinoza

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

zzz ZZZ zzz


...perguntarão vós: que raio se passa pelo blog maldito?

Carecem palavras, mas não letras.
Carece tempo, mas não ideias.
Não sei explicar este fenómeno de outra forma sem pegar naquela molécula que resiste a todo o fármaco de que dispomos: TERMOGENINA.
(nãããããããããoooo!!!)
Uma vaga de termogenina deixou os malditos num estado de hibernação por tempo indeterminado...
... ó termogenina!

Pitt

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Gira-discos #14 das doze passas

Eu sei que os Grizzly Bear, são, de facto, uma banda agradável. Sei também que, neste último álbum, o terceiro, «Veckatimest», lançaram-se numa teia mais pop, num salto que não abandona o som mais experimental e rock folk dos anteriores registos (quem quiser confirmar pode ouvir esta óptima música «Knife» do segundo álbum e confirmar). Sei isto muito bem e, apesar de ser manifestamente pouco, juro que, se oiço mais uma vez a publicidade da Peugeot a repetir em ciclos mais rápidos do que o Speedy González com uma malagueta enfiada pelo recto acima (raio das estações de televisão, parece que fazem de propósito), gravo os anúncios da IdeiaCasa e as lições gastronómicas da Filipa Vacondeus e coloco-me a vê-los pela noite dentro da festa de Ano Novo, isto tudo para não entrar em processo de demência e degeneração neurológica. É difícil, eu sei que é, mas para grandes males, grandes remédios.
Last but not least, admito que o Clube anda um pouco enfadonho (sou pelos vistos o único sem vergonha a vir aqui chatear as pessoas em tempo de férias ou lá o que isto é; o resto dos elementos anda numa espécie de reconciliação com eles mesmos: "fazem bem e não fazem mais do que utilizar a inteligência que Deus lhes deu" diria uma das minhas vizinhas aqui do prédio se soubesse da nossa existência enquanto clube, o que não acontecerá nas próximas vinte e três inversões do campo magnético terrestre - ela gosta demasiado da excelência informativa do 24horas). Talvez isto melhore para o ano. A ver vamos. Para terminar definitivamente, como gostava de partilhar uma música e algum fogo-de-artifício digno de se equiparar ao da passagem de ano da Madeira com os estimados leitores para lançar 2010 e, apercebendo-me que a música em causa tem passado pouco nos meios de comunicação social de todo o mundo e também porque estamos em controlo de despesas por aqui, deixo-vos o vídeo. Tem tudo, tudo. Música, quatro indivíduos bem vestidos e espectáculo de fogo-de-artifício no fim como um apogeu singelo. O champagne comprem-no vocês.




Grizzly Bear - Two Weeks




Hermenegildo Espinoza

sábado, 26 de dezembro de 2009

Esta época natalícia não deve andar muito longe disto


Louvem-se os sonhos e as rabanadas, o bolo-rei (se bem que prefiro o rainha) e o vinho do Porto, e, mais importante, o cinto das calças que já tenho vai para cinco anos e que, não tarda, verá um novo furo utilizado. Eu soube logo que era uma prenda das boas quando mo ofereceram pois vinha juntamente com umas peúgas e com A Queda do Camus. Os bons amigos, na sua condição de família por nós escolhida, sabem sempre quando estamos prestes a cair. É preciso aprender, com a sua ajuda, a levantarmo-nos do chão. Um brinde, meus amigos.




Hermenegildo Espinoza

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

E por aqui andamos com as luzes psicadélicas a trautear músicas

Antes de mais, nos melhores costumes malditos, no bom gosto da época, tão propícia ao enternecer do nosso sistema límbico, queremos enviar os nossos parabéns para o tal gato que anda para aí há um ano a demover muitos jovens do suicídio intelectual, ajudando na cruzada da vida universitária dos estudantes icbasianos. Nesta época da tão famosa e precisa sopa dos pobres, convém relembrar que este felino indivíduo anda há um ano, numa missão solidária, a fornecer sebentas, livros, soluções, discussões de trezentos comentários com anónimos e assinantes com nomes extravagantes e dúbios e música inaudita bem como pirlimpimpim de iniciativas (não se pode odiar um ser que goste de Scrubs, minha boa gente). Portanto, estamos na presença de um ser que, até indirectamente, sem conhecer, potenciou a predisposição pré-existente para que uns indivíduos se acabassem por juntar e formar uma coisa qualquer que dá pelo nome de O Clube dos Médicos Malditos. Para felicitações ao próprio Tommy é seguir, então, por aqui.

Como não possuo qualidades vocais e talento para os instrumentos que me permitam uma mensagem de natal digna de tal nome, deixo então os postais natalícios de um génio que dá pelo nome de David Fonseca e que, desde 2006, brinda as pessoas com umas covers do mais original que se tem visto. Este ano, vejam só, pegou na música panisgas do Last Christmas e fez uma coisa de jeito, sempre com a originalidade que o caracteriza. Não custa admitir, aliás, devíamo-lo fazer mais vezes, mas este país é muito pequeno para o talento e para a arte deste senhor. Bom Natal e bom ano de 2010, é pois o que se exige.



2006



2007



2008



2009




Hermenegildo Espinoza

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

entre escassas linhas #8


Durante cerca de 2 meses habitou numa caverna

teve calor não humano
teve luz nunca a viu
não pôde escolher não tinha essa liberdade

[a sua liberdade limitava-se ao círculo delimitado pela corrente da grilheta que o prendia]

nesse espaço de tempo

o calor que sentiu cingiu-se àquele que era emanado pelas labaredas duma fogueira que se encontrava a 30 segundos de distância das suas costas
tudo o que vira resumia-se à sua sombra estampada no fundo da caverna

Para se estar ali
das duas uma
a) ou se escolheu estar por vontade própria.
b) ou contra a própria vontade foi-se escolhido para ali ficar por tempo indetermindado

De qualquer das formas os b) grilhetados não deixam de ser os mais frustrados
Pudera
foram puxados pelos a) para aquele beco sem saída

não tiveram oportunidade de escolher a sua condição

"Olá, eu sou o Pitt. Sou b) grilhetado. Estou na caverna contra a minha vontade, fui levado por um a) grilhetado que me culpa da sua condição actual: estar ele também preso na caverna. Apetece dar-lhe uns abanões e trazê-lo à realidade:

-Estamos aqui, assim, porque foi tua vontade !"

Resta-lhe ter fé no poder oxidante do "éter"
A páginas tantas a ferrugem apoderar-se-á daquela grilheta e aí poderá escolher
Não terá de se submeter.


Pitt

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Gira-discos #13



Tiago Bettencourt & Mantha - Outono

Do tiritar da estação agreste e exacerbada pelo frio, temos a inércia como fonte de incapacidade, do tardar dos trabalhos a fazer. É que os dias estão propícios à pasmaceira e ao espanto no vislumbre das luzes de natal, para alguns psicadélicas, da avenida dos Aliados. Numa boa companhia, numa conversa animada por sorrisos cheios de ar expirado em colunas de nevoeiro, um fim de tarde/início de noite pode ser acolhedor. A noite é um puzzle de dez mil peças e as luvas de lã contêm segredos escondidos debaixo da eminência tenar. E revoltamo-nos com as nossas obrigações, com a falta de tempo imposta por factores, sei lá ao calhas, anátomo-epidemio-histo-fisio-neuro-bioquímicos. E depois sabe bem olhar para o chão tingido por essas luzes de natal que projectam - como refere certa bíblia histológica - aspectos de tronquinhos secos no chão de uma floresta aludindo a fibras reticulares. O curioso é que sabe bem, dizia, olhar para esse chão e não ver mais nada. Nada. Nada de histologicamente relevante ou de qualquer outra estirpe científica. Apenas aspectos de tronquinhos secos no chão de uma floresta, excepto para aqueles que negam a virilidade da frase. E, enfim, as luzes do término do Outono.



Hermenegildo Espinoza

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Leituras & Remédios #9

"(...)
Também conheço os prédios. Quando vou pela rua, cada um deles como que me ultrapassa a correr para se virar e olhar para mim, com as janelas bem abertas, e só lhe falta dizer:«Bom dia, como está? Eu também estou bem, graças a Deus, em Maio vão acrescentar-me um andar.» Ou:«Então, como passa? Quanto a mim, amanhã vou para obras.» Ou:«Por pouco não ardi todo, apanhei cá um susto», e assim por diante.
(...)


páginas 14 e 15


"(...)
Sabe, Nástenka, até que ponto eu cheguei? Sabe que já me vejo obrigado a festejar os aniversários das minhas sensações, os aniversários das coisas que eu gostava tanto dantes mas que, pura e simplesmente, não aconteceram - aniversários de sonhos, de sonhos estúpidos e imateriais - e que me vejo obrigado a fazê-lo porque nem sequer esses sonhos estúpidos já existem e porque não tenho com que os suplantar: porque também os sonhos podem ser suplantados! Sabe que agora gosto de recordar e visitar nas datas certas os lugares onde outrora fui feliz à minha maneira, gosto de construir o meu presente em conformidade com o passado irrecuperável, e vagueio muitas vezes, como uma sombra, sem necessidade nem sentido, triste e desalentado, pelos becos e ruas de Petersburgo!
(...)

páginas 49 e 50

"(...)
Meus Deus, que grito! Como ela estremeceu! Como se arrancou das minhas mãos e voou ao encontro dele!...E eu a olhar para eles, mais morto do que vivo. E ela, logo que lhe estendeu as mãos, logo que se lhe atirou para os braços, voltou-se de repente para mim, correu outra vez para mim, envolveu o meu pescoço com ambas as mãos e beijou-me calorosamente. Depois, sem dizer palavra, voltou para ele, pegou-lhe na mão e levou-o consigo.
(...)"


página 90


Fiódor Dostoiévski
Noites Brancas, romance sentimental das memórias de um sonhador

edição Biblioteca Editores Independentes

(a leitura como um dos melhores remédios. quando as noites se prolongam por intermináveis conversas como focos de luz na escuridão inquieta, surgem ligações tantas vezes assimétricas. o apoio de uns acaba por ser a razão existencial de outros. e como se safam aqueles que fazem do sonho estandarte? aqueles que emitem prolongamentos de procura de justificação para o éter assomado da sua própria solidão? são as noites claras alongando-se até que o crepúsculo amparado pelo nascer do sol prontifique uma nova manhã.)


fotografia da autoria de Hermenegildo Espinoza


Hermenegildo Espinoza

domingo, 13 de dezembro de 2009

entre escassas linhas #7

Olho mas não vejo
Pergunto-me e não tenho resposta
Talvez não fui feito
Nem para olhar nem para perguntar
(Ou fui e não quero!)

Ó raízes, desvendai-vos!
Mostrai-me os vossos propósitos.


Por enquanto, "tudo isto é sal que não salga."


Pitt

sábado, 12 de dezembro de 2009

é a vida, Costa!

É por estas e por outras que o Diabo veste Armani!


Pitt

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Mil milhões de biliões de obsessões e a calçada portuguesa

Para curar uma febre teimosa pouco mais precisamos do que paciência. Não porque haja febres mais teimosas do que outras uma vez que a partir do momento em que ascendemos na escala do termómetro de mercúrio (permitam-me o louvar do antigo instrumento) colocado na recôndita axila, tantas vezes felpuda e sapiente dos nossos humores expelidos por sudoreses incomodativas, todas as febres - todas sem excepção - são sinónimo de teimosia, de uma afinco pelo incómodo. Quase como se o nosso corpo se rebelasse contra nós mesmos para nos salvar. Esta linha ténue e fronteiriça entre a salvação e o abismo está presente em todos os nossos âmagos, em todos os processos inerentes à condição humana mais enraizada, mais fisiológica, na lógica do salve-se-quem-puder-meu-deus-cada-um-por-si-até-morrermos-enfim.
O que me provoca agora celeuma e uma certa histeria mental não é mais do que isto: deveria eu perder o meu tempo a pensar nisto constantemente, nestes arranjos alicerçados ao longo de milhões de pedaladas de tempo conspirativo para a essência dos meus momentos? Por que razão não sou mais hedonista, mais focado nas pequenas coisas que fazem o todo e não no todo em si como revelação? A vida não deveria ser uma única obsessão, mas sim o conjugar de, como diz o poema-canção de valter hugo mãe (de minúsculas como ele gosta), mil milhões de biliões de obsessões. Os meus gatos, ali ao lado, nem com os prestigiosos nomes que com ousadia os baptizei, dormem na penumbra de um aquecedor. Alguém lhes tira a ideia, naquele ronronar, de um hedonismo perfeito?
Costuma questionar-me um amigo:
- Espinoza, como é que nos podemos livrar desta maleita de olhar para as coisas e de querer ver mais do que elas nos parecem mostrar?
E eu - tão frequentemente abuso do mesmo tique - baixo a cabeça e olho para as pedras da calçada (a calçada portuguesa diz-nos tanto com as suas fissuras e relevos) sorrindo aos tropeções:
- Gosto tanto de dizer que não sei.




Hermenegildo Espinoza

domingo, 6 de dezembro de 2009

entre escassas linhas #6

Compreenda-se:
Se tenho sede e me é dada água... sorte a minha, porque tinha sede, e sorte a da água, se queria ser bebida.
Se tenho fome e me é dado pão... sorte a minha, porque tinha fome, e sorte a do pão, se queria ser comido.
Agora, imaginemos que tenho somente sede e que, para além de água, me é oferecido pão. Na condição de que só posso optar por uma das coisas, tenho, dum lado, pão que quer ser comido, do outro, água que anseia ser bebida.
A atitude esperada da minha parte não surpreenderia em nada se eu optasse por saciar a minha sede, apesar de dispôr de um pão que necessita ser comido.
Porém, surpreenderia bastante se, tendo eu sede, por querer ambas as coisas em simultâneo, não optasse por nenhuma delas. Na pior das hipóteses, pela dúvida morria de sede. Pois bem, das duas uma: ou eu não teria assim tanta sede quanto aquela que proclamava e teria alguma fome, ou simplesmente agradar-me-ia o facto de ter, tanto o pão como a água, a lutarem para serem devorados por mim.
... de qualquer modo,não deixa de ser difícil de engolir.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Leituras & Remédios #8

Às vezes escondo-me no corpo e ninguém me vê.
As pessoas falam comigo e não notam que eu não falo com elas.
Posso até dizer algumas palavras,
posso até exprimir-me num longo discurso,
mas a verdade é que não falo com elas.
Estou escondido algures no meio do meu corpo.
Enfio-me todo no esófago ou no centro da artéria aorta ou na veia jugular,
e, por vezes, quando estou mais tímido, chego mesmo a esconder-me nos músculos da planta do pé.
Apesar de não saber os nomes destes músculos escondo-me lá muitas vezes.
Aliás, é melhor fugirmos para sítios de que desconhecemos o nome: ficamos ainda melhor escondidos.
É a minha opinião.

A minha personalidade a refugiar-se inteira no dedo mínimo do pé esquerdo, vejam bem.
Por vezes acontece-me.
O meu EU alojado no dedo mínimo do pé esquerdo.
Os mais importantes pensamentos concentrados no dedo mínimo do pé esquerdo.
As minhas sensações mais íntimas escondidas no dedo mínimo do pé esquerdo.

Quando me pisam é que é uma desgraça.
Só se tiver a sorte de me pisarem o outro pé.
Quando me pisam o pé mais importante começo a gritar; e começar a gritar é o começo do fim.
Quando gritamos não nos podemos esconder.
O corpo vem todo à pele ver o que se passa.
A pele é como se fosse uma janela.
Quando gritamos de dor, todas as células do corpo vêm à janela, ou seja, à pele, para assistir à procissão.
Mas há muitas células do meu corpo que não concordam totalmente com as minhas ideias.
Obedecem-me porque não têm alternativa, mas nas costas gozam-me e por vezes insultam-me.
Prefiro mesmo assim os insultos.
Os insultos são pequenas pancadas vindas do fundo dos órgãos.
É mais ou menos suportável.
O terrível é quando se põem a rir de mim.
Eu digo:
— Sou um grande acrobata,
e sinto logo algumas células a rirem-se.

As costelas abanam todas.
Os dentes é como se tivessem muito frio.
Os dedos dos pés encolhem-se.
É como se soprasse uma rajada de vento no meio do corpo.
Ainda por cima riem-se de quem as alimenta.
Se isto não é ingratidão, não sei o que é ingratidão.

Células más, um dia ainda vos mato.

O problema é que elas me têm por refém.
É impossível matar as próprias células do corpo sem morrer.

Parecendo que não, esta vida é muito complicada.




Poema de Gonçalo M. Tavares, retirado do livro O homem ou é tonto ou é mulher.



(a leitura definitivamente como um dos melhores remédios.)




Hermenegildo Espinoza

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

do espinoza #11

Se chegares encharcado a casa, o cabelo a pender pela testa e as rajadas de frio subindo em cortes transversais pelo teu corpo, como um arrepio axial humanizado (AAH), não conseguindo, contudo, estabelecer qualquer raciocínio lógico para aquilo que ele te implora, para o mal-estar que certamente te enclausura como bicho solitário, não desanimes muito, ou, se for o caso, se o desânimo acabar por te encobrir, não o leves demasiado a sério, não o tomes como dado adquirido e persistente. É tudo sol de pouca dura, ou, digamo-lo em pratos limpos, chuva de pouca dura.
O mais acertado a realizar, por muito refutável que seja (tão claro é que não dominamos variações, não somos produtos ambientais e genéticos estáticos) é prosseguir a vida, por mais que o corpo sofra (regozijem-se pela sua submissão à vontade). Concomitante com a ideia do que somos uma simbiose corpo-mente de refinada eficácia, convém avisar o corpo – tantas vezes déspota e tiranete das nossas vontades – que isto de convivência implica uma dose de democracia. Mesmo que o castigo contenha repercussões na própria mente – atestando a evidência da formosura simbiótica - deve-se incorrer nesta separação das águas. Em democracia é preciso saber perder. Que o corpo tenha noção que também a mente necessita de mimos.
Espera umas horas para enveredares pelo reconfortante banho. Não porque o corpo o pediu à exaustão, mas porque a mente assim o ordenou. Se ele, o corpo, ficar amuado, tanto melhor.




Hermenegildo Espinoza

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Gira-discos #12

... para que tenham uma noite boémia e rapsódica, deixo-vos com uma versão Marreta dos Queen: "Bohemian rhapsody"



e caso a "mamma!!" não responda, esqueçam o "daddy".


Pitt

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

entre escassas linhas #5

...juntem-se dois corpos, heteros,
numa cama.
Se necessário
...impregne-se etanol aos corpos.
Caso isto não baste
...tire-se-lhes a roupa e... "foi uma vez, uma noite".

Porém,
Se coexistir com com os dois corpos, heteros, numa cama,
apenas uma alma. Dois corpos, uma alma!
Se coexistir com a impregnação alcoólica,
apenas uma vida, a dois.
Se coexistir com o despir das roupas, intimidade,
entrega, fusão...

...então, "o momento não caberá no tempo".


Individualidade partilhada, ou dualidade unificada?
Irrelevante, se se tratarem de dois corpos, uma alma!


Pitt

domingo, 22 de novembro de 2009

Resultados da sondagem...


Através de uma atitude democrática, o Clube dos Médicos Malditos deu a oportunidade aos seus leitores de votar, numa sondagem que questionava se era a Prof. Corália que aparecia no vídeo de homenagem ao Prof. Nuno Grande...
O povo votou, e como tal escolheu: Sim, definitivamente! Com 54% dos votos, esta maioria absoluta é prova viva que é realmente a Professora Corália! Venha quem vier, esta ideia ninguém nos tira!

Só mais uma coisa: estes últimos anos fizeram-lhe muito bem!...

Sem mais nada de momento,

Saudações Malditas!


Ubirajara Piatã©

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Leituras & Remédios #7



"(...)
Disse uma vez a uma mulher:«Não creio que possa envelhecer contigo, mas gostaria de ter um filho teu antes de nos separarmos.»Tratava-se de uma enorme declaração de amor, mas a minha sinceridade não comoveu o âmago da minha amada; fez as malas e pôs-se na alheta no dia seguinte. Essa santa tentara durante três anos converter-me à conjugalidade. Deixava o seu shampoo esquecido na minha banheira. Eu devolvia-lho, com um grande sorriso, no encontro seguinte. Pedia-me licença para arrumar uma blusa extra no meu roupeiro. Uma ocasião disse-me:
- Eu sei que, lá bem no fundo, tu precisas muito do meu amor...
Eu respondi-lhe com os confortáveis estereótipos do teu discurso, mestra definitiva - e ainda nem te conhecia:
- Os homens-que-lá-bem-no-fundo são um truque de ilusionismo que as mulheres inventaram para poderem continuar a ser vítimas sem ofender as conquistas da sociedade contemporânea.
(...)"


página 47 (negrito conforme original)


"(...)
Ando à caça de palavras resplandescentes, tropeço nelas dentro e fora da vida, interpreto, magoo-me, interpreto outra vez, sujo-me, borro a pintura da cara que não tenho, das caras que fui desenhando sobre a cara que me faltou - mas ah, os jovens, nunca. Nunca soube o que eram «os jovens», nunca soube o que era «o meu tempo».
(...)"

página 51


"(...)
Tu nunca tinhas frio e achavas que tiritar era um sintoma de fraqueza espiritual. Desprezavas casacos e abafos. Nunca estiveste doente. Gostavas de mergulhar em ondas frias, a tua voz soava com a força do próprio mar. Perto da tua campa ainda fresca, o epitáfio de um homem que devia ser eu. «Aqui jaz alguém que nunca quis morrer, que teve a sorte de nascer homem, não Deus.»"

página 152


"(...)
O que importa não é o enredo, a forma, nem sequer a cor. O que importa é a circulação conjunta de um corpo e de uma alma em torno do despojado sedimento da sua verdade."

página 236


"(...)
- Cuidado, Sininho. Corre!
(...)
Haverá um cheiro a juventude perdida nesse relvado, há sempre um cheiro que só se descobre depois na relva molhada. Mas já não me lembro como era, fica longe, longe, cada vez mais longe."


página 239



Inês Pedrosa
Fazes-me Falta

edição de bolso Booket
págs: 239

(a leitura como um dos melhores remédios. como pode a morte separar uma ligação tão intensa entre duas pessoas? contar uma história a dois. chora quem fica, chora quem foi. sorriem os dois. há uma falta indelével. e as simbioses ad aeternum)

fotografia da autoria de Hermenegildo Espinoza


Hermenegildo Espinoza

sábado, 14 de novembro de 2009

Exclamação!

Cegos. Repito, cegos. Juntem-lhe uma causa, mas teremos sempre o mesmo fim.
Congratula-mo-nos e damos graças pela visão, ou então nem pensamos nisso porque a Natureza do ser humano não é a de "boa, acertei dez em vinte" mas a de "porra, falhei dez em vinte!". Pergunto, será que sabemos usar os olhos de facto? Pois bem, agora adivinhem onde quero chegar, tal como o cego tacteia o escuro em busca de um caminho. Quando descobrirem, perceberão que estar de olhos fechados pode ensinar a andar de olhos abertos.
Ao que se constata, os tempos mudaram. Abandono dia a dia o tom jovial e o patriotismo heróico de outros tempos para materializar o genocídio espiritual e a fraca carne do que é viver hoje - Ò Poeta, esse Quinto Império, esse que outrora esboçavas por entre linhas incertas e uma determinação colossal, há muito que foi derrotado, não pela falta da elite culta e civilizada que espreita a esquina, mas pela prosperidade de uma anarquia de estilos variados mas todos eles igualmente ateus à cultura e boas maneiras.
E se algum dia alguém disse "Eu tenho um sonho", eu volto a dizê-lo: Eu tenho um sonho. Sonho com o dia em que a geração de hoje deixe de dividir águas e passe a amenizar a terra, sonho com o dia em que formigas da mesma colónia deixem de fomentar revoltas pelas palavras aleatoriamente (em sujeito e conteúdo) cuspidas como veneno de cobra. Sonho, mas não caio na ilusão de crer em milagres. Porque afinal, quando no dia seguinte acordar, tudo estará na mesma e os mudos e surdos não deixarão de o ser, nem mesmo os fala-baratos e cuscos passarão a mudos ou surdos; já me tinham falado no ciclo fútil e vil da vida, mas ainda não me tinham dito que era tão entropicamente favorável.
E o pior. O pior... É estar-se numa eterna puberdade, numa idade do armário na qual estagnamos, sem fome de mais nem sácia de menos, nem ter massa cinzenta para entender implicações, responsabilidade e noção do ridículo.
Isto aprendi eu nos primeiros anos de vida, outrora, não agora.

Derrotado,

Bachiatari Sensei

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Gira-discos #11

New Order - Ceremony

Uma adolescência acompanhada por Joy Division acaba sempre por nos entricheirar entre a rebeldia e o sonho. Ouvimos o baixo, a guitarra, a bateria a pedalar nos nossos ouvidos e aquelas palavras melódicas da voz dura e profunda do Ian Curtis e achamo-nos donos de um estrebuchar de adrenalina subindo-nos pelo corpo. Quantas vezes não amplificamos a música no quarto, colocamo-nos em frente ao espelho e berramos surdamente contra ele, contra a nossa imagem? Quantas vezes não insuflamos a jugular no pescoço, enervados com o mundo e com a cerimónia que nos desampara? Tudo dentro do quarto, alheios ao mundo e ao sagrado no sentido humano.
Lembro-me, pois, da primeira vez que ouvi o Ian Curtis na solidão do meu quarto, muito depois do seu suicídio e do surgimento dos New Order. E, admito, custava-me a crer que alguém com aquela voz, aquele potencial, tivesse sucumbido à epilepsia do mundo, mergulhado no fundo da depressão com tanto do divino da vida por experimentar. Entretanto, não deve ter morrido de certeza. Andamos nós a falar dele e, como bem se sabe, só morremos quando morrem as últimas pessoas que ouviram falar de nós. Vamo-nos tatuando na matéria envolvente. Foi o que fizeram os New Order que, para começar, não deixaram morrer uma das últimas músicas escritas pelo Ian Curtis. Música essa que se chama - digo-o com um sorriso - Ceremony e que, se olharem para mim podem não notar, mas está impressa debaixo de toda a minha pele:

This is why events unnerve me,
They find it all, a different story,
Notice whom for wheels are turning,
Turn again and turn towards this time,
All she ask's the strength to hold me,
Then again the same old story,
World will travel, oh so quickly,
Travel first and lean towards this time.

Oh, I'll break them down, no mercy shown,
Heaven knows, it's got to be this time,
Watching her, these things she said,
The times she cried,
Too frail to wake this time.

Oh I'll break them down, no mercy shown
Heaven knows, it's got to be this time,
Avenues all lined with trees,
Picture me and then you start watching,
Watching forever, forever,
Watching love grow, forever,
Letting me know, forever.



Hermenegildo Espinoza

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

do espinoza #10

Lembro-me do barulho áspero das gaivotas aos círculos sobre a minha cabeça. Lembro-me da Reitoria sombria a pingar nas sombras e do eléctrico a cavalgar os carris como a fricção dos dedos pelo frio. Lembro-me da espessura das ruelas do Porto, lembro-me das capas negras e das comissuras dos lábios das raparigas de cabelos soltos. Queria da vida um istmo, uma passagem para o lado de lá da estrada, para os pavimentos nivelados pelo nosso andar. Lembro-me de não haver inclinações, da calçada rectilínea e da fachada manchada do egrégio Hospital de Santo António. Relembro as comissuras dos lábios das raparigas trajadas. Lembro-me de fechar as mãos como um tubo, de sentir a ponta dos dedos como um epitélio de transição para algo maior. Com o tempo sabemos que haverá uma hora em que o comprimento do nosso corpo ultrapassará o comprimento da calçada, pois somos a soma dos nossos dias e dos dedos daqueles que nos tocaram. Lembro-me da minha primeira namorada descer as escadas do instituto, nunca esquecerei o seu sulco naso-geniano: o mais perfeito que encontrei. Depois dela se subtrair à minha vida, de me ter encurtado a distância na calçada, jamais voltei a olhar para outros sulcos naso-genianos. Só as comissuras dos lábios. Lembro-me de só querer subir as escadas e ir para o átrio do instituto. Lembro-me do cheiro, tão entranhado que está na pele e no hipocampo. Lembro-me de não querer mais nada na vida. Acabo desde aí os dias tentando medir a minha distância na calçada. Coloco um pé na sola da entrada da Lello e vislumbro ao fundo o castanho do instituto. Tento avançar com a outra perna e verificar se chego até à fachada do Santo António. Tenho a perna curta, mas aos poucos irei lá.




Hermenegildo Espinoza

domingo, 8 de novembro de 2009

entre escassas linhas #4

...era uma vez um gajo
(uma passa)

que
(outra passa)

não sabia
(e outra, e outra e mais outra!!!!)

que o mundo...
(acabou-se o café!)


Pitt

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

"Taras e Manias"



... caros leitores!



Há dias em que o sono é pouco, mas também os há aqueles em que ele se faz sentir demais. Sobretudo nesta altura, a época do ano em que supostamente pouco se estuda. Ou quando supostamente se devia ter sono e não se tem.



No entanto, a verdade é esta: existem sempre bons e maus resultados. Até arriscaria a dizer que bem descritos por uma rechonchudinha curva de Gauss. Paradóxico é o usar-se a mesma desculpa para justificar os dois extremos. "Correu-me mal... mas também estudei pouco". Ou entao, "Correu melhor do que esperava, e isso que não estudei quase nada!" Na verdade, quando penso nisto lembro-me sempre da história do Marco Paulo: ninguém ouve as suas músicas, mas ele tem discos de ouro e de platina. Enfim... Taras e Manias minhas.


Talvez tente a clássica técnica de contar ovelhas. Afinal de contas, o Mr. Bean não é só comediante...




Pitt

terça-feira, 3 de novembro de 2009

entre escassas linhas #3

...era uma vez Deus e o Diabo. Era uma vez um espaço com limites, restrito, que nasceu para ser isso, um sítio.
Era uma vez pessoas que viviam nesse lugar. Era uma vez o homem e a mulher.

Foi-se a mulher. Era uma vez um homem.
Perdeu-se o homem, era uma vez um lugar.
Germinado um não lugar, era uma vez Deus.

Ora, na ausência de um Deus, para que temer o Diabo?

Porra!!!!


Pitt

sábado, 31 de outubro de 2009

entre escassas linhas #2

... era uma vez ninguém que procurava alguém. Por tanto mundo percorreu, não encontrou alguém. Ninguém, mais, vinha lá. Em vez disso, encontrou outro ninguém que, coincidência das coincidências, procurava outro alguém. Entre tantos ninguéns, certo era que se procurava alguém.
"Alguém está aí?"
O despertador tocou, a essência p e r d e u - s e !
Pitt

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Leituras & Remédios #6


"(...)
- Tudo isso são idiotices...O Amor? Pf...Mas que vem a ser o amor? Uma necessidade orgânica, nada mais. Para obrar, podemo-nos servir de um vaso de loiça; para amar precisamos de um recipiente de carne...O Dante, o Camões Zarolho...Bolas!...Patetinhas alambicados, imbecis versejadores...Tu, provavelmente, meu patarata, não foges à regra geral: vais para aí, ao lusco-fusco, dizer mil banalidades a qualquer burguesinha sensual e camafeu...Resistes, a pé firme, ao vento e à chuva, hein?...Pobre de espírito! Felizardo...Irás para o reino dos céus...Ah!Ah!
(...)"

página 12

"(...)
Que a loucura, no fim, é como tantas outras, uma questão de maioria. A vida é uma convenção:
isto é vermelho, aquilo é branco, unicamente porque se determinou chamar à cor disto vermelho e à cor daquilo branco. A maior parte dos homens adoptou um sistema determinado de convenções:
É a gente de
juízo...
Pelo contrário, um número reduzido de indivíduos vê os objectos com outros olhos, chama-lhes outros nomes, pensa de maneira diferente, encara a vida de modo diverso. Como estão em minoria...são doidos...
Se um dia porém a sorte favorecesse os loucos, se o seu número fosse o superior e o género da sua loucura idêntico, eles é que passariam a ser os ajuizados:
Na terra dos cegos, quem tem um olho é rei, diz o adágio: na terra dos doidos, quem tem juízo, é doido, concluo eu.
(...)"


página 37


"(...)
Se Raul se mostrava esquecido das suas manias, despreocupado e jovial, era precisamente porque, mais do que nunca, se deixara apossar por elas. Provam-no as suas notas diárias que nesta época abundam: bizarras, nebulosas, indecifráveis na maioria"

página 69


Mário de Sá-Carneiro,
Loucura
3ª edição da ulmeiro, 1999
págs:78


(a leitura como um dos melhores remédios. a loucura. da normalidade com reduzido desvio-padrão para a anormalidade. o que é aceite como regra que dita a sociedade. a subjectividade das interpretações. somos tudo menos normais. com elevado intervalo de confiança.)


Hermenegildo Espinoza

terça-feira, 27 de outubro de 2009

"Eu numa palavra só dizia que o Prof. Nuno Grande é.. é fixe"

Carissimos Leitores,

Apresento aqui um video-homenagem ao Dr. Nuno Grande, uma excelente pessoa e um excelente médico...

Neste video de 33min e 43 segundos, gostaria que tomassem especial atenção a partir dos 22 min e 20 segundos...


Ubirajara Piatã

entre escassas linhas #1

... era uma vez um rapaz que seguia o seu caminho. Deparou-se com uma ponte que consistia numa só corda. O seu único objectivo na vida era passar para o outro lado. Nunca antes tal experiência tinha vivido. Arriscou, hesitante e inseguro, atravessar pelo único percurso que atingia o seu projecto, numa altura suficiente para facultar um último suspiro a qualquer individuo. Caiu. Não fracturou perna. Não inflamou tecido. Não luxou articulação. Não deixou fugir a memória... Perdeu a personalidade. Tudo pelo que lutara escapou-se-lhe em míseros segundos. As suas convicções desvaneceram-se.
Deu um último suspiro,
e mais um último suspiro... e ficou ali, não morto, mas com um sentido de vida morto.



Pitt

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Manifesto de um Maldito #2 parte 2

continuação deste relato

Com os gestos habituais de uma diabética desde os 15 anos como confidenciou, fez tudo certinho. Resultado: 40 mg /dl.
Estava, portanto, hipoglicémica. Mais do que tentar perceber o que tinha, o importante era aumentar, quanto antes, os valores de glucose no sangue.
- Como é que não me lembrei de medir isto? Devem ter sido os nervos.
Pus-me a pensar enquanto dava açúcar empapado em algumas gotas de água à senhora, fornecido pela minha vizinha, passando depois para um pouco de sumo de laranja que ela também me forneceu. Se ela tinha vomitado, como contou depois, o almoço e o pequeno lanche da tarde, certamente que desde a hora do almoço (12h30) que não ingeria carbohidratos, ou melhor, estes não chegavam ao sangue pela digestão, pelo que esse precioso substrato energético estava em falta. Provavelmente as outras vias, como a gluconeogénese (impulsionada pelo glucagon) ou a glicogenólise não estavam a conseguir compensar esse défice e o corpo ainda não tinha engendrado mais nenhuma das outras vias que suprimissem, rapidamente, esse mesmo défice. Só me surgiam hipóteses. Porém, o necessário seria tornar os valores normais.
A senhora acabou por melhorar e após um tempo mediu novamente os valores. Estavam a subir, chegando mais próximo do normal. Entretanto, apareceu o seu marido para a ir buscar e ela foi à sua vida, mais animada e com os sintomas de tremura e tontura praticamente ínfimos. Agradeceu-me a ajuda, não antes de eu lhe recomendar que quando chegasse a casa comesse qualquer coisa para estabilizar e que medisse os valores mais uma vez, não fosse também exagerar na comida ingerida provocando uma posterior hiperglicemia. Se a dor de barriga persistisse ou o problema - agora desaparecido - que a fez vomitar, voltasse, seria melhor ir ao centro de saúde ou hospital. Contudo, a visível melhoria indicava que o problema tinha sido pontual. Assim se deu este nano-caso clínico, mas que vai para o catálogo de esperiências.
Analisando a situação constato que pouco mérito meu existiu para a recuperação da senhora. Mais que provavelmente viria o momento em que ela própria se lembraria de medir os valores de glucose no sangue e saberia pela certa como actuar, habituada por tantos anos de doença. Quanto muito, a minha acção teve alguma significância em não deixar agravar a situação. Isto é, não foi necessária uma resposta científica de todo o tamanho, essencial foi falar com a senhora e relembrá-la do seu estado prévio que poderia estar na origem do seu mal-estar. Depois convém confortar os pacientes e permitir que a díade se desenvolva.
Pequenas coisas, um médico vive por vezes de pequenas coisas. Coisas simples, nada estrondosas na actuação mas que sejam elementares e eficazes. Nestes momentos não sabemos se somos bons ou maus médicos, sabemos somente que temos de agir. Se nos calha um solução mais simples, tanto melhor para nós como para o paciente. Se nos é pedido um maior esforço, compete a nós que o façamos. Até se pode dar o caso de de não ter tido em conta todos os factores ou de o modo de conduta poder ter sido diferente. É normal a variação e poderiam surgir críticas à minha actuação. Felizmente que o paciente, o interessado, saiu a ganhar. Vivemos neste limbo de ciência e agilidade. E por lá continuaremos.
Voltei para casa com a sensação de vazio habitual em mim um pouco atenuada. E com a dita carta. Apaguei as luzes da sala e sentei-me no cadeirão de vime que está no centro, com os meus gatos enrolados nas pernas. Tentei calcular o meu peso no mundo. Pensei umas horas. Não consegui. Quando acordei de manhã no mesmo cadeirão só me vinha à cabeça que estava atrasado para o raio do trabalho.




Hermenegildo Espinoza

Sondagem - feedback

O xis ganha (50% dos votos) com maioria absoluta, como fundamento, ou desculpa, da prolongada ausência do Cluni. Ora, nada mais resta a dizer relativamente a esta ausência quase anual do Cluni, uma vez que os resultados falam por si. Mesmo falando por si, uma questão deve ser levantada acerca dos resultados: porque não escolheram os votantes a mesma hipótese para ausência do Cluni quando todos estiveram sujeitos ao mesmo Cluni ( leia-se manifestação quase ausente do mesmo)?

A resposta a esta pergunta pode constar numas pinceladas pós-impressionistas, nos pigmentos da tinta a óleo dispersos por pêlos da crina de cavalo num movimento de revolta quanto ao surgimento da máquina fotográfica sobre uma tela.




Efectivamente, da mesma forma que Van Gogh via as estrelas na noite com círculos brilhantes concêntricos, por estar sob o efeito da terbentina, os votantes viram Clunis distintos. Viram o Cluni, não à luz do que ele é, mas à luz do que são… Se estavam sob o efeito de terbentina, isso já não sei dizer. Quiçá!?


Pitt

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Manifesto de um Maldito #2 parte 1

Ou

As peripécias da Esperança Boa-Morte, da Maria do Carmo e do Espinoza.

Um médico, enfermeiro, técnico ou qualquer outro digno profissional da saúde tem de estar preparado para, face a uma situação imprevista ou anormal, poder dar o seu contributo quando tal é necessário. A experiência e as repetições de situações bem que ajudam o sistema nervoso a ganhar uma habituação que pode, a qualquer momento, despoletar um resposta racional a uma adversidade. O conhecimento teórico que adquirimos em enxurradas de matérias na universidade tem de se complementar com a personalidade de cada um. Será, porventura, perfeitamente normal que alguns de nós se adaptem mais facilmente às situações, quer seja por um maior bem-estar a lidar com as pessoas, quer pelo coerente e assimilado conhecimento científico. A um médico, entre outros, pede-se que, dentro das suas limitações, saiba conjugar esses dois factores: conhecimento científico-técnico com a predisposição variável da nossa personalidade para lidar com as pessoas e com os condicionantes do meio. De pouco vale cingirmo-nos apenas à perícia teórica ou apenas à perícia comportamental. A sua conjugação permitirá, aí sim, uma maximização de resposta.


Hoje, por volta das seis da tarde, cheguei a casa. Aguardava uma carta relativa a uns assuntos pessoais e como por vezes o carteiro, na minha ausência, deixa a correspondência com a minha vizinha de baixo, dirigi-me até à sua porta. A vizinha, de seu nome Esperança Boa-Morte, recebeu-me com o carinho habitual:
- Então, Hermenegildo, vens ver se o carteiro deixou alguma coisa?
- Nem mais, dona Esperança.
Mandou-me entrar. Enquanto foi buscar a carta que estava na cozinha, reparei que estava a empregada das limpezas da Dona Esperança - uma senhora na casa dos cinquenta talvez - sentada no sofá da sala, extremamente pálida e angustiada.
- O que tem a senhora? – sussurrei para a dona Esperança.
- Aqui a Maria do Carmo está mal-disposta, vomitou há pouco e diz que se sente muito mal, com tonturas e algum tremor – disse a dona Esperança em voz alta chegando-se ao sofá.
- Ai é? – respondi – E desde que vomitou não se sente um pouco melhor?
A empregada olhou-me, no meio da sua indisposição, com a expressão “se soubesses ao menos como eu estou, com esta angústia, queria ver se gostavas”.
- Sabe – contou a dona Esperança – aqui o meu vizinho Hermenegildo é médico.
A súbita mudança do olhar da senhora anunciou a alteração da anterior expressão para “vejam só, o raio do rapaz é médico. Ai, olhem para aquilo, com aquela barba toda por fazer e o cabelo despenteado, com cara de quem anda sempre mal com o mundo. Nem parece que é um doutor”. Escassos segundos depois estava a recíproca díade médico-paciente estabelecida. O status da minha profissão surgiu e a senhora estava agora cooperante, pronta a que eu a ajudasse, olhando com algum respeito, diria.
- Se calhar foi qualquer coisa que eu comi. – referiu – Caiu-me mal a comida e eu vomitei.
- Não tem nenhum problema de saúde, pois não? – perguntei mais por rotina do que propriamente para deslindar o que poderia ser. Não fazia qualquer ideia do que a afectava. Podia ser um simples indisposição ou má-digestão passageira sem qualquer papel sintomático. No fundo, podia ser tudo e nada.
- Sou diabética daquelas que precisam de insulina, mas ando controlada, medi de manhã e estavam bem os valores. O meu médico diz que de manhã não deve ser menor que 60 e que mais ou menos duas horas depois das refeições deve andar por volta dos 110, acho eu.
Estava bem informada, pensei. Os valores recomendados, que nem sempre são iguais para todas as entidades, não andam muito longe disso.
- E já mediu os níveis agora, dona Maria do Carmo?
- Ai, não, esqueci-me. Como estou tão mal-disposta com estas tonturas nem sequer me lembrei disso -referiu alarmada.
Foi então medir os valores.



continuo o relato amanhã...



Hermenegildo Espinoza

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Leituras & Remédios #5


"(...)
Uma velha sentada no café treme da cabeça, não a consegue segurar, por vezes faz mesmo o gesto (de a tentar agarrar), mas também já não tem forças nas mãos, e a vida é reles, é banalidade, é asco e sangue. Nos cafés, nas camas com os amantes, na cadeira à espera da morte do pai, na rua, desprevenido, morre-se em todo lado, em todo o espaço e em todo o tempo; já deve ter acontecido (às centenas) durante a missa, durante um funeral já milhares devem ter morrido, caíram no chão, pensa-se de imediato num desmaio: por quem choramos agora se há dois mortos e para onde vamos se há dois cortejos a avançar em direcções opostas?
(...)"


do texto A velha que treme da cabeça, no café, página 9.

"Uma vez senti algo semelhante. Tinha que pagar a um oculista. Levava o cheque já preenchido. Cheguei ao sítio e disseram-me: Morreu ontem, num desastre de carro. Tinha o cheque em nome dele, e agora estava morto. O primeiro pensamento foi: se eu tenho um cheque para lhe pagar, ele não pode estar morto. O segundo pensamento, passados uns segundos, foi: vou ficar com o dinheiro. O terceiro pensamento foi: como é que a tua cabeça foi capaz ter aquele 2º pensamento? O quarto foi: toda a gente pensa todas as hipóteses numa situação, mesmo as hipóteses nojentas.
Mas o senhor tinha um pai ainda vivo, e eu rasguei o cheque antigo e escrevi o nome do pai no cheque - era quase o mesmo, só mudava a primeira palavra. Estávamos os dois num restaurante de comidas rápidas, de pé. E o pai do meu oculista, que morrera num desastre de automóvel dois dias antes, estava vestido de preto e estava triste, falava pouco, e tinha os olhos baixos. Mas recebeu o cheque."

do texto Outro desastre, página 43.

"(..)
Entrei na casa. Um piano sem muitas teclas, algumas ainda fazem som, mas a voz de um animal ferido fica diferente.
- Este piano já não pode tocar.
Os animais (como os homens) quando estão próximos da morte ficam com a voz semelhante à dos pais. Assusta, mas é bom.
Podes pôr asas atrás das costas a fingir que és anjo. Mas serás enterrado à mesma.
(...)"


do texto O pescoço grande do cisne, página 89.


Gonçalo M. Tavares,
água, cão, cavalo, cabeça
edição da Editorial Caminho


(a leitura como um dos melhores remédios. Daqueles crus e sem a desnecessária epiderme camuflante. Muito mais poderia trancrever-se. O homem e o mundo, o homem e o mundo. E o que anda lá no meio. Para um bom entendedor.)


Hermenegildo Espinoza

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Errata

Por razões transcendentes à nossa maçonaria, um espectro virtual iletrado terá invadido o nosso pequeno lugar cibernético para esfaquear a língua-mãe que nos orienta. Assim, na sondagem acerca do silêncio de Cluni, onde diz "credênciais" deve ler-se "credenciais".
Posso adiantar que os Malditos estão a conduzir uma investigação para apurar a origem deste "virus" e deslindar as suas verdadeiras intenções. O suspeito número 1 é, para já, Maitê Proença, por razões óbvias.

Agradecido pela clemência demonstrada,

Bachiatari Sensei, ad nominus Médicos Malditos.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

erro médico #1

"Os erros dos médicos a terra os cobre."

Este velho ditado popular desmascara o véu protector dos ossos do nosso ofício, afasta a terra que tapa e é cumplice do erro médico na sepultura da vítima (realmente, sou de extremos!).



Em suma, ditam os que se regem pela doutrina maldita:

Os erros dos médicos, afinal, a terra os descobre.


Pitt

domingo, 11 de outubro de 2009

O que um médico tem de ouvir...


Meus caros malditos, após muito tempo de reflexão, em que estive refugiado nos Himalaias, decidi voltar...

Esse tempo de reflexão mostrou-me uma outra vertente na minha vida... o Humor.

Apresento-vos então, as célebres frases que nós, medicos, um dia ouviremos...


"Não sei se isto que tenho no ouvido é cera ou caruncho."
"Não sou muito afluente de vir aos médicos."
"Não tenho dores, a voz é que está muito fosforenta."
"O dente arrecolhia pus e na altura em que arrecolhia às imidulas infeccionava-as."
"O Médico mandou-me lavar a montadeira logo de manhã."
"O meu marido está internado porque sangra pela via da frente e pinga pela via de trás."
"O meu pai morreu de tísica na laringe."
"O meu reumatismo é climático."
"O pouco cálcio que tenho acumula-se na fractura."
"Ou caiu da burra ou foi um ataque cardeal."
"Ouço mal, vejo mal, tenho a mente descaída."
"Quando acordo mais descaída tomo comprimidos de alta potência e fico logo melhor."
"Quando eu estou mal, os senhores são Deus, mas se me vejo de saúde acho-vos uns estapores."
"Quantos filhos teve? pergunta o médico. - Para a retrete foram quatro, senhor doutor, e à pia baptismal levei três."
"Receitou-me uns comprimidos que me põem um pouco tonha."
"Também desculpe, aquela médica não tinha modinhos nenhuns."
"Tenho a língua cheia de Áfricas."
"Tenho artroses remodeladas e de densidade forte."
"Tenho cataratas na vista e ando a tomar o Simião" (Sermion)
"Tenho de ser operado ao stick . Já fui operado aos estículos."
"Tenho esta comichão na perseguida porque o meu marido tem uma infecção na ponta da natureza."
"Tenho humidade gordurosa nas cordas vocais."
"Tenho pedra na basílica."
"Tive três úlceras: uma macho, uma fêmea e uma de gastrina."
"Tomei Sexovir" ( Isovir )
"Tomei uns comprimidos jaunes, assim amarelados."
"Tomo o Sigerom e o Chico Bem" (Stugeron e Gincoben )
"Tomo um vinho que não me assobe à cabeça."
"Tomo uma cábulas à noite."
"Tomo uns comprimidos a modos de umas aboborinhas."
"Vem-me muitos palpites ruins, assim de baixo para cima...."
"Venho aqui mostrar a parreca."


Ubirajara Piatã

Imagiologia (quase) médica #7

Estava eu vagueando pelo extraordinário mundo da internet, quando encontrei estas preciosas instruções que penso que serão muito úteis aos futuros papás e mamãs, a fim de facilitar a sua interacção com o bebé.

Há muitos pais que têm problemas em alimentar as suas pequenas crias, por isso penso que a seguinte instrução será de grande valor e por isso seguida à risca para que o bebé seja alimentado correctamente.


Adegesto Pataca

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Manifesto de um Maldito #1

Soa a voz imperativa e as fileiras agitam-se, em polvorosa, desembainhando as espadas em saudação à figura suprema que os comanda. Ferozes, avassaladores, impiedosos inspiram o ar fétido em suor e presságios de morte para rapidamente expirarem a uma só voz até ao raiar dos olhos, à saliência das veias, à saliva que lhes espuma da boca. O grito tempestuoso de 400.000 pulsos de testosterona chega a fazer tremer chão, imagine-se aqueles que de outro lado aguardam a sua investida.

Estes últimos, porém sabem que não é o número que dizima o patriotismo, o orgulho, a dignidade, a honra, o dever, o paternalismo e o sangue porque lutam. Sabem-se sujeitos - porventura condenados - à morte nesta luta, mas nem isso os demove, nem isso é capaz de esfriar o calor que lhes irradia do peito, o sentido de missão, o ranger dos dentes. Uns sorriem à saudação do inimigo, outros lambem meticulosamente os lábios saboreando o cheiro da sua presa, outros porventura inspirarão fundo procurando no ar enregelado a calma que lhes permita cumprir o seu dever; Mas nem um - repito, nem um - abandona o companheiro que está ao seu lado, nenhum recua face à ameaça.
As mãos pintam a cara com a poeira, os pés cravam-se no solo sagrado que defendem, as linhas cerram-se em bíceps que lado a lado preparam lanças e escudos para a batalha, a respiração rápida e pesada é conjugada com olhares cegos de compromisso e lealdade absorvendo as barbáricas visões que contemplam.
O medo, nada disso tem lugar aqui.
É no entanto neste fôlego de vida e resistência que assenta aquilo que é ser um Maldito (parte, pelo menos, pois ser Maldito é ser mais completo que isso) e é partindo deste pressuposto que ser Maldito é ter uma visão autónoma, pessoal, verdadeira, lógica e incalável daquilo que à nossa volta parece colapsar ou cair sobre nós.

"In reading lives of great men, I found that the first victory they won, was over themselves... Self discipline with all of them, came first." - Presidente Harry S. Truman

Custos Vigilat

Bachiatari Sensei

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Imagiologia (quase) médica #6




Ao Homem quase tudo é permitido. Habitamos o mundo e dele somos grua: exponenciamos capacidades e disseminamos resoluções e modos de viver. Tão perfeitos somos que até o mal consciente conseguimos engendrar, não havendo tamanho fascínio por tal “habilidade”. Na escala do tempo, e sendo nós uma ínfima parte sua, poder-se-á interrogar se, analogamente, não estaremos nas fases iniciais de um Big Bang civilizacional. Indicam os nossos olhos – com as devidas dúvidas sobre a autenticidade dos nossos sentidos - que sim. Estamos naquilo que se compara a um embriogénese, lançando feixes expansivos para o nosso redor. Cegos criativos nascemos e vamos reduzindo as dioptrias à medida que avançamos na precisão dos relógios atómicos. Uns mais que outros indubitavelmente.
E se esta pedalada pelo monte helicoidal não bastasse, desenvolvemos a maior das técnicas para a sobrevivência, mais que os restantes seres do planeta. Ainda que com muito instinto, sorte, e favorecimento darwiniano quanto baste, encetámos a versatilidade do bypass. Somos os dogmáticos do “contornar por cima”, do “chico-espertismo”, do desenrasque, do desemerdar, do científico - em todos os sentidos – bypass. Contornar os obstáculos. Tenho um fraco suprimento de sangue no meu próprio coração? Ó meu amigo, faz-se um bypass, altera-se a rota de um vaso ou então implanta-se um tubo sintético que faça a ligação. Tenho um vazio de moedas no bolso? Ó amigo, vai trabalhar, não é? Tenho uma rapariga que não me ama? Ó amigo, parta para outra. Mãe, já gastei o dinheiro todo da mensalidade para as minhas coisas da universidade, o que faço? Ó filho, desemerda-te.
E mais que projectos subliminares de vida, um Deus ou vários, que a haver ou existirem, tenham um plano para nós, por muito que tudo seja afunilado, dúbio ou ribau bau bau pardais ao ninho, haveremos sempre de nos desemerdar. Fazendo alterações de rota a nós próprios, aos outros, ao ambiente envolvente, aos nossos ideais e princípios, daremos sempre a volta. Circum-navegando a adversidade. O pior que poderá acontecer será retornarmos ao mesmo ponto, ao nosso seio coronário existencial para logo sermos enviados para longe, até onde tenhamos retina. Temos trabéculas e músculos papilares para dar e vender. Auriculetas e septos regateando. Válvulas separando os lugares. Com as mãos em cone formando um infundíbulo projectado para os membros mais separados da varanda supra-orbitrária. Dentro da grande circulação do mundo temos a pequena circulação nossa.
Imagiologia (quase) médica. Imagiologia (quase) humana. Um coração em cada objecto.






na imagem, o bypass mais ternurento de sempre
: Las Dos Fridas (The Two Fridas), da autoria de Frida Kahlo, 1939.






Hermenegildo Espinoza

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Demandas científicas (ou não) #2

Caros malditos e simpatizantes deste maldito blogue, tenho para vos contar uma história merecedora da vossa atenção, história essa protagonizada por mim e por um camarada. Garanto-vos que foi uma grande aventura por mim vivida.
Passou-se por estes dias um ajuntamento de mentes brilhantes, no qual eu e o meu camarada estivemos presentes. Neste tipo de encontros nós, brilhantes cientistas, temos como diversão a troca de ideias e o relatar de investigações nas quais estamos envolvidos. Qualquer pessoa que por lá passasse ficava encharcada com a onda de sabedoria que por lá se sentia. Depois de muito confraternizar e até porque a idade já pesa, resolvemos ir embora. Como o local deste encontro ficava no meio de nenhures tivemos que ir no meu carrito, um antigo citroen 2cv da mesma cor que o sangue maldito que me corre pelas veias, que apesar de ser bastante antigo serve para as minhas deslocações pessoais. Lá fomos nós, ainda meios reticentes se devíamos ou não aproveitar mais um pouco a festa, ansiosos por chegar aos nossos confortáveis lares para podermos assentar estes velhos esqueletos.
Já muitíssimo longínquos do local de partida, em plena escuridão, tendo como únicos focos de luz os faróis amarelos da minha 2cv e o luar que penetrava por entre o arvoredo, de repente ouve-se um grande estrondo que ressoa por toda a brenha e o carro estagna no meio da rua. Que se passou? Esta pergunta ressoava nas nossas cabeças. Saímos do carro, eu levantei o capo da 2cv e deparei me com o pior, o radiador tinha estoirado. E agora? Que fazemos? Perguntavámos nós. Como não somos grandes admiradores daqueles aparelhos de comunicação que todos acham primorosos, os telemóveis, nenhum de nós tinha um, não tendo por isso nenhuma forma de comunicar com alguém para pedir auxílio. Ali estávamos nós na penumbra, sem saber o que fazer. Estacávamos à espera que passasse alguém ou diligenciávamos regressar ao nosso ponto de partida pelos nossos próprios calcantes e pedir lá apoio? Passado uns breves momentos de reflexão e discussão decidimos caminhar na direcção do local onde estavam os nossos compinchas de ofício.
Lá íamos nós pelo meio daqueles trilhos ardilosos e pavorosos na expectativa de encontrar ajuda. Eu, apesar da minha idade e experiencia, tenho pouco espírito de aventura e pode-se dizer que a minha bravura não é bem a de um feroz leão (talvez de um pequeno gatinho), por isso digamos que enquanto andava no meio daquela negrura sentia algum temor e qualquer diminuto ruído fazia o meu velho coração disparar. O meu camarada, que em tempos foi um experiente combatente, tendo batalhado com o intento de defender os valores da nossa pátria, aproveitava a situação para me amedrontar ainda mais.
Depois de muitos quilómetros percorridos, já quase a cair de moimento, aprontamos que estávamos perdidos, pois nunca mais descobríamos os nossos compinchas e não fazíamos a mínima ideia de onde nos encontrávamos. Eu estava atónito com a situação, pensando que ainda tinha muitos anos para viver e muitas descobertas para fazer, não queria ficar sumido no meio de nenhures, enquanto que o meu caro camarada se divertia bastante com a situação. Sem saber para onde ir arriscámos caminhar até encontrar a povoação mais próxima e lá pedir auxilio.
Continuámos nós então a nossa jornada nocturna, sem rumo, até que de repente começamos a ver ao fundo o que parecia ser uma pequena aldeia, ao aproximarmo-nos reparei que aquele lugar me era familiar. Após um pequeno esforço da minha memória reconheci aquela pequena vila, era a vila onde eu passei um deleitoso fim-de-semana neste saudoso verão que passou. Já estava mais contente, pois já não me sentia tão à nora. Fomos caminhando pela vila dentro na expectativa de encontrar alguma alma que permanece acordada aquela hora e nos pudesse auxiliar.
Estávamos nos deambulando pelo areal, já quase sem esperança e a pensar que iríamos permanecer naquele local até ao amanhecer, quando avistamos ao longe um humilde cafezito, milagrosamente ainda com as portas abertas. Apressadamente caminhamos na sua direcção, onde encontramos uma empregada, que indiferente à nossa situação, nada fez para nos tentar ajudar, e uns alegres rapazes, que apesar do péssimo gosto musical, esforçaram-se em encontrar o número de um carro de praça que nos pudesse levar até aos nossos lares. O objectivo era chegarmos a casa para repousar e na manha seguinte ligaria a um garagista para ir buscar o meu veículo. Ligámos ao taxista pelo telefone do café e esperámos ansiosamente pela sua chegada. À chegada à porta da minha humilde casa, os nossos corações dispararam ao ver a conta que o taxista nos apresentou, mas enfim, lá tivemos nós que pagar. Finalmente em casa, senti-me novamente seguro e fui ter o meu merecido descanso.

Adegesto Pataca

Gira-discos #10

Já lá vão 10 anos que partiu aquela digna mulher cujo fado era o fado.

Por entre cordas nyloniezadas se discriminava outra acústica genuína, uma corda dotada de um crescendo biológico e compassada pela autêntica alma portuguesa.






A ti, Amália, dedicamos alguns pixéis espácio-virtuo-temporalmente malditos, na voz de Sónia Tavares!



Pitt