sábado, 31 de dezembro de 2011

The Walkmen trazem-nos a véspera de ano novo





Hermenegildo Espinoza

2012, na mouche

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;

Todo o mundo é composto de mudança,

Tomando sempre novas qualidades.


Continuamente vemos novidades,

Diferentes em tudo da esperança;

Do mal ficam as mágoas na lembrança,

E do bem, se algum houve, as saudades.


O tempo cobre o chão de verde manto,

Que já coberto foi de neve fria,

E em mim converte em choro o doce canto.


E, afora este mudar-se cada dia,

Outra mudança faz de mor espanto:

Que não se muda já como soía.


Luís de Camões, sua Poesia Lírica




Hermenegildo Espinoza

domingo, 25 de dezembro de 2011

Possível topografia dos lugares interiores #50

50. a lanugem dos homens com frio.


Quantos homens são precisos
para encolher o frio
e para apagar o desenho
que a humidade traz na parede?

Quantos instrumentos,
quantos orgãos, ossos, músculos,
quantos tendões quantos
são precisos para tocar, para partir,
para esquecer o tiritar
quanto são precisos
para abafar e enterrar
a melodia cruel do inverno?

Não mais que a soma da lanugem
de todas as novas crianças do mundo
e não menos que o comedido afago
de dois homens sozinhos e com frio.





Hermenegildo Espinoza

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Gira-discos #38



B Fachada - A Casa do Manel

Esquecer a escola e o dever, fazer as coisas por prazer, fantasiar grandes perigos, fazer planos, muito amigos para viver, daqui a muitos anos os dois num país qualquer.



Hermenegildo Espinoza

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

não me travem quando eu quero acelerar #1

Trago a roupa de estrada, vou percorrer a calçada,
- fachada?,
fugir antes de voltar para trás, eu lembro-me de que antes os meus dedos mexiam quando eu pedia, o meu corpo saltava quando eu pedia, as pernas corriam na savana do tempo porque o tempo era o meu, e não percebo, não percebo mesmo, mas desde há meses,
- anos ou talvez sempre?,
que choro sem que o ânimo peça, treze semáforos a verde num percurso de meia-hora, nenhum trânsito na calçada, e eu não preciso de me desviar, não preciso de parar, conheço apenas a modalidade de acelerar,
- não me travem quando eu quero acelerar,
é o que eu lhes grito sempre, mas não sei o que dizem as pessoas, não digo nada nem nos sombrios confessionários da infância, não conto rigorosamente nada, não faço amigos, porque se os perco também me vou perdendo a mim, quando o sol se põe no céu e eu me lembro que num percurso de meia-hora treze semáforos,
- é preciso ter sorte, sim, treze é formidável,
treze semáforos, senhores, em que o verde brindou-me brilhante a passagem, não precisei de cantar de regozijo, o alcatrão do chão gelado,
- é inverno, rapaz, estamos no inverno,
caminho ao abrigo dos leões e vejo mosaicos num azul fechado,
- as cores fecham-se, não sabias?,
oiço estilhaçar vidros no chão, e os meus pés colam-se às pedras, uma rapariga decotada de lábios exagerados,
- queres?,
e eu não quero nada, o frio não me incomoda e não tarda regressarei a casa conformado,
- sei fazer umas coisas que te podem animar,
não me parece que a rapariga saiba de algum método eficaz para mitigar um desamparo aprendido, nem que me ensine a falar a língua dos outros,
- decide-te que tenho outros à espera,
pela rispidez duvido que ela saiba o que é o conforto de treze semáforos a verde, e pelo vestido vermelho eu julgo que não é para avançar, alguém tomará o meu lugar, alguém que sofra do mesmo anseio, alguém que diga,
- quero, sim,
e me relembre,
- não querias acelerar?,
eu queria tanto, até porque o sol não tarda aí a acordar a multidão que se ergue da cama para a destilaria do ódio,
- vão morrer todos, vão, e julgam que é melhor não pensar nisso, é estranho,
e eu vou tentando ser decente, a culpa não é deles, nem todos podem encontrar quinze semáforos a verde,
- que quinze?,
peço desculpa, treze, treze semáforos a verde, eu não tenho culpa que desde há meses eu chore sem que o ânimo peça, nem que a roupa de estrada me leve de retorno a casa,
- todos os dias é o que tem acontecido,
embora eu repita, enquanto a janela do quarto se fecha e já não oiço o vidro estilhaçar, que não me poderão travar todas as vezes que eu quiser acelerar.






sábado, 10 de dezembro de 2011

Possível topografia dos lugares interiores #49

49. o homem que queria morrer sossegado.


O homem que queria morrer sossegado
pediu-me, inquieto,
que o deixasse morrer sossegado,
enquanto houvesse tempo bastante
para que a morte matreira
não se lembrasse por fim
de o vir buscar à pressa.

O cientista em mim inquietou-se
nas palavras inquietas e tão tristes
do homem que queria morrer sossegado,
mas o médico em mim só descobriu o sossego
quando firme apoiou a mão na mão fraca
do homem que queria morrer sossegado
e garantiu-lhe que não o deixaria morrer inquieto.

O homem que queria morrer sossegado
acabou por não conhecer a inquietação na morte,
enquanto o cientista em mim conheceu amargurado
todos os precipícios da morte que olhava pelos olhos
do médico que em mim fechava em sossego
os olhos do homem que morreu sossegado.




Hermenegildo Espinoza

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Epitáfios para um médico de algibeira IX

/O médico que conheceu o sossego é o resultado do conjunto de doentes que não morreram inquietos./



Hermenegildo Espinoza

sábado, 3 de dezembro de 2011

Gira-discos #37



Ray Charles - I Don't Need No Doctor





Hermenegildo Espinoza

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Possível topografia dos lugares interiores #48

48. uma transfusão de elementos figurados do medo.


Tem um carácter particular
o medo que trespassa a pele
a mesma que teimosa
deveria ser impermeável.

Na confusão da história
a falência do medo é perniciosa
e é tão grave como a coragem louca
que raramente vem uma segunda vez.

Atenta sempre
às condições do corpo
que no seu elementar desejo
deve ter o receio de subir a montanha.




Hermenegildo Espinoza

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Isto de estar vivo ainda um dia acaba mal

Todos os semáforos entre o alfarrabista de eleição e a minha casa dos gatos literários estavam vermelhos. Todos. Estive parado em em todos os semáforos. Foram cerca de sete. Fina ironia a desta vida, a mandar-me interromper a marcha insistentemente. E eu insisti também, dando logo trabalho às pernas assim que o macadame livre mo permitia. Não faço futurologia com semáforos, mas põe-te fino, Espinoza. Como dizia o Luiz Pacheco, porque assim já o tinha dito o Manuel da Fonseca, isto de estar vivo ainda um dia acaba mal.



Hermenegildo Espinoza

domingo, 20 de novembro de 2011

O narcótico dado às cegas

quando não se é ouvido vai-se bater a outra porta.

foi o que fez o rezingão. rezingão que se preze, não só faz oscilar membranas timpânicas, como também provoca oscilações da glote, em movimentos coordenados de cordas-palavras.

o rezingão não tinha esse efeito com o, até então, seu ortopedista. que se pode fazer perante um ortopedista enviesado? é surdez e não-cegueira.

se essa surdez é ou total, ou selectiva, é outra questão. mas estou em crer que se a deficiência auditiva fosse absoluta, o ortopedista jamais teria sido ortopedista, porque não conseguiria acudir aos "ais" que todos os dias o chamam.

a não-cegueira é osso do ofício. ortopedista só acredita na dor que se vê: tibias fracturadas que espreitam a luz do dia; pisiformes com microfracturas no papel Curie, luxações dos pés às 12h30min.

portanto,ortopedista só ouve aquilo que vê. é céptico.
o analgesista, não. ouve o que não salta à vista. não deixa de ser céptico, mas é metódico.

resta-me ter fé no seguinte: que a mão do rezingão faça ressoar a campainha certa.

galli pitt

sábado, 19 de novembro de 2011

A dor asiática

É a chamada dor osteo-étnica ou osteo-racial: há dias, um doente rezingão, daqueles muito sensíveis a uma correcção, queixou-se que já andava farto de referir ao seu ortopedista que não podia mais com a sua dor asiática. Hipócrates bem sabe o que me custou a placidez dos músculos faciais do riso.


Hermenegildo Espinoza

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Pouco me importo, se, arrastado pelos mercados, der falência o BIMM.
Mas esta crise vai além da algibeira.

A crise chega a tudos.

um maldito

terça-feira, 15 de novembro de 2011

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Possível topografia dos lugares interiores #47

47. a arte de refilar nas salas de espera.


Uma cadeira não esquece as horas,
os minutos prolongam-se nos ossos doridos
enquanto alguém espera uns segundos eternos.

Não há má notícia que aguarde a sua vez
nem maus diagnósticos que se acumulem
nos corredores de olhares cabisbaixos.

Quem refila na sala de espera
tem medo que o medo da dor
chegue e não avise ninguém.




Hermenegildo Espinoza

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Possível topografia dos lugares interiores #46

46. não chegaremos ao tempo dos pés inchados.


Os que padecem
de felicidade insuficiente
vivem no estigma da ausência
na falta que lhes faz um relógio
que acelere o tempo em que a felicidade
corre desenfreadamente nas artérias.

Os que se queixam
de felicidade restrita
vivem acordados numa insónia
num sonho estagnado no passado
que não lhes traz a almejada boa-aventurança
numa fé carcomida pela rouquidão dos discursos.

Os que vão morrer
numa parca felicidade
não terão tempo de ver
os dois pés inchados
porque o coração incapaz
não aguenta a nossa triste figura.



Hermenegildo Espinoza

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Gattuso e a paralisia do nervo abducente.


O sexto par craniano, no olho esquerdo, anda a apoquentá-lo. O olho que se recusa a mexer. O olho esquerdo parado. A história do jogador que via a dobrar. Aguenta-te, Gattuso.


Hermenegildo Espinoza

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Possível topografia dos lugares interiores #45

45. o senhor Broadman desenhou um mapa.


Um bicho faz-de-conta tornou-se real
e o verdadeiro cérebro
tornou-se o cérebro faz-de-conta.

Desconhece-se o paradeiro
do bicho faz-de-conta
mas há estudos que apontam
claramente
que o verdadeiro cérebro
está debaixo das arcadas do mundo
a brincar à cabra-cega com o consciente.

O senhor Broadman desenhou um mapa
cheio de números, casas e sentidos,
toda a morada do verdadeiro cérebro,
e tentou convencê-lo a regressar
com palavras científicas, as mais sábias.
Pobre senhor Broadman, não sabia mentir,
e por isso o verdadeiro cérebro exilou-se
vive por aí entretido a tentar perceber
o que aconteceu ao bicho faz-de-conta
que endoideceu a querer ser real.





Hermenegildo Espinoza

domingo, 25 de setembro de 2011

Possível topografia dos lugares interiores #44

44. as úlceras do corpo que chora.


Úlceras do corpo que chora,
pode o corpo chamar para si a tristeza
que mais nenhum corpo quer?

Quando a firmeza é vazia,
sabe a pele a ácido
das úlceras do corpo que chora.

O corpo todo ele frouxo
vive embargado
preso nos arames
de uma amizade ulcerada.



Hermenegildo Espinoza