domingo, 20 de maio de 2012

Revolução Cardíaca (3)

- Se o teu pai não aceita, e desconfia do que eu tenho para te dar, avisa-o de que eu estudo noite e dia para ser o melhor.
- É isso mesmo que o assusta.
- Assusta-o que eu lute para ser o melhor?
- Assusta-o que lutes noite e dia só por ti.



Hermenegildo Espinoza

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Possível topografia dos lugares interiores #56

56. um amor parkinsónico.


Amor, pedes-me a calma
que este tremor não deixa.
Em repouso,
os membros entusiasmam-se
como os gaiatos bem sabem
quando a paixão depressa é
o maior dos sintomas universais.

Amor, eu vivo rígido,
e procuro-te,
em todos os cantos,
como um bloco dorido,
à medida dos meus sonhos:
sou um atleta de roda dentada.

Amor, eu sei que um beijo
não deve ser tributado,
mas é esta a hora
em que a lentidão do meu corpo
pede a fugacidade dos teus lábios.




Hermenegildo Espinoza

quarta-feira, 9 de maio de 2012

terça-feira, 8 de maio de 2012

Dos nossos mestres

(clicar para ver melhor)

«Abel Salazar, Geraldino Bristes e Celestino da Costa, os três grandes histologistas, na sala do Museu de Anatomia da Faculdade de Medicina do Porto.»


Fotografia, das muitas possíveis de ser visualizadas, retirada do espólio documental de Abel Salazar, da autoria da Casa-Museu Abel Salazar em colaboração com a Fundação Mário Soares, disponível aqui.



Hermenegildo Espinoza

sábado, 21 de abril de 2012

Revolução Cardíaca (2)

- Tu terias ido embora e, de qualquer maneira, eu continuaria a amar-te.
- Deu-te agora para isso, foi?
- A verdade é que me parece que o coração não se compadece com o meu livre arbítrio.
- Nem o teu coração nem o meu. Quando te conheci não eras tão pretensiosamente erudito.
- O nosso amor era simples no seu desenho, decorá-lo no desenrolar dos dias é que nos trouxe uma complicada contradição.



Hermenegildo Espinoza

quarta-feira, 18 de abril de 2012

domingo, 15 de abril de 2012

Gira-discos #42




Jon Hopkins - Light Through The Veins


No dia em que eu morrer cortem-me as veias,
fechem à chave o coração empedrado,
quando o corpo estiver todo seco
e a festa com um fim anunciado
espalhem as veias pelo chão
e não se esqueçam de apagar-me a luz.



Hermenegildo Espinoza

terça-feira, 10 de abril de 2012

Possível topografia dos lugares interiores #55

55. a fábrica de Vesalius.


A fábrica que Vesalius escolheu
para o advento do mundo sem breu
era a mesma imperfeita máquina
que autopsiou até o chamarem de pária.

Para o público deixou a mais antiga preparação
da máquina onde procurou todas as engrenagens.
Acabaram por dar ao Esqueleto de Basileia
a fama, o proveito e o orgulho
que Jacob von Gebweiler não sonhava.

Pouco depois dos trinta, Vesalius,
tão expedito quanto inaudito,
deixou o livro que revelava a fábrica
em todos os seus defeitos e virtudes.
A Filipe II de Espanha, primeiro de Portugal,
dedicou a versão estudantil da obra
que tanto abriu as portas da fábrica
que as suas próprias mãos limparam.





Hermenegildo Espinoza

domingo, 8 de abril de 2012

Sinapses

De Rerum Natura, provavelmente o melhor blogue português de divulgação científica. Uma enorme falta agora emendada.




quarta-feira, 4 de abril de 2012

O nervo laríngeo recorrente




É curioso que um nervo tão inadequadamente comprido para o seu propósito seja, de facto, um estandarte da evolução, uma evolução que não tem propriamente um propósito de perfeição ou um fim em si mesmo. Se assim fosse, os mamíferos ficariam muito mal vistos por qualquer engenheiro, por pior que este fosse. Por isso, olhamos para o nervo laríngeo recorrente (ramo do nervo vago que inerva os músculos das cordas vocais) de uma de duas maneiras: ou uma imperfeição no esboço do Supremo Engenheiro ou a constatação de que o longo trajecto do nervo é o resultado da evolução do pescoço dos mamíferos, a partir de um ancestral comum, provavelmente dos peixes, que teria um trajecto mais directo. Richard Dawkins, como super-ateu e defensor da teoria evolucionista, dá uma perspectiva, neste vídeo, que não é difícil de descobrir qual é.




Hermenegildo Espinoza

domingo, 1 de abril de 2012

Revolução Cardíaca (1)

- Em tempos, à alternância entre a sístole e a diástole dava-se outro nome que não o ciclo cardíaco.
- Que nome era esse, então?
- Revolução Cardíaca.
- Revolução?
- Sim, há ainda quem use o termo, mas tem-se vindo a perder na boca dos novos médicos. Os meus mestres gostavam muito do lirismo do termo.
- Isso deixa-te triste?
- Não consigo dizer que não.
- Porquê?
- Porque todas as revoluções têm vindo a perder o brilho nos olhos dos inquietos.
- Esta revolução também?
- Talvez até mais do que as outras.
- Ai sim?
- Claro, a revolução do coração é a mais antiga de todas.
- De todas?
- De todas, e em muitos não se chega a cumprir.






Hermenegildo Espinoza

domingo, 25 de março de 2012

Possível topografia dos lugares interiores #54

54. um pé navicular.


Enquanto na popa todos esperavam,
a vida verdadeira balançava na proa.
O coração gritava: lancem a âncora!,
mas o pé só tropeçava entre a brisa
que se acomodava no arco plantar.

Que vai ser de nós?, lamentavam
os vários tarsos encolhidos
entre a física do pé-motor
e a anatomia do pé-descalço.

Não vos espera nada, respondia
o altivo resto do corpo,
nada mais vos resta, avisava,
do que aprender a bolinar
neste duro chão salgado.




Hermenegildo Espinoza

terça-feira, 20 de março de 2012

20 de Março de 2009

Felicitações Malditos!
3 anos de divagações...

quinta-feira, 15 de março de 2012

Epitáfios para um médico de algibeira XI

/Era conhecido por ser um médico acanhado. Competente, sim, mas acanhado. Temia contar más-notícias. Dizia que, apesar do inevitável, o melhor cuidado paliativo era não lembrar repetidamente ao corpo o desânimo do seu tiquetaque. Dizem que esse médico morreu de uma coisa maligna, muito dolorosa, muito desanimadora. Também há quem garanta que não quis saber do que padecia afinal. Até poderia desconfiar, mas preferiu acolher o inevitável com o tiquetaque de sempre. O tiquetaque persistente de um relógio suíço./



sábado, 10 de março de 2012

Possível topografia dos lugares interiores #53

53. cada sonho é uma hérnia da realidade.


Os sonhos podem ser directos
podem partir da ânsia tangível
ou mesmo ser indirectos e esguios.

Fogem da realidade como as hérnias do corpo,
como se todas as suas camadas fossem vísceras
que se entendiaram com o refúgio da pele.
Se nos complicam a vida, estrangulam rapidamente,
e morrem tão sem sangue como num corpo lívido.

Por isso - apontam os cirurgiões -,
aos homens que insistem em sonhar
não lhes basta uma realidade para ficar
mas toda a realidade da qual podem fugir.




Hermenegildo Espinoza

quinta-feira, 1 de março de 2012

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

bacoco (2) rococó (3)

Este rococó é também um exagero da realidade, uma realidade hiperbolicamente adornada, que não pode ser mais do que aquilo que é, e que, por isso, usa maquilhagem. É assim a ficção bacoco-rococó: embora abuse da maquilhagem, não utiliza qualquer tipo de barrete, e nisso ela é sincera. Não podemos, contudo, evitar felizes coincidências - estão por todo o lado - e quem lê a ficção e encontra nela uma verdade, talvez seja porque tem frio nas orelhas. Se esta ficção se presta a estas coincidências, nem é o seu mérito que devemos discutir, mas é a verdade que nela assoma aos olhos. Podemos julgar que a realidade está aí, como sempre tem estado, quer a consideremos contingente ou necessária. Porém, a verdade que nela há, por mais fraccionada que seja, principalmente quando surge sinergicamente a reboque da ficção, talvez seja a mais exacta. A verdade transforma-se, para melhor ou para pior; já a teimosia é mais difícil.
E não haverá espaço a patogénios num lugar tão dado à assepsia, não porque o lugar é limpo, mas devido à negação desses patogénios em entrar, por mais que o lugar conspurcado os convide. Afinal, ainda existem patogénios honrados, com respeito pelos enfermos.
Pensando bem, se vejo neste lugar a realidade de sempre, já a verdade que a habita está estiolada. Tenho as orelhas frias e a maquilhagem num desadequado arranjo: a barba farta, a bata vincada, a angina mais frequente. Esta mão que começa a tremer, a mão agora sem essência, é a mão que começa a fechar.




segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Na natureza nada se perde, tudo se transforma?

É certo que a evolução é parte da natureza das coisas. Hoje pequena, amanhã grande. Hoje verde, amanhã caduca. Mas a constância, excepto nas mulheres [1], também o é. Para se ser folha tem de se cumprir um mínimo de requisitos, como sejam ter clorofila, produzir oxigénio e por aí em diante. É esta a nossa essência enquanto folha.

O rococó, tal como a folha, tem a sua clorofila. Pauta-se pela simplicidade. Em matéria arquitectónica faz-se ouvir por janelas alongadas e arqueadas tectalmente. Porém, na sua essência, é dominado pela forma circular. Será rococónico o edifício cujas mais ou menos tantas janelas perdem o arqueado para dar lugar à forma rectangular? Ou aquele que tenha um ângulo recto, ainda que único, nas paredes do seu bloco central, quando manda a regra que sejam circulares?

É isto que o distingue e o caracteriza. Naturalmente, é óbvio que, quando o que interessa é iluminar mais, qualquer um pode moldar a janela à luz do seu interesse. Tirar-lhe o arqueado, por exemplo. Agora, desbaptizem-na! Não a chamem, jamais, de janela rococó.

O clube, tal como o rococó e a folha, têm a sua essência. Não vende produto e, muito menos, se vende por mais valias que o façam vender mais. Não se mede pela qualidade de publicações, pela assiduidade nas mesmas ou pela sua quantidade. O clube é, na sua essência (repito), ter um Jorge Cluni que fez no máximo duas publicações em toda a história da sua existência, é ter um Bachiatari com a sua linguagem bélica e sabedoria oriental, é ter um Ubirajara desencontrado, é ter um Adegesto , Pataca de nome, que vale mais do que dinheiro, e ter um Hermenegildo assíduo, na constante presença dos seus gatos, que nem com mão magoada abdica da partilha de uma sua qualidade: a escrita. Somos nós, os malditos.

O clube é os malditos! No que respeita ao seu carácter, tudo o que não é maldito é medicomalditococo, é patogénico. Se passa a ter janelas sem arqueamento, deixa de ser o que era. Perde aquilo que o caracterizava.

Pode ser equívoco meu, mas parece-me tudo menos ser bacoco, prezar pela qualidade última desta casa. No final de contas, este é o nosso rococó e a janela quer-se como dita a regra.


R: Na natureza, algumas coisas se perdem quando se transforma.

[1] “Inconstância, o teu nome é mulher.” Hamlet

bacoco (2) rococó (2)

Eu normalmente não me queixo. Sou calado e subtil, mas não submisso. Se os propósitos que me movem, ou melhor, os propósitos que habitam o meu espaço da realidade, são tão facilmente dilacerados, repudiados, desrespeitados por um qualquer apelo de coesão de grupo que não existe, por uma falsa ameaça de diluição de força, quando para tal há responsabilidades não levadas a peito por quem de direito, não posso ser eu o incorrecto ou o desadequado. Mandar um amigo à merda pode ser tão indispensável como elogiar-lhe uma acção benemérita, para o bem utilitarista do grupo. Só é bacoco quem quer, e se o dou a entender, é porque posso - quase sub-repticiamente, admito-o - tomar essa posição como hábito de defesa, e, se necessário, também de ataque. Uma coisa que a sinonímia nos ensina, é que não podemos passar a a vida a aturar bardamerdas, bandalhos, badamecos ou pulhas. E assim sucessivamente.