domingo, 12 de fevereiro de 2012
sábado, 11 de fevereiro de 2012
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
Possível topografia dos lugares interiores #52
52. o que parece defeito.
A simetria tem dons de injustiça
agora que este corpo desconhece o vigor
e só as rugas resguardam o seu orgulho
de um tempo envergonhado e incompreendido.
O que parece ao longe um defeito anatómico
é a passagem esguia das horas e da glória
e só um dia não basta para colmatar
a falta que a juventude faz nas engrenagens.
Mas não rezam os ossos qualquer lamento
tão placidamente se diminuem em envergadura
e por isso só pode haver alguma qualidade nos defeitos
que em nada diminuem o pouco que o corpo sabe de si.
Hermenegildo Espinoza
A simetria tem dons de injustiça
agora que este corpo desconhece o vigor
e só as rugas resguardam o seu orgulho
de um tempo envergonhado e incompreendido.
O que parece ao longe um defeito anatómico
é a passagem esguia das horas e da glória
e só um dia não basta para colmatar
a falta que a juventude faz nas engrenagens.
Mas não rezam os ossos qualquer lamento
tão placidamente se diminuem em envergadura
e por isso só pode haver alguma qualidade nos defeitos
que em nada diminuem o pouco que o corpo sabe de si.
Hermenegildo Espinoza
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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
Tragicomédia
Não haja medo em admiti-lo: a tragicomédia não poupa nem o sagrado.
Hermenegildo Espinoza
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
O plasma
A ser verdade, há muito azar em Portugal que, admitamo-lo, é merecido. Curioso que, não raras vezes, é um azar endógeno. Este mesmo Portugal, este Portugal dos detalhes teimosamente esquecidos, é o pior saco de pancada dos portugueses.
Hermenegildo Espinoza
Hermenegildo Espinoza
domingo, 5 de fevereiro de 2012
Gira-discos #41
Fernando Lopes-Graça - Acordai
Acordai
acordai
homens que dormis
a embalar a dor
dos silêncios vis
vinde no clamor
das almas viris
arrancar a flor
que dorme na raíz
Acordai
acordai
raios e tufões
que dormis no ar
e nas multidões
vinde incendiar
de astros e canções
as pedras do mar
o mundo e os corações
Acordai
acendei
de almas e de sóis
este mar sem cais
nem luz de faróis
e acordai depois
das lutas finais
os nossos heróis
que dormem nos covais
Acordai!
Acordai
acordai
homens que dormis
a embalar a dor
dos silêncios vis
vinde no clamor
das almas viris
arrancar a flor
que dorme na raíz
Acordai
acordai
raios e tufões
que dormis no ar
e nas multidões
vinde incendiar
de astros e canções
as pedras do mar
o mundo e os corações
Acordai
acendei
de almas e de sóis
este mar sem cais
nem luz de faróis
e acordai depois
das lutas finais
os nossos heróis
que dormem nos covais
Acordai!
letra de José Gomes Ferreira
Hermenegildo Espinoza
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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
Frenesim
Nestas alturas em que o cansaço impera e as dioptrias disparam, dou comigo a pensar no «frenesim» que a vida por vezes assume. Só não sabia, nem nunca pensei, que este «frenesim» pode considerar-se um delírio, uma hiperbólica inflamação cerebral.
Hermenegildo Espinoza
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
Epitáfios para um médico de algibeira X
/Era um médico com uma catedral no coração. Questionava, examinava, auscultava, prescrevia e, não raras vezes, rezava. Também ele tinha a sua própria legião de beatas. Não se cansavam de olhar para os seus olhos. Garantiam que se o cabelo era talha dourada, então aqueles olhos só poderiam ser vitrais./
Hermenegildo Espinoza
Hermenegildo Espinoza
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domingo, 29 de janeiro de 2012
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
domingo, 22 de janeiro de 2012
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
bacoco (1) rococó (2)
No meio do pátio do hospital, cercada por uns arbustos outonais e vigiada por um pequeno ajuntamento de gatos pretos, está uma capela em repouso. Nunca lá entres se não pretenderes depurar o espírito. Os gatos, outrora nómadas delinquentes, apropriaram-se da segurança do lugar e vislumbram de antemão todas as vontades, boas ou más. Não os provoques. Estão habituados a reconhecer a ralé e ninguém sabe se aquelas unhas conheceram uma lima. Se a morte de uma pessoa te trouxer ao pátio, não te precipites. Os gatos reconhecerão a tua angústia. Evita, contudo, a necessidade de os enfrentar. Os que o fizeram, mais que o desamparo do erro que ali os impeliu, lamentam ainda o rigor ético dos felinos. E o espírito nunca foi tão limpo.
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sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
Gira-discos #39
The Smiths - Please, please, please, let me get what I want
O que eu quero, por favor, só desta vez, é que este dia se desmembre na memória. Se possível, que seja a cauda gasosa do cometa que, incauto, percorre o comprimento do calendário, sem saber que vagueia sempre na mesma órbita.
Hermenegildo Espinoza
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quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
Cá por casa, amontoados nas estantes, eles também dançam, e algumas vezes valsam comigo
Hermenegildo Espinoza
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
Possível topografia dos lugares interiores #51
51. pássaro em chamas, cadáver em cinzas.
Um cadáver em cinzas não é um corpo,
talvez tenha sido, com mais ou menos precisão,
algo parecido com o que vem nos livros,
mas destas cinzas não nascem homens.
Com mais pena voa o pássaro em chamas,
pequena ave que sabe como foi em vida o cadáver:
guarda em si o tratado anatómico do último homem.
Pobre pássaro que lamentas no fogo
não o homem que foi antes de ser cinza
mas o amparo que tendo existido já não há
e tanta pena temos de ti, pássaro em chamas,
que cais agora junto ao homem que se foi
e tornas-te num cadáver em cinzas também.
Hermenegildo Espinoza
Um cadáver em cinzas não é um corpo,
talvez tenha sido, com mais ou menos precisão,
algo parecido com o que vem nos livros,
mas destas cinzas não nascem homens.
Com mais pena voa o pássaro em chamas,
pequena ave que sabe como foi em vida o cadáver:
guarda em si o tratado anatómico do último homem.
Pobre pássaro que lamentas no fogo
não o homem que foi antes de ser cinza
mas o amparo que tendo existido já não há
e tanta pena temos de ti, pássaro em chamas,
que cais agora junto ao homem que se foi
e tornas-te num cadáver em cinzas também.
Hermenegildo Espinoza
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sábado, 7 de janeiro de 2012
bacoco (1) rococó (1)
É a mulher mais charmosa daquela enfermaria. Até lhe perdoo as unhas de gel, essa praga artificial de queratinas de faz-de-conta. Diz um internista meu amigo que assim arranham mais. E ele gosta, apesar de nunca se ter queixado de qualquer escoriação por parte do paradigma caseiro. Se arranham ou não - possíveis armas de crime? -, a verdade é que aquela enfermeira, pouco mais de trinta anos, esconde nas formas por baixo da bata os alicerces mais elogiados de qualquer estilo arquitectónico. Não que os dias sejam passados na plácida contemplação da obra feita, mas antes na eterna congeminação de aproveitar a obra. Como se um dia nos fartássemos de observar a Janela Manuelina e decidíssemos, como jovens afoitos, subir a parede só para podermos espreitar por lá.
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quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
bacoco (0) rococó (1)
A posição na cadeira permitia descrever o surgimento da escuridão. Não há celebração que não acabe em fartura, nem solidão que não se assemelhe a uma fortuna envenenada. O excesso da pessoa que queres ser é o defeito da pessoa que és. Mas não desanimes. Amanhã voltas para o sufoco e mais gente acabará por morrer sem que os teus olhos se apercebam. E um dia, não o neguemos, saberás auscultar mais que um pulmão, mais que um coração. Até lá, por muito que saibas como bate o coração do homem isquémico, ou como crepita o pulmão direito com a tosse do homem febril, não te iludas, e não tenhas medo de pedir a alguém que apague a luz, agora que só a escuridão te sossega.
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domingo, 1 de janeiro de 2012
The Walkmen trazem-nos um ano novo, por sinal tenebroso
Hermenegildo Espinoza
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