sábado, 5 de junho de 2010

Possível topografia dos lugares interiores #9

9. os homens que não sabem salivar.


É uma pena realmente
a boca seca indicativa
de secreções pouco aquosas.
Tal como os delírios sem cor
nas alturas de entorpecimento
dos movimentos rápidos dos olhos.

Estão bem aviados os pobres
que da boca seca não conseguem
humidificar nem a menor tira de pão.

Peçam-lhes para não ser tão simpáticos
e para aprender a salivar em altas definições
não sendo necessário, portanto, invocar de riso
o senhor Pavlov e as suas deambulações.




Hermenegildo Espinoza

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Imagiologia (quase) médica #10


Resposta fisiológica ao amor & outras coisas.




Hermenegildo Espinoza

terça-feira, 25 de maio de 2010

Possível topografia dos lugares interiores #8

8. a retina é muitas vezes um coração também.


Se és a mãe do mundo e arredores eu não sei,
tenho-te espiado a partir para o teu destino,
sempre de frente para ti ao longo do cais
sempre pasmado nos nossos olhares cruzados.
E ali no chão plano em reflexão
vêm razões de retina necessitada da tua imagem.
Se algum dia os nossos carris se irão cruzar,
muita lei da física há ainda para contrariar,
pois se nos movimentamos em sentidos opostos,
só um movimento de circum-navegação nos irá juntar
em algum ponto do mapa que não vale a pena assinalar.

E se educamos muito a retina, cones e bastonetes,
à adoração de uma só e repetida imagem,
passam os olhos a ter sentimentos,
palpitações, arritmias, habituações,
e se há acaso dos meus olhos de ti se ausentarem,
tenho anginas palpebrais, enfarte de visões
e entre a visão e o coração estala o sermão
de decidir qual deles é dos amores o patrão.

E assim muitas vezes andamos,
tu no outro lado do cais,
eu quase sempre de pupilas dilatadas.





Hermenegildo Espinoza

terça-feira, 18 de maio de 2010

Como andam os discos a girar

Pensava eu, até há uns dias, que este era o álbum do ano



mas, afinal, é preciso reconsiderar, até porque apareceu este







Hermenegildo Espinoza

sábado, 15 de maio de 2010

Possível topografia dos lugares interiores #7

7. a vida também tende por vezes a fagocitar-nos, Mechnikov.


Tempos difíceis hão-de vir,
rasgar-nos o sangue e os tecidos.
E a consciência de encarreirar em frente,
levar com a vida para futuros mitos e jejuns,
virá criar em nós o amortecimento dos letárgicos.

Porém para ti, Mechnikov, das vezes que enfim
te tentaste desvanecer e eclipsar da quietude do cosmos,
na euforia da dor ou quem sabe de outras vicissitudes,
não houve apoptose que te valesse.

Daí que viveste tempo bastante
para descrever o processo que o corpo alumia
das intempéries que nem o olho é capaz de ver.
E após mais de um século podes crer,
andamos aqui pessoas, algumas para cá,
outras mais - como tu um dia - para lá
a pensar na maneira sapiente para te agradecer.





Hermenegildo Espinoza

sexta-feira, 14 de maio de 2010

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Apontem na agenda




Este grande evento para a compreensão da beleza do mundo antropológico, passa por aqui também. É um potencial a um gira-discos de ouro.




Hermenegildo Espinoza

terça-feira, 11 de maio de 2010

Imagiologia (quase) médica #9

Se perguntarem por nós, estamos por aqui:







Hermenegildo Espinoza

sábado, 8 de maio de 2010

Do que pudemos ver no queimódromo, eram certamente pessoas de uma incomensurável índole





E das mais bonitas, verdade seja dita para quem a queira ouvir.




Hermenegildo Espinoza

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Possível topografia dos lugares interiores #6

6. o manúbrio e outros escudos humanos



Do comum tentar,
tentar às vezes
proteger os elementos
do nosso sangue.

Do muito pelejar,
pelejar aos poucos
e ser o escudo
contra o avanço do tanque.

Num dia a cair para a noite,
milhares de balas, milhões de anticorpos.
Desejaremos relembrar a topografia do peito
para evitar experimentar de novo a textura
de restos de pólvora a marcar a desumanidade.




Hermenegildo Espinoza

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Gira-discos #19

Animal Collective - Fireworks



Foi quase como um fogo-de-artifício nos olhos. Depois dos conjugados, das interacções intensas entre alguns, algumas moléculas ligantes a outras que, na saciedade, não hesitavam em corresponder. Foi um tempo de querer ficar parado no meio de quatro páginas de linhas e escrever todas as respostas do corpo que se defende. Mas foi quase como um fogo-de-artifício. Uns amigos banhados a ouro enquanto se percorriam as ruelas e as suas calçadas. Um barulho colectivo no ar. E não eram animais, não não eram. Encarreirados alguns como carneirinhos lá bem que iam a trotar na cadência do seu passo de tanta humilhação para vestir de negro. Os outros, já de negro talvez incorporando conscientemente o luto da sua estupidez, iam gritando para os carneirinhos. Estávamos também vestidos de negro para celebrar a comunidade que somos e novo advento que seremos. E não, não era ódio o que os nossos olhos viam. Um fogo-de-artifício, tenho a certeza. Espanta-nos a humildade de reconhecer de que ninguém é como nós, ninguém está dentro deste texto, isto não é ninguém. Uma luz no fundo daquele palco também não era nossa, mas o fogo-de-artifício nos nossos olhos era tal que se nos revelassem a verdade não acreditaríamos. O esbracejar dos dois bêbados que nos acompanhavam na dança, sem nos conhecer, era mais sincero do que os olhinhos das três raparigas bem apresentadas no grupo em frente e, a julgar pela indumentária, bem intencionadas em nos entreter. O álcool trazia-lhes, aos dois bêbados de braços irrequietos, a mesma estupidez de tantos, mas enquanto o faziam tinham mais ingenuidade do que os olhares das raparigas. O recinto é assim uma espécie de cuba para onde todos fomos deitados e onde cada alucinação não trará mais nitidez. Mas era, sim, um fogo-de-artifício nos olhos. E nunca tivemos de necessidade de perguntar: o que fazer agora? Até mesmo que os pés colados por aquela cevada fermentada e, a espaços, algum absinto que não se acomodou no antro pilórico de alguém, não nos paravam. Gritámos muito, quase sempre sem nos ouvirmos. Deu para ler nos lábios de um rapaz de óculos a declaração de amor a uma rapariga tão platónica como as tragédias gregas. A rapariga não percebeu, o rapaz de óculos não repetiu. Via-se que tinha um fogo-de-artifício nos olhos. Acabámos por acordar de manhã a trautear melodias que a noite jamais nos trouxera na euforia de clarabóias nocturnas. Rimos durante uma hora pois nada de melhor tínhamos para fazer. Notava-se que ainda andávamos com um fogo-de-artifício nos olhos.




Hermenegildo Espinoza

sábado, 1 de maio de 2010

Plano Semanal

Segunda-feira
- não morrer


Terça-feira
-não morrer


Quarta-feira
- não morrer


Quinta-feira
- não morrer


Sexta-feira
- não morrer


Sábado
- não morrer


Domingo
- não morrer e, se possível, tentar descansar a cabeça da ideia de vir a morrer




Hermenegildo Espinoza

quarta-feira, 28 de abril de 2010

mirando

É como se tivesse renascido.
O Ad lá foi esboçando os primeiros passos. Uma tarefa árdua para ele, já que esse suposto mecanismo banal está pouco ou nada potenciado a longo prazo nos seus cabos de cobre. Tentativas, retentativas e reretentativas, todas baseadas numa perserverança partilhada. Uma espécie de chaperone chamado coragem induzida.
E deu o primeiro passo. Outros tantos igual àquele. Até que seguia a galope rumo a... rumo a quê? Nada de concreto. Apenas bolinava, com as vontades orientadas ao sabor da ponteira escrava que, segundo se diz, aponta sempre para o Norte. E lá ia, Ad, rumo ao Norte, ainda que desnorteado.
Contudo, seguir a bússula, não é sinónimo de ir no bom caminho, sobretudo quando se cinge tudo a um ponto cardeal.
Ad tinha, finalmente, se sentado sobre a glândula pineal.
Em vez de bolinar, submergiu.
Não encontrou o seu norte, por isso resnasceu.

Pitt

domingo, 25 de abril de 2010

Possível topografia dos lugares interiores #5

5. os turcos deram-nos a sela, nós oferecemos-lhes ossos em borboleta.


Amparada num arame farpado a cálcio-clinóide,
enclausurada num andar médio acima de espaços pneumáticos,
manifesta-se a guarida de uma sela à cavalaria de rios vermelhos
que alcançarão na sua cadência a pedra de um temporal.

Chegarão os rios aos palcos localizados para vencer e activar
cidades empobrecidas prontas a erguer até Constantinopla,
e mobilizar também os seus servos obedientes,
sujeitos a condicionamentos de factores de libertação
e outros que tais rigorosos patrões.

Começando tudo enfim num osso que é borboleta,
que embora tendo dois pares de esbeltas asas
não voa nem consta que se queixe da monotonia do lugar
de onde parte para os muitos relevos do corpo a catalogar.




Hermenegildo Espinoza

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Vai correr tudo bem

Estive largos minutos a olhar para um acrónimo que me aparecia num livro técnico, volumoso e fotocopiado a tons de preto e branco. Um livro que, ainda que tal não ser deva dizer pois é uma não totalmente correcta metáfora militarista, disserta sobre quase todos os meios que o corpo tem para se ver livre de qualquer diabo dentro dele (leia-se: vírus, bactérias, químicos, objectos estranhos, objectos ainda mais estranhos). Estava a ler o acrónimo MTV e, talvez por sono, veio-me uma súbita angústia de histeria adolescente, de música estapafúrdia, de programas sem qualquer propósito (a não ser que considerem que me estão a entreter quando me deixam com uma má-disposição tal a olhar para aquilo que me leva a considerar, não raras vezes, o suicídio uma morte extremamente prazerosa). Por fim, acordei, e o que estava a ler era, de facto, Mammary Tumor Vírus (MTV). De modo que, para ser sincero, e enquanto vou colocar a bata a lavar pois parece que esta está mais negra do que branca, só vos posso garantir que vai correr tudo bem. Até repito: vai correr tudo bem.





Hermenegildo Espinoza

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Gira-discos #18

Jónsi - Grow Till Tall (Go Quiet Trailer)

Há sempre um silêncio sublime antes dos grandes tumultos. Vozes límpidas relembrando-nos os sentimentos arcaicos mas tão impregnados na nossa natureza. É como o falsetto do Jónsi (vocalista dos Sigur Rós) que, mesmo que seja em inglês, islandês ou ainda vonlenska (conhecida também por hopelandic, uma língua inventada pela banda, sem qualquer conteúdo gramatical e significado a não ser o do som, como se a voz fosse mais um intrumento apenas com as escalas musicais, em que o que prevalece é a melodia da mesma, tal como uma guitarra ou piano) deixa em nós aquela monotonia desejada antes das grandes provas com que nos deparamos. Até o barulho começar a aumentar, a subir, a romper-nos o tímpano para nos obrigar a agir, quase sempre para voltar a um ponto de controlo mais baixo, de nova calmaria. Um amostra de ritmos circadianos do medo e da euforia.




Hermenegildo Espinoza

domingo, 18 de abril de 2010

comentário com peso e medida

Eis um comentário que se encontra no Publico online, na noticia que relata a vitoria do benfica sobre o académica.
"Mafarrica/Mulher da Vida, Abintes. 18.04.2010 20:14


Ai este meu Benfica mata-me com prazer!!!!três pela frente e duas por trás...# mais três ORGASMOS fantásticos....uiuiuiiu:Melhor que no tempo do selazaris!Beijinhos a todos!"
Bem! Há adeptos e adeptos! Há aqueles aos quais basta viver a emoção, e outros que, por da cá aquelha palha, não se contentam com isso.
Seja com túneis, ou sem túneis, em condições orgásmicas ou climactéricas, certos e precisos são os números: 3-2, ou não seja a matemática uma ciência exacta.
Pitt

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Porto em Garatuja!

Às vezes, captar um momento é mais do que simplesmente pisar o botão e "flash!", temos fotografia.


Por entre a textura das folhas, o segurar rebuscado do moleskine, e o deslizar aparentemente aleatório da MICRON 02, registo imagens e emoções; pontos, traços, linhas, manchas, risos, vida. E é nestes escassos esquissos que a efemeridade dos momentos da lugar a vivências perpétuas. Vejamos se desta forma descubro o que raio ando a fazer por aqui!


É assim que inauguro esta jornada.
Pitt


sábado, 10 de abril de 2010

Possível topografia dos lugares interiores #4

4. as pessoas que nos provocam uma luxação temporomandibular.


O último de queixo caído que feche a porta,
e resguarde visões oníricas no seu interior como fecho éclair.
Ouça-se um click e teremos sinal mais que evidente
de alguma convulsão interior de não conseguir falar.

De queixo caído para tanto não dizer
alguém avise as inserções temporomandibulares
que nada há a temer, nem sequer a perpétua legitimidade
entre as pessoas que em nós temos vindo a articular.

Virá nos livros algum sermão do senhor Vesalius
aligeirar a anatomia do homem a preto e branco.
Não será boa táctica a imbecil razia e o esquecimento
das possíveis circunstâncias de uma mandíbula pendente.




Hermenegildo Espinoza

terça-feira, 6 de abril de 2010

Imagiologia (quase) médica #8

Estava com dúvidas e algum esquecimento (na memória episódica, o que me irrita, pois são as fotografias de alta definição que tanto estimo) sobre os tipos de paralisia facial - tanto a central como a periférica - e decidi ir ao arquivo. São mimos para a potenciação a longo prazo.

E a vida segue dentro de momentos.



Hermenegildo Espinoza