pitt
domingo, 23 de setembro de 2012
terça-feira, 18 de setembro de 2012
Gira-discos #46
quarta-feira, 12 de setembro de 2012
Gira-discos #45
segunda-feira, 10 de setembro de 2012
O crime, o castigo, um enfisema
domingo, 9 de setembro de 2012
Peregrinação
"Embarcado num jurupango, com o Mouro Coja Ale, feitor do capitão de Malaca, fomos surgir no rio de Parlés no Reino de Quedá. Neste tempo, estava o rei celebrando com grande aparato e pompa fúnebre as exéquias da morte de seu pai, que ele matara às punhaladas para casar com sua mãe que já estava prenhe dele. Para evitar murmurações mandou lançar pregão que sob gravissimas mortes ninguém falasse no que já era feito. Mas Coja Ale era de sua natureza solto de língua e muito atrevido em falar o que lhe vinha à vontade. E foi assim que, preso por soldados, fui chamado ao rei e olhando para onde ele me acenava, vi jazer de bruços no chão muitos corpos mortos todos metidos num charco de sangue. Entre eles o mouro Coja Ale. Por mais de uma grande hora estive como pasmado, debaixo de abano, sem poder falar, arremessado aos pés do elefante em que el-rei estava. Depois de perdoado pelas lamentações e desculpas toscas, mas que vinham ao momento muito a propósito, me fiz à vela muito depressa pelo grande medo e risco da morte em que me vira."
Fernão Mendes Pinto, in "Peregrinação", 1614
Valsalva #1
quinta-feira, 6 de setembro de 2012
Sobre o cu
Não suficientemente referido fora das páginas do marquês, entrevisto aqui e ali num poema mais ousado ou satírico, quase sempre escondido entre imagens e analogias róseas, o cu era o eterno figurante da mega-produção que é a história sexual da humanidade. E, no entanto, quantos prazeres o cu já não proporcionara! Em paz com o seu destino, o cu aceitava que o fodessem para imediatamente regressar à condição desprezada de cagueiro. Aceitava que as luzes da ribalta incidissem sobre as sobreexploradas mamas, sobre as originais vaginas e não reclamava quando os escultores extraíam da pedra pilas murchas sem jamais pensarem sequer em imortalizar as delicadas pregas que envolvem o cu virgem. O cu era o herói esquecido dos prazeres carnais. A iguaria apreciada com deleite na intimidade, a conquista final festejada em conversas velhacas, a derradeira porta antes da rendição incondicional. Quem dava o cu já não tinha nada para dar, por isso se dizia (e ainda se diz) que há quem dê o cu e cinco tostões. Mas o cu democratizou-se e a sua conquista, outrora reservada aos mais intrépidos combatentes, banalizou-se. Ir ao cu é cu.
- Interlúdio: pego por curiosidade em Eros de Passagem, uma antologia de poesia erótica contemporânea, com selecção e prefácio de Eugénio de Andrade, e parto em busca do cu. Há bocas e vulvas, seios, peitos, mamilos, mamas e tetas, coxas e ancas, testículos, vergas e glandes. Cu, nem vê-lo. Há, sim, nádegas e, se o meu instinto está correcto, uma poderosa sugestão de sexo anal no poema Música de Cama, XV, de David Mourão Ferreira. Nuno Júdice escreve acerca de “nádegas metafísicas” sobre uma mesa de bilhar, no que a mim me parece a união possível entre o soft porn dos anos 80 (obrigado, Zalman King) e a Colóquio/Letras. É preciso chegar ao que muitos consideram o maior poeta português vivo, Herberto Helder, para o cu aparecer, ainda que na forma de ânus, o que lhe confere a dignidade poética da posologia dos Dolviran: “a aliança intrínseca de um pénis e de um ânus” é o que se arranja.
O sexo anal, outrora uma barreira intransponível, o Santo Graal das proezas sexuais é, nos nossos dias de hedonismo abastardado, diversão obrigatória. Não há cu que não aguente. Vendem-se lubrificantes e enemas para acompanhar a asseptização do sexo anal. O que antes era transgressão pela dor, pela sujidade, pelas restrições legais e religiosas é agora uma prática incentivada e aplaudida, indolor, limpa e plenamente conformada. Há-de chegar o tempo em que o sexo anal será discutido ao jantar, recomendado pelos médicos de família, com imagens da prática ao lado do círculo alimentar, ensinado nas escolas, pregado nas igrejas, inscrito em Diário da República, salvaguardado na Constituição. Se o sexo anal era revolucionário, agora trabalha das 9 às 5 numa repartição de finanças. Tratamo-lo como quem preenche um formulário. A isto chegou a civilização do espectáculo. Ir ao cu era uma actividade aristocrática, um luxo distintivo como as tapeçarias Gobelins, as faianças de Delft, uma festa na Quinta Patiño. Há não muito tempo, em 1995, um fauno como Milan Kundera podia escrever uma coisa destas sem correr o risco de ser acusado de imprecisão: “O único local verdadeiramente íntimo, perante cujo tabu até os filmes pornográficos se inclinam, é o olho do cu, a porta suprema; suprema porque a mais misteriosa, porque a mais secreta.” (A Lentidão) Pobre Kundera! Para onde correram os tempos do cu misterioso, do tabu que suscitava reverência aos filmes pornográficos, ajoelhados respeitosamente perante o derradeiro limite? Hoje, o sexo anal encontra-se à mão de semear, tão acessível e cómodo como uma viagem na Easy Jet. Aconteceu ao cu o mesmo que ao Meco. Há poucas décadas era um lugar remoto. Agora é uma marca, “Amo-te, cu”, e cada um de nós um Pedro Miguel Ramos do empreendedorismo anal. Vai-se ao cu como quem vai a uma viagem de finalistas, gregariamente, turisticamente, estupidamente. Mandar alguém apanhar no cu era um insulto. Agora é uma previsão acertada. O cu fez-se porta habitual, onde toda a gente entra e sai a qualquer hora. Em 1993, Leonard Cohen ainda cantava poeticamente o sexo anal. Hoje, é a Rosinha quem assevera que gosta é de levar no pacote.
Ora, não se pode prestar pior serviço à dignidade oculta do olho do cu do que querer celebrá-la em livro. Publicar um livro laudatório do sexo anal é da ordem dos prazeres mórbidos e infantis, como os daquelas pessoas que gostam de revelar o final dos filmes que os amigos ainda não viram. Quem gosta de levar no cu, quem realmente sente que dar o cu à penetração é uma libertação inigualável deve guardar a descoberta para si, para que outros possam libertar-se apanhando no cu. Só há libertação onde há opressão. O livro de Toni Bentley, Entrega, não é uma falácia do caralho, é uma falácia do cu. A verdadeira libertação da autora não foi a apanhar no cu, mas a escrever o livro. Em vez de se limitar a apreciar o acto, anotou as vezes em que o praticou, como uma verdadeira contabilista da sodomia, e pôs-se a extrair os fundamentos básicos de uma futura religião. E escrever um livro sobre o assunto é normalizá-lo, torná-lo socialmente aceitável, um tema de conversa. Retirá-lo da intimidade e atirá-lo para as páginas do New York Times é remeter o sexo anal para o patamar anódino da cultura geral, misturá-lo com os mais recentes avanços científicos nas neurociências ou com as notícias sobre cotações da Bolsa. Exibido orgulhosamente na praça pública, o cu, ainda que envolto num discurso de sedas para-religiosas, perde valor simbólico, degrada-se, empobrece. A introdução do livro (e vamos ficar pela introdução) intitula-se, ominosamente, A Foda Sagrada. “É divino”; “O êxtase, aprendi ao ser sodomizada, é uma experiência de eternidade num momento de tempo real”; “A paz que existe para lá da dor”; “Vim a conhecer Deus por experiência, por ser fodida no cu”; “Levar no cu oferece harmonia espiritual”; “Levar no cu dá-me esperança”; “Ele abriu-me o cu e com a primeira arremetida acabou com a minha negação de Deus”; “O sexo anal é, para mim, um acontecimento literário”; “Entre na saída. O paraíso espera-o.” Esta Santa Teresa de Ávila do sexo anal, que diz ter conhecido Deus por apanhar no cu, presta um péssimo serviço ao sexo anal e à transcendência. A história de Bentley é uma história de conversão. São Paulo chegou a Deus depois de deixar de ver, Bentley chegou a Deus abrindo o olho do cu. O seu manifesto, por ser um manifesto, um libelo jurídico a favor do sexo anal, burocratiza o que ela pensa estar a sacralizar. Codifica e ritualiza, grita “Sigam-me, cus oprimidos!” e um cu que vai atrás dos outros nunca será um cu livre. Para ser um acto libertador, o sexo anal tem de ser praticado sem esperanças de recompensas místicas. Quem procura recompensas místicas deve ir à missa, praticar o Bem, ouvir A Paixão Segundo São Mateus. Levar no cu é uma experiência de outra ordem. Toni Bentley, como uma boa iconoclasta burguesa, celebra à nova-iorquina o acto de apanhar no cu. Quanto mais é sodomizada mais se enterra em metafísica. Para Bentley, levar no cu é um exercício intelectual e espiritual. Daí que, apesar da linguagem directa e forte, fuja da escatologia. Porque Bentley, apesar de tudo, não gosta de merda. Por isso é que uma simples frase em A Grande Arte, de Rubem Fonseca, é mais libertadora do que todo o livro da ex-bailarina. Mônica, a prostituta de dezoito anos, geme enquanto é sodomizada por Thales Lima Prado: “Ai, vou encher o teu pau de merda!” Sem glória, nem Deus, nem eternidade, nem salvação pela sodomia. Apenas a negação do amor e da vida, a nostalgia primitiva da lama.»
Hermenegildo Espinoza
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
Uma outra causa para a Imunodeficiência seguido da diferença entre Thailand e Taiwan
domingo, 2 de setembro de 2012
sábado, 1 de setembro de 2012
O que sabemos do nosso passado
Sinapses
sexta-feira, 31 de agosto de 2012
A intromissão de Albrecht Dürer na obra de Saramago
terça-feira, 28 de agosto de 2012
Rubicundo (2)
sexta-feira, 24 de agosto de 2012
quarta-feira, 22 de agosto de 2012
Morreu o homem que pedia para morrer
terça-feira, 21 de agosto de 2012
Google Translator e a verdade desportiva
segunda-feira, 20 de agosto de 2012
diário de bordo
domingo, 19 de agosto de 2012
Rubicundo (1)
Hermenegildo Espinoza
sábado, 18 de agosto de 2012
Estudar o desconhecido e as pontes entre nós
Complexo ICBAS / FFUP, Porto
Hermenegildo Espinoza
terça-feira, 14 de agosto de 2012
Gira-discos #44
domingo, 12 de agosto de 2012
Images Physicians Should Know
quarta-feira, 8 de agosto de 2012
diário de bordo
terça-feira, 7 de agosto de 2012
diário de bordo
sábado, 4 de agosto de 2012
sexta-feira, 3 de agosto de 2012
diário de bordo
diário de bordo
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
diário de bordo
terça-feira, 31 de julho de 2012
diário de bordo
segunda-feira, 30 de julho de 2012
diário de bordo
terça-feira, 24 de julho de 2012
sábado, 21 de julho de 2012
Costelas flutuantes são caravelas do mar que nunca irão atracar - apontamentos sobre a melancolia do marulhar #4
Hermenegildo Espinoza
segunda-feira, 16 de julho de 2012
Costelas flutuantes são caravelas do mar que nunca irão atracar - apontamentos sobre a melancolia do marulhar #3
Hermenegildo Espinoza
sábado, 14 de julho de 2012
Costelas flutuantes são caravelas do mar que nunca irão atracar - apontamentos sobre a melancolia do marulhar #2
Hermenegildo Espinoza
Pessoas
Hermenegildo Espinoza
quinta-feira, 12 de julho de 2012
Costelas flutuantes são caravelas do mar que nunca irão atracar - apontamentos sobre a melancolia do marulhar #1
Hermenegildo Espinoza
segunda-feira, 9 de julho de 2012
Shakira, o reforço positivo
quinta-feira, 5 de julho de 2012
Gira-discos #43
I say you are the most exotic flower.
Hermenegildo Espinoza
quarta-feira, 4 de julho de 2012
Não reconhecer rostos
Vídeos retirados de uma reportagem do programa 60 Minutes, da CBS.
Hermenegildo Espinoza
terça-feira, 3 de julho de 2012
Contra o marasmo #1
Hermenegildo Espinoza
segunda-feira, 2 de julho de 2012
Revolução Cardíaca (4)
- Claro. Necessito da percussão para me manter vivo. Para restabelecer o meu ritmo sinusal. Só consigo viver a vida em taquicardia.
Hermenegildo Espinoza
sábado, 30 de junho de 2012
domingo, 24 de junho de 2012
São João
Vivas ao Porto, onde a tradição impera!
Hermenegildo Espinoza
sábado, 23 de junho de 2012
domingo, 10 de junho de 2012
Possível topografia dos lugares interiores #57
O monstro apercebeu-se
da anatomia da diferença.
Vagueou, perseguiu,
matou.
Só queria do criador
a explicação.
O criador morreu,
chamava-se Frankenstein
e foi ele
o monstro angustiado
que criou o monstro.
Hermenegildo Espinoza
quarta-feira, 6 de junho de 2012
domingo, 20 de maio de 2012
Revolução Cardíaca (3)
- É isso mesmo que o assusta.
- Assusta-o que eu lute para ser o melhor?
- Assusta-o que lutes noite e dia só por ti.
Hermenegildo Espinoza
quinta-feira, 10 de maio de 2012
Possível topografia dos lugares interiores #56
Amor, pedes-me a calma
que este tremor não deixa.
Em repouso,
os membros entusiasmam-se
como os gaiatos bem sabem
quando a paixão depressa é
o maior dos sintomas universais.
Amor, eu vivo rígido,
e procuro-te,
em todos os cantos,
como um bloco dorido,
à medida dos meus sonhos:
sou um atleta de roda dentada.
Amor, eu sei que um beijo
não deve ser tributado,
mas é esta a hora
em que a lentidão do meu corpo
pede a fugacidade dos teus lábios.
Hermenegildo Espinoza
quarta-feira, 9 de maio de 2012
terça-feira, 8 de maio de 2012
Dos nossos mestres
Fotografia, das muitas possíveis de ser visualizadas, retirada do espólio documental de Abel Salazar, da autoria da Casa-Museu Abel Salazar em colaboração com a Fundação Mário Soares, disponível aqui.
Hermenegildo Espinoza
sábado, 21 de abril de 2012
Revolução Cardíaca (2)
- Deu-te agora para isso, foi?
- A verdade é que me parece que o coração não se compadece com o meu livre arbítrio.
- Nem o teu coração nem o meu. Quando te conheci não eras tão pretensiosamente erudito.
- O nosso amor era simples no seu desenho, decorá-lo no desenrolar dos dias é que nos trouxe uma complicada contradição.
Hermenegildo Espinoza
quarta-feira, 18 de abril de 2012
domingo, 15 de abril de 2012
Gira-discos #42
No dia em que eu morrer cortem-me as veias,
fechem à chave o coração empedrado,
quando o corpo estiver todo seco
e a festa com um fim anunciado
espalhem as veias pelo chão
e não se esqueçam de apagar-me a luz.
Hermenegildo Espinoza
terça-feira, 10 de abril de 2012
Possível topografia dos lugares interiores #55
A fábrica que Vesalius escolheu
para o advento do mundo sem breu
era a mesma imperfeita máquina
que autopsiou até o chamarem de pária.
Para o público deixou a mais antiga preparação
da máquina onde procurou todas as engrenagens.
Acabaram por dar ao Esqueleto de Basileia
a fama, o proveito e o orgulho
que Jacob von Gebweiler não sonhava.
Pouco depois dos trinta, Vesalius,
tão expedito quanto inaudito,
deixou o livro que revelava a fábrica
em todos os seus defeitos e virtudes.
A Filipe II de Espanha, primeiro de Portugal,
dedicou a versão estudantil da obra
que tanto abriu as portas da fábrica
que as suas próprias mãos limparam.
Hermenegildo Espinoza
domingo, 8 de abril de 2012
Sinapses
sábado, 7 de abril de 2012
quarta-feira, 4 de abril de 2012
O nervo laríngeo recorrente
Hermenegildo Espinoza
domingo, 1 de abril de 2012
Revolução Cardíaca (1)
- Que nome era esse, então?
- Revolução Cardíaca.
- Revolução?
- Sim, há ainda quem use o termo, mas tem-se vindo a perder na boca dos novos médicos. Os meus mestres gostavam muito do lirismo do termo.
- Isso deixa-te triste?
- Não consigo dizer que não.
- Porquê?
- Talvez até mais do que as outras.
- Ai sim?
- Claro, a revolução do coração é a mais antiga de todas.
- De todas?
- De todas, e em muitos não se chega a cumprir.
Hermenegildo Espinoza
domingo, 25 de março de 2012
Possível topografia dos lugares interiores #54
Enquanto na popa todos esperavam,
a vida verdadeira balançava na proa.
O coração gritava: lancem a âncora!,
mas o pé só tropeçava entre a brisa
que se acomodava no arco plantar.
Que vai ser de nós?, lamentavam
os vários tarsos encolhidos
entre a física do pé-motor
e a anatomia do pé-descalço.
Não vos espera nada, respondia
o altivo resto do corpo,
nada mais vos resta, avisava,
do que aprender a bolinar
neste duro chão salgado.
Hermenegildo Espinoza
terça-feira, 20 de março de 2012
quinta-feira, 15 de março de 2012
Epitáfios para um médico de algibeira XI
sábado, 10 de março de 2012
Possível topografia dos lugares interiores #53
Os sonhos podem ser directos
podem partir da ânsia tangível
ou mesmo ser indirectos e esguios.
Fogem da realidade como as hérnias do corpo,
como se todas as suas camadas fossem vísceras
que se entendiaram com o refúgio da pele.
Se nos complicam a vida, estrangulam rapidamente,
e morrem tão sem sangue como num corpo lívido.
Por isso - apontam os cirurgiões -,
aos homens que insistem em sonhar
não lhes basta uma realidade para ficar
mas toda a realidade da qual podem fugir.
Hermenegildo Espinoza
quinta-feira, 1 de março de 2012
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
bacoco (2) rococó (3)
E não haverá espaço a patogénios num lugar tão dado à assepsia, não porque o lugar é limpo, mas devido à negação desses patogénios em entrar, por mais que o lugar conspurcado os convide. Afinal, ainda existem patogénios honrados, com respeito pelos enfermos.
Pensando bem, se vejo neste lugar a realidade de sempre, já a verdade que a habita está estiolada. Tenho as orelhas frias e a maquilhagem num desadequado arranjo: a barba farta, a bata vincada, a angina mais frequente. Esta mão que começa a tremer, a mão agora sem essência, é a mão que começa a fechar.
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
Na natureza nada se perde, tudo se transforma?
É certo que a evolução é parte da natureza das coisas. Hoje pequena, amanhã grande. Hoje verde, amanhã caduca. Mas a constância, excepto nas mulheres [1], também o é. Para se ser folha tem de se cumprir um mínimo de requisitos, como sejam ter clorofila, produzir oxigénio e por aí em diante. É esta a nossa essência enquanto folha.
O rococó, tal como a folha, tem a sua clorofila. Pauta-se pela simplicidade. Em matéria arquitectónica faz-se ouvir por janelas alongadas e arqueadas tectalmente. Porém, na sua essência, é dominado pela forma circular. Será rococónico o edifício cujas mais ou menos tantas janelas perdem o arqueado para dar lugar à forma rectangular? Ou aquele que tenha um ângulo recto, ainda que único, nas paredes do seu bloco central, quando manda a regra que sejam circulares?
É isto que o distingue e o caracteriza. Naturalmente, é óbvio que, quando o que interessa é iluminar mais, qualquer um pode moldar a janela à luz do seu interesse. Tirar-lhe o arqueado, por exemplo. Agora, desbaptizem-na! Não a chamem, jamais, de janela rococó.
O clube, tal como o rococó e a folha, têm a sua essência. Não vende produto e, muito menos, se vende por mais valias que o façam vender mais. Não se mede pela qualidade de publicações, pela assiduidade nas mesmas ou pela sua quantidade. O clube é, na sua essência (repito), ter um Jorge Cluni que fez no máximo duas publicações em toda a história da sua existência, é ter um Bachiatari com a sua linguagem bélica e sabedoria oriental, é ter um Ubirajara desencontrado, é ter um Adegesto , Pataca de nome, que vale mais do que dinheiro, e ter um Hermenegildo assíduo, na constante presença dos seus gatos, que nem com mão magoada abdica da partilha de uma sua qualidade: a escrita. Somos nós, os malditos.
O clube é os malditos! No que respeita ao seu carácter, tudo o que não é maldito é medicomalditococo, é patogénico. Se passa a ter janelas sem arqueamento, deixa de ser o que era. Perde aquilo que o caracterizava.
Pode ser equívoco meu, mas parece-me tudo menos ser bacoco, prezar pela qualidade última desta casa. No final de contas, este é o nosso rococó e a janela quer-se como dita a regra.
R: Na natureza, algumas coisas se perdem quando se transforma.
[1] “Inconstância, o teu nome é mulher.” Hamlet
bacoco (2) rococó (2)
domingo, 12 de fevereiro de 2012
sábado, 11 de fevereiro de 2012
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
Possível topografia dos lugares interiores #52
A simetria tem dons de injustiça
agora que este corpo desconhece o vigor
e só as rugas resguardam o seu orgulho
de um tempo envergonhado e incompreendido.
O que parece ao longe um defeito anatómico
é a passagem esguia das horas e da glória
e só um dia não basta para colmatar
a falta que a juventude faz nas engrenagens.
Mas não rezam os ossos qualquer lamento
tão placidamente se diminuem em envergadura
e por isso só pode haver alguma qualidade nos defeitos
que em nada diminuem o pouco que o corpo sabe de si.
Hermenegildo Espinoza
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
Tragicomédia
Não haja medo em admiti-lo: a tragicomédia não poupa nem o sagrado.
Hermenegildo Espinoza
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
O plasma
Hermenegildo Espinoza
domingo, 5 de fevereiro de 2012
Gira-discos #41
Acordai
acordai
homens que dormis
a embalar a dor
dos silêncios vis
vinde no clamor
das almas viris
arrancar a flor
que dorme na raíz
Acordai
acordai
raios e tufões
que dormis no ar
e nas multidões
vinde incendiar
de astros e canções
as pedras do mar
o mundo e os corações
Acordai
acendei
de almas e de sóis
este mar sem cais
nem luz de faróis
e acordai depois
das lutas finais
os nossos heróis
que dormem nos covais
Acordai!
letra de José Gomes Ferreira
Hermenegildo Espinoza
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
Frenesim
Hermenegildo Espinoza




