quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Sobre o cu

Brilhante prosa, habitual nos pergaminhos de Bruno Vieira Amaral, sobre o cu e o sexo anal. Também ele - o cu - vive na mudança de paradigma.


Não suficientemente referido fora das páginas do marquês, entrevisto aqui e ali num poema mais ousado ou satírico, quase sempre escondido entre imagens e analogias róseas, o cu era o eterno figurante da mega-produção que é a história sexual da humanidade. E, no entanto, quantos prazeres o cu já não proporcionara! Em paz com o seu destino, o cu aceitava que o fodessem para imediatamente regressar à condição desprezada de cagueiro. Aceitava que as luzes da ribalta incidissem sobre as sobreexploradas mamas, sobre as originais vaginas e não reclamava quando os escultores extraíam da pedra pilas murchas sem jamais pensarem sequer em imortalizar as delicadas pregas que envolvem o cu virgem. O cu era o herói esquecido dos prazeres carnais. A iguaria apreciada com deleite na intimidade, a conquista final festejada em conversas velhacas, a derradeira porta antes da rendição incondicional. Quem dava o cu já não tinha nada para dar, por isso se dizia (e ainda se diz) que há quem dê o cu e cinco tostões. Mas o cu democratizou-se e a sua conquista, outrora reservada aos mais intrépidos combatentes, banalizou-se. Ir ao cu é cu.


- Interlúdio: pego por curiosidade em Eros de Passagem, uma antologia de poesia erótica contemporânea, com selecção e prefácio de Eugénio de Andrade, e parto em busca do cu. Há bocas e vulvas, seios, peitos, mamilos, mamas e tetas, coxas e ancas, testículos, vergas e glandes. Cu, nem vê-lo. Há, sim, nádegas e, se o meu instinto está correcto, uma poderosa sugestão de sexo anal no poema Música de Cama, XV, de David Mourão Ferreira. Nuno Júdice escreve acerca de “nádegas metafísicas” sobre uma mesa de bilhar, no que a mim me parece a união possível entre o soft porn dos anos 80 (obrigado, Zalman King) e a Colóquio/Letras. É preciso chegar ao que muitos consideram o maior poeta português vivo, Herberto Helder, para o cu aparecer, ainda que na forma de ânus, o que lhe confere a dignidade poética da posologia dos Dolviran: “a aliança intrínseca de um pénis e de um ânus” é o que se arranja.


O sexo anal, outrora uma barreira intransponível, o Santo Graal das proezas sexuais é, nos nossos dias de hedonismo abastardado, diversão obrigatória. Não há cu que não aguente. Vendem-se lubrificantes e enemas para acompanhar a asseptização do sexo anal. O que antes era transgressão pela dor, pela sujidade, pelas restrições legais e religiosas é agora uma prática incentivada e aplaudida, indolor, limpa e plenamente conformada. Há-de chegar o tempo em que o sexo anal será discutido ao jantar, recomendado pelos médicos de família, com imagens da prática ao lado do círculo alimentar, ensinado nas escolas, pregado nas igrejas, inscrito em Diário da República, salvaguardado na Constituição. Se o sexo anal era revolucionário, agora trabalha das 9 às 5 numa repartição de finanças. Tratamo-lo como quem preenche um formulário. A isto chegou a civilização do espectáculo. Ir ao cu era uma actividade aristocrática, um luxo distintivo como as tapeçarias Gobelins, as faianças de Delft, uma festa na Quinta Patiño. Há não muito tempo, em 1995, um fauno como Milan Kundera podia escrever uma coisa destas sem correr o risco de ser acusado de imprecisão: “O único local verdadeiramente íntimo, perante cujo tabu até os filmes pornográficos se inclinam, é o olho do cu, a porta suprema; suprema porque a mais misteriosa, porque a mais secreta.” (A Lentidão) Pobre Kundera! Para onde correram os tempos do cu misterioso, do tabu que suscitava reverência aos filmes pornográficos, ajoelhados respeitosamente perante o derradeiro limite? Hoje, o sexo anal encontra-se à mão de semear, tão acessível e cómodo como uma viagem na Easy Jet. Aconteceu ao cu o mesmo que ao Meco. Há poucas décadas era um lugar remoto. Agora é uma marca, “Amo-te, cu”, e cada um de nós um Pedro Miguel Ramos do empreendedorismo anal. Vai-se ao cu como quem vai a uma viagem de finalistas, gregariamente, turisticamente, estupidamente. Mandar alguém apanhar no cu era um insulto. Agora é uma previsão acertada. O cu fez-se porta habitual, onde toda a gente entra e sai a qualquer hora. Em 1993, Leonard Cohen ainda cantava poeticamente o sexo anal. Hoje, é a Rosinha quem assevera que gosta é de levar no pacote.


Ora, não se pode prestar pior serviço à dignidade oculta do olho do cu do que querer celebrá-la em livro. Publicar um livro laudatório do sexo anal é da ordem dos prazeres mórbidos e infantis, como os daquelas pessoas que gostam de revelar o final dos filmes que os amigos ainda não viram. Quem gosta de levar no cu, quem realmente sente que dar o cu à penetração é uma libertação inigualável deve guardar a descoberta para si, para que outros possam libertar-se apanhando no cu. Só há libertação onde há opressão. O livro de Toni Bentley, Entrega, não é uma falácia do caralho, é uma falácia do cu. A verdadeira libertação da autora não foi a apanhar no cu, mas a escrever o livro. Em vez de se limitar a apreciar o acto, anotou as vezes em que o praticou, como uma verdadeira contabilista da sodomia, e pôs-se a extrair os fundamentos básicos de uma futura religião. E escrever um livro sobre o assunto é normalizá-lo, torná-lo socialmente aceitável, um tema de conversa. Retirá-lo da intimidade e atirá-lo para as páginas do New York Times é remeter o sexo anal para o patamar anódino da cultura geral, misturá-lo com os mais recentes avanços científicos nas neurociências ou com as notícias sobre cotações da Bolsa. Exibido orgulhosamente na praça pública, o cu, ainda que envolto num discurso de sedas para-religiosas, perde valor simbólico, degrada-se, empobrece. A introdução do livro (e vamos ficar pela introdução) intitula-se, ominosamente, A Foda Sagrada. “É divino”; “O êxtase, aprendi ao ser sodomizada, é uma experiência de eternidade num momento de tempo real”; “A paz que existe para lá da dor”; “Vim a conhecer Deus por experiência, por ser fodida no cu”; “Levar no cu oferece harmonia espiritual”; “Levar no cu dá-me esperança”; “Ele abriu-me o cu e com a primeira arremetida acabou com a minha negação de Deus”; “O sexo anal é, para mim, um acontecimento literário”; “Entre na saída. O paraíso espera-o.” Esta Santa Teresa de Ávila do sexo anal, que diz ter conhecido Deus por apanhar no cu, presta um péssimo serviço ao sexo anal e à transcendência. A história de Bentley é uma história de conversão. São Paulo chegou a Deus depois de deixar de ver, Bentley chegou a Deus abrindo o olho do cu. O seu manifesto, por ser um manifesto, um libelo jurídico a favor do sexo anal, burocratiza o que ela pensa estar a sacralizar. Codifica e ritualiza, grita “Sigam-me, cus oprimidos!” e um cu que vai atrás dos outros nunca será um cu livre. Para ser um acto libertador, o sexo anal tem de ser praticado sem esperanças de recompensas místicas. Quem procura recompensas místicas deve ir à missa, praticar o Bem, ouvir A Paixão Segundo São Mateus. Levar no cu é uma experiência de outra ordem. Toni Bentley, como uma boa iconoclasta burguesa, celebra à nova-iorquina o acto de apanhar no cu. Quanto mais é sodomizada mais se enterra em metafísica. Para Bentley, levar no cu é um exercício intelectual e espiritual. Daí que, apesar da linguagem directa e forte, fuja da escatologia. Porque Bentley, apesar de tudo, não gosta de merda. Por isso é que uma simples frase em A Grande Arte, de Rubem Fonseca, é mais libertadora do que todo o livro da ex-bailarina. Mônica, a prostituta de dezoito anos, geme enquanto é sodomizada por Thales Lima Prado: “Ai, vou encher o teu pau de merda!” Sem glória, nem Deus, nem eternidade, nem salvação pela sodomia. Apenas a negação do amor e da vida, a nostalgia primitiva da lama.»





Hermenegildo Espinoza

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Uma outra causa para a Imunodeficiência seguido da diferença entre Thailand e Taiwan

Foi publicado um artigo interessante no New England Journal of Medicine, no final do mês de Agosto (em acordês, os meses ficam minúsculos, mas eu mantenho o respeitinho desde Janus) não só por razões estritamente científicas, mas também de enquadramento geográfico, o que beneficia até os desafortunados de ignorância, na qual incluo este frágil homem que insiste em crer que Hermenegildo Espinoza é um bom nome para se dar a um filho. Esta capacidade do texto científico - o bom texto científico - é a de comunicar entre as várias áreas do saber, onde uma dúvida num artigo de investigação clínica do âmbito da imunodeficiência pode, digamos, esclarecer as dúvidas geográficas (e diplomáticas - como o imbróglio Assange-cidadão-australiano-fechado-na-embaixada-equatoriana-em-Londres-com-mandado-de-detenção-sueco-e-com medo-da-extradição-posterior-para-os-Estados-Unidos-da-América já nos iluminou, pois com pequenos lapsos se erguem conflitos) esclarecer as dúvidas, dizia, entre a distinta existência de Thailand e de Taiwan, estados soberanos e independentes, não sendo, portanto a mesma coisa. Mea culpa.
Quanto à ciência, o referido estudo (ler mais aqui e aqui) constatou a presença de uma síndrome (principalmente infecções oportunistas com micobactérias não-tuberculosas) em tudo idêntica à da infecção pelo Vírus da Imunodeficiência Humana, com a pequena curiosidade de essas pessoas não estarem infectadas. Concluiu-se que a causa era autoimune: um auto-anticorpo contra o Interferão-gama, importante citocina tanto na acção da imunidade inata como na adaptativa, principalmente na sinalização das infecções por vírus ou bactérias intracelulares.
O estudo foi realizado em hospitais de Thailand (a vulgar Tailândia) e de Taiwan. O resto da lição fica a cargo da professora Wikipedia. Podem ler na diagonal, ninguém se vai importar, nem lá do lado do sol nascente nem aqui no cantinho à beira mar plantado. Andamos devidamente preocupados com o triuvirato e a tristeza dos nossos tesouros nacionais. Haverá algo mais melancólico do que a manchete Cristiano Ronaldo está triste?



Hermenegildo Espinoza

sábado, 1 de setembro de 2012

O que sabemos do nosso passado


(...)

A surprising number of these mysteries concern female sexuality. The male orgasm, for example, serves a rather obvious seed-sowing function – but what is the point of its female equivalent? The popular hypothesis that such ecstasy enhances the likelihood of a subsequent pregnancy is, Barash informs us, entirely without evidence. The idea that it might motivate reluctant ladies also seems flawed: other animals don’t require an eruption of bliss in order to continue the family line. Perhaps it is simply a “non-adaptive by-product” – an incidental development to which evolution is indifferent?
Barash doesn’t think so, preferring to believe that it is more important than that. But in what way remains a riddle – and only one of many posed by the female body. Scientists cannot explain, for example, why women have prominent breasts even when they are not suckling children. Other mammals don’t. Yes, of course, men are drawn to these protruding sacks of fat – but why? No one knows, though theories abound.

(...)

(carregar nas passagens acima para ter acesso à totalidade do texto.)



Ensaio de Stephen Cave, no Financial Times, sobre as certezas e as dúvidas do nosso passado evolucionário. Aconselhado pelo Francisco José Viegas - não é ainda rotina imaginá-lo, em primeiro, como o nosso Secretário de Estado da Cultura, mas é bom revê-lo na blogosfera.



Hermenegildo Espinoza

Sinapses

A Origem das Espécies, de Francisco José Viegas.



sexta-feira, 31 de agosto de 2012

A intromissão de Albrecht Dürer na obra de Saramago


É imperativo ler as primeiras 8 páginas d' O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de Saramago, tendo em mente a gravura de Albrecht Dürer, pertencente ao Grande Calvário.

Apontem as semelhanças.

Pitt

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Rubicundo (2)

Num fim-de-semana em que os três grandes - Benfica, Porto e Braga - cumpriram a sua missão de começar a chegar à frente na qualificação, o repasto benfiquista deu em duas goleadas, uma da sul-americana equipa A, e outra da equipa B, que esfrangalhou o Belenenses. No jogo da equipa principal, a expulsão do Amoreirinha - que, pelo que me pareceu, tentou, de uma só vez, cortar as pernas ao Melgarejo e aparar a relva do Bonfim - facilitou as coisas para os muchachos benfiquistas, que só tiveram de continuar a ofensiva que pareciam trazer já de bagagem para obterem uma vitória merecida e, diria mais, espontânea, pois é sabido, pela Energia Livre de Gibbs, que a vitória benfiquista é um processo espontâneo, portanto com delta G negativo, e que só com alterações do valor de Entropia, como por exemplo, a introdução de café com leite, fruta, ou as invenções de Jesus, pode degenerar. Já a equipa B parece bem encaminhada para trazer aos olhos dos benfiquistas os diamantes da formação. Não se esqueçam de um Ivan Cavaleiro, até a Wikipedia parece já estar atenta.
Uma palavra final para o Rio Ave, que com as remodelações gerais nesta nova época, contando para isso até com a gestão do Espírito Santo, e depois da derrota da primeira jornada, conseguiu vencer na sua deslocação ao Estádio de Alvalade, onde um Sporting depauperado tenta fazer-se à piscina dos grandes, apesar de continuar a perseguir o poema "Quase" do Mário de Sá-Carneiro, em que para atingir o sucesso, falta-lhe um golpe de asa.




Hermenegildo Espinoza

diz-se por aí #1


o prometido é de "vidro".


sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Muse, The 2nd Law

Se o novo álbum se assemelhar a Survival, que vá ser ruído para outro planeta!


quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Morreu o homem que pedia para morrer

O título - muito adequado - foi o escolhido pelo Público para resumir o imbróglio ético-jurídico de Tony Nicklinson, que acabou por falecer hoje, na sua residência em Inglaterra, de causas naturais. Desde 2005, após um sofrer um AVC, este britânico estava sem qualquer movimento voluntário do pescoço para baixo, sem conseguir falar e só com a única capacidade de comunicar através do piscar dos olhos. Esta condição, conhecida por Síndrome de Locked-in, em que há lesão do tronco cerebral ou outras estruturas inferiores do sistema nervoso central com preservação das funções corticais, é particularmente atroz, pois toda a actividade cortical do doente está preservada, todos os pensamentos íntegros, ou seja, apesar de se encontrar aprisionado dentro do próprio corpo, ficando dependente de ajuda para todas as tarefas do quotidiano, o doente tem total consciência do seu estado.
A batalha para poder, conscientemente, acabar com a sua vida, uma vida “aborrecida, miserável, exigente, indigna e intolerável”, começou em 2007, ano a partir do qual repetiu numerosas vezes a vontade, "não passageira" e consciente, de poder terminar com aquilo que já não considerava uma existência digna. Para conseguir levar a cabo a sua determinação, dado o seu estado de quase total imobilização, precisaria de ajuda, o que, de acordo com a lei britânica, que não contempla a eutanásia ou o suicídio assistido, levaria a pessoa que o assistisse nessa acção a ser acusada de homicídio.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Google Translator e a verdade desportiva


(...)

Record – Os jogadores do nosso campeonato é que estão mal habituados?

Petit – Os árbitros são muito rigorosos. Foi o que aconteceu neste caso. Acredito que o Luisão não teve a intenção de derrubar o árbitro e que até queria proteger a equipa, mas a verdade é que os árbitros alemães são assim. Eu uma vez fui expulso por insultar o árbitro, logo no meu primeiro ano na Alemanha.

R – Em alemão?

P – Não, em português. Mas eles foram ao Google tradutor e levei 5 jogos de castigo.

(...)

Entrevista do Petit, antigo jogador do Benfica e do Boavista, ao Record.



Hermenegildo Espinoza

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

diário de bordo

dia 9 e 10 - "esperam-me ondas que persistem"

na voz dos Ornatos Violeta, o retrato do que p'ra aí vem, nesta viagem.
na escrita, o diário fica por aqui.
até breve...



pitt

domingo, 19 de agosto de 2012

Rubicundo (1)

Jorge Jesus deve ser o treinador que, à custa de uma primeira época com futebol de encher a vista e concluída com o título, vive há mais tempo, na história recente do Benfica, sob uma asa de graça cada vez mais instável. Como se estivéssemos, desde a conquista do último campeonato, à espera que Jesus trouxesse de novo Jesus. E admita-se que ele tem feito um trabalho meritório nesse sentido de descrença. Ontem voltou à sua hermenêutica futebolística, que torna difícil, tanto para o adepto leigo como para o adepto que é leigo mas não o sabe, compreender a sua forma de maniatar a equipa. Mais que tudo, Carlos Martins ficou no banco a ver as trapalhadas dos colegas. Witsel voltou ao conflito táctico do costume, apoiando mais Javi Garcia na manobra defensiva e furtando-se à sua criatividade que costuma surgir uns metros mais à frente no campo. Nem carne nem peixe, é o problema do posicionamento do Witsel, e enquanto o bom senhor Jesus não lhe der aquele terreno para poder brilhar regularmente, terá de se remeter à terra de ninguém que correspondeu, no jogo, ao espaço situado entre ele e o Rodrigo, uma zona despovoada que viveu das arrancadas pré-Bruno Alves que o espanhol conseguiu impor. Da colmeia de extremos tivemos a obreira chutachuta prognata e o zangão Salvio que, sem rotinas, já foi muito bom ter conseguido aquele encontro fortuito, e furtivo, com a baliza-rainha que possibilitou o primeiro êxtase da Luz. Depois, a defesa não estava à espera que o cérebro das jogadas concretizadas pelos bracarenses fosse aquele potencial bom extremo, chamado Melgarejo, que tem tudo para dar um mau lateral adaptado, dado que possui, para já, um corte de cabelo dificilmente equiparado ao do Coentrão e um sentido posicional defensivo que não se consegue corrigir nem com um GPS na camisola do rapaz. Não só marcou um autogolo de belo efeito, como ainda fez um corte defensivo para o qual é difícil encontrar adjectivação adequada - por defeito deste vosso escriba mas, desconfio, também da língua portuguesa - e que foi ainda complementado pelo seu posicionamento desafortunado que colocou em jogo o Mossoró, que teve tempo de perguntar ao Artur para que lado se queria deitar e de olhar para o auxiliar para ter a certeza de que o seu momento não era estragado. E não foi. Diz Jesus que é preciso dar tempo ao jovem Melgarejo, o que se for em relação ao cabelo, uma ida a um cabeleireiro qualquer no Colombo resolve o assunto, enquanto que a missão de conseguir arranjar um GPS para o início desta temporada, se for mal sucedida - leia-se: as próximas duas ou três jornadas -, podemos começar a pensar com calma em 2013/2014.
Até ao fim foi um suplício, tudo. A súbita precisão milimétrica do árbitro quanto à marcação das faltas; os repentinos espasmos musculares do Beto que permitiram um amarelo e um momento televisivo para o Cardozo e também a anulação de um golo ao Benfica naquele momento em que o guarda-redes parecia estar numa praia de Matosinhos a ver os aviões e a bola lá atrás; o pedido de clemência do Santo Custódio na expulsão do colega inocente; a entrada de Enzo Pérez em campo como quem pergunta: foi para esta merda que fiquei?, enquanto o Ola John adormecia recostado num banco qualquer.
Como epílogo, uma palavra de apreço para Jorge Buescu, a quem Artur Soares Dias vem dar razão quando o primeiro disseca os problemas dos portugueses com a matemática. Seis substituições na segunda parte, que os mais optimistas juram tomar no mínimo trinta segundos, perfazem, se os números não nos defraudaram, três minutos. Na óptica arguta do árbitro, o minutinho a mais de espectáculo que ofereceu cobriu, respectivamente, a grande penalidade, as inúmeras paragens do jogo, os impunes pontapés de baliza em slow motion do Beto-olha-os-aviões-lá-atrás e, não esqueçamos, a garrafinha de água resgatada à grande área bracarense para ser abrigada junto da segurança do quarto árbitro. Teve melhor tratamento, e daí desigual, do que a galinha do estádio do Dragão ofertada ao Roberto há duas temporadas, certamente ignorada para a posteridade pela sua ausência do relatório solene do jogo.





Hermenegildo Espinoza

sábado, 18 de agosto de 2012

Estudar o desconhecido e as pontes entre nós

Centro de Investigação da Fundação Champalimaud




Complexo ICBAS / FFUP, Porto


Hermenegildo Espinoza

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Gira-discos #44





Em muitos karaokes, em muitos pedidos de namoro ou casamento, em qualquer destes eventos, é raro faltar, no imaginário português, quem cante uma música de Rui Veloso, entoando as letras que pertencem quase todas (ou mesmo todas?) a Carlos Tê, letrista indissociável da carreira do músico. Também indissociável de cada recente Verão português está o imaginário de Bernardo Fachada, na sua promessa de dois discos por ano. Os seus discos de Verão resultam da recolha e nova integração da multiculturalidade musical portuguesa, nas suas várias vertentes intrinsecamente regionais, mas também, e ninguém o pode acusar de excesso de pudor, na vertente lusófona, com largas fronteiras. Neste Criôlo, a sua festa estival de 2012, e com um esquecimento da viola, há afro-pop, reggae, teclados anos 80 no limite do embaraço, percussões dançantes e o apelo ao movimento da coxa, da perna e do pé, enquanto os braços se enrolam no par. Contudo, o factor que une todas as dimensões musicais de B Fachada reside nas suas letras, ou melhor, nas histórias de cada canção. Perdoe-se o exagero, mas tal como um zarolho pretendeu cantar um povo, o povo de Portugal, parece que Bernardo Fachada decidiu, a exemplo de Afonso Henriques que primeiro se intitulou Rei dos Portugueses e não Rei de Portugal, escrever as pequenas histórias dos portugueses. E são essas pequenas «epopeias» que embelezam a carolice, a javardice e o chico-espertismo do povo. Drogas, prostituição, atrevimentos, confusões amorosas, apelos (quem quer fumar com B fachada?; enrolas tu, fumo eu primeiro) são os condimentos que surgem em força em Criôlo, mas há espaço para tudo, até para que o português se entretenha a dançar na espera de que o disco de Inverno nos remeta para o conforto da lareira.











Hermenegildo Espinoza

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

diário de bordo

dia 8 - e as ilhas num mar vermelho 2

pode constar na Constituição de uma delas, exclusivamente, a Lei de Sod. que tantas ilhas supensas num mundo petri!?

pitt

diário de bordo

dia 7 - a alta que a todo o custo evitamos:

alta celestial

pitt

terça-feira, 7 de agosto de 2012

diário de bordo

dia 6 - e as ilhas num mar vermelho

hoje foi dia de bolina contra o periósteo.
por entre botões anestésicos, vi-me, em que instante?, a flutuar lado a lado com CFUs medulares. que ilhas suspensas! flutuam sem responsabilidade, ancoram ao sabor da sorte; aquelas que vão ficar na memória do mielograma, guiarão os navegadores que se sucedem, no mundo petri que é a caixa plano. as tormentas continuam a ser um abismo, e ainda se encontram para diante.

pitt

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

diário de bordo

dia 5 - lisp e a incongruência

era noite.
à custa do luar, os meus olhos brilhavam tal e qual os de um gato, para quem me visse de longe. ao menos era o que comentava um dos meus companheiros de bordo, um dos mais experientes, quando ao mesmo tempo caminhava em direcção a mim.
"já reparaste? tenho lifp", disse.
é a minha primeira viagem, nunca ouvi falar de lifp?, pensei.
o instinto felino aguçou a minha curiosidade, pois de felino tinha também, esta noite, o estado de consciência. descobri ao que se queria referir esse tal marujo. referia-se ao lisp, em inglês cecear, dificuldade em pronunciar os s's.
é um termo um pouco inconveniente. descreve a condição que se caracteriza por dificuldade na pronuncia dos s's, condenando, a quem dela padece, ao perpétuo lifp.

pitt

diário de bordo

dia 4 - conjectura astrolábica além Bojador

o Cabo das Tormentas ainda não foi dobrado. as ideias tormentocênticas, porém, moldaram as vigentes, minhas. subjugam o corpo à sinapse. de modo grosseiro, anunciam "a medicina como ramo da neurologia"
entretanto, o Bojador só agora ficou para trás. mas para lá caminhamos.

pitt




quarta-feira, 1 de agosto de 2012

diário de bordo

dia 3 - ictus cordis mais que direito

ali estava ela, a silhueta do contra.
dextrocardias existem.
dextrocardias cardiomegálicas existem.

pitt

terça-feira, 31 de julho de 2012

diário de bordo

dia 2 - "stardust/ bloom"

"- Mãe!! Ah mãe! Ai, ai... Uh, uh, uh, feeeeeeeeeeeiu!
- Tem calma! Conta-me o que é que se passa. O que é que mandaste?
- Não sei, não sei, NÃO SEI! Comprei dois sacos, experimentei um coisinha e não senti nada. Mandei tudo!
- Não sabes!? Heroína? (...)
- ... metadona! metadona! ai... não tem água p'ra beber? Ahhhhh! Estou 20% hidratado! O meu dedo 'tá a cair, ai! Mãe!!!! Olhe, o meu dedo... Ufhhh!
(...)
- Agora é que 'tá a bater! Uai...
- Onde é que posso picar?
(...)"

bastou içar a âncora e soltar as amarras, para que com a corrente e com o sol nascente viesse este náufrago, o náufrago 1, qual rum com o seu pirata. não haviam ventos dispnéicos, ondas edematosas, trovoadas torácicas, temperaturas piréticas, nem destroços corporais. aparentemente, apenas um céu estrelado, "luzes campimétricas a brilhar bitemporalmente".
digo, por minha justiça, que este cintilar bitemporal era estranho. nunca tal se viu. estrelas nos dois tempos do ciclo circadiano, na noite e no dia.

só o naufrago vivia esta experiência. só o náufrago tinha rum. o rum chama-se stardust. era novo, o rum. assim como a experiência, a dele e a minha. e a sua verdade, para mim.

alguns segundos com o naufrago 1 a bordo e ouviu-se um grito distante:

"- Vem aí outro!" desta vez bloom, qual pirata com o seu rum.

pitt

segunda-feira, 30 de julho de 2012

diário de bordo

dia 1 - "Levanta-te e rema"

depois das estereotipadas apresentações, conheci, de nascente a poente, os corredores dos dias que aí vêm, como novo marujo que se começa a ambientar, da proa à popa, aos cantos do barco.
"estão aqui os kits de gasimetria". expressão tão trivial que pode moldar. fez-me Lázaro por momentos, pois soou a "Levanta-te e anda!". fez-se vento na popa.

pitt

sábado, 21 de julho de 2012

Costelas flutuantes são caravelas do mar que nunca irão atracar - apontamentos sobre a melancolia do marulhar #4

Ao longo da linha do comboio de Espinho. O mar que se quedava para lá da areia. O olhar transversal aos raios de sol que se espraiavam pelo vidro da janela. A cadência do movimento uniforme da carruagem. As mãos dadas enquanto o teu rosto caído no meu peito. Ouviam-se o mar e a percussão veraneante de cada sístole, no ir e no voltar.



Hermenegildo Espinoza

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Costelas flutuantes são caravelas do mar que nunca irão atracar - apontamentos sobre a melancolia do marulhar #3

O calor a espalhar-se na pele, o sal, trazido pelo vento, a depositar-se nos poros. Os lábios dela secos, salgados, de qualquer maneira bonitos. Contornámos a rebentação das ondas, de mãos dadas. Os amigos ficaram para trás, na galhofa. A praia inclinava-se sobre o mar, o amor inclinava-se sobre a paisagem. Pedi-lhe para se sentar. Tirei-lhe uma fotografia. O vento matreiro, apanhando o vestido estival desprevenido, deixava à mostra as coxas, as pernas e os pés. Lembro-me de o mar se manifestar. Naquele pôr-do-sol, não esqueço nem o marulhar nem as pernas dela.



Hermenegildo Espinoza

sábado, 14 de julho de 2012

Costelas flutuantes são caravelas do mar que nunca irão atracar - apontamentos sobre a melancolia do marulhar #2

Os pés na areia. O pé cavo, o pé plano. A escultura do arco plantar tão breve quanto o intervalo de uma onda. O mar está velho para voltar, dizia a avó, para chatear. O mar tem ido sempre, e sempre, até hoje, tem regressado.



Hermenegildo Espinoza

Pessoas

Impressiona. A famosa arca com inéditos de Fernando Pessoa, afinal, são duas. Há material, escrito em três línguas diferentes, em qualquer tipo de papel, a lápis, caneta ou dactilografado, dos vários heterónimos ou sobre outros temas, suficiente para estudo, investigação e publicação nos próximos cinquenta anos. Para ouvir na Rádio Renascença, uma conversa com investigadores pessoanos, todos eles estrangeiros que se apaixonaram por Pessoa e pela língua portuguesa.


Hermenegildo Espinoza

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Costelas flutuantes são caravelas do mar que nunca irão atracar - apontamentos sobre a melancolia do marulhar #1

Relembro-me de uma parte da topografia interior. Dentro do apartamento, jaz um búzio numa das prateleiras da estante dos livros de língua portuguesa. Pego nele desinteressadamente. Acomodo-o junto ao ouvido. O mar evoca, subindo por uma estrada em caracol, a potencialidade da vida. A minha vida. Pouso o búzio. No ir e no voltar, resgatando os fragmentos, o marulhar consolida a memória.




Hermenegildo Espinoza

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Shakira, o reforço positivo

Um mês no Claustro 'Europeu Polónia/Ucrânia' não é suficiente para que o estímulo perca o seu efeito.

"El piquetón de Piqué" e um ponto mais para Pavlov!

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Gira-discos #43




I say you are the most exotic flower.




Hermenegildo Espinoza

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Não reconhecer rostos






Prosopagnosia, incapacidade de reconhecer rostos. Sem a memória de um rosto, um traço prontamente diferenciador de cada um, como é que nos podemos relacionar? Como pode isso afectar a ideia da amizade ou do amor sem a correspondência de uma cara? E qual o papel do cérebro nesta capacidade aparentemente simples mas que resulta de um complexo mecanismo de associação de funções superiores?

Vídeos retirados de uma reportagem do programa 60 Minutes, da CBS.




Hermenegildo Espinoza

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Revolução Cardíaca (4)

- Precisas assim tão desenfreadamente de chegar a casa, todos os dias, e explodires com a bateria?
- Claro. Necessito da percussão para me manter vivo. Para restabelecer o meu ritmo sinusal. Só consigo viver a vida em taquicardia.




Hermenegildo Espinoza

sábado, 30 de junho de 2012

domingo, 24 de junho de 2012

São João




Vivas ao Porto, onde a tradição impera!



Hermenegildo Espinoza

sábado, 23 de junho de 2012

ATP dos dias que passam.

Punição ou recompensa.

domingo, 10 de junho de 2012

Possível topografia dos lugares interiores #57

57. Frankenstein não era o monstro.


O monstro apercebeu-se
da anatomia da diferença.

Vagueou, perseguiu,
matou.
Só queria do criador
a explicação.

O criador morreu,
chamava-se Frankenstein
e foi ele
o monstro angustiado
que criou o monstro.





Hermenegildo Espinoza

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Sinapses

Ao Janela das Cinco Ideias. Gostam de lutar contra o marasmo.
Link


Hermenegildo Espinoza

domingo, 20 de maio de 2012

Revolução Cardíaca (3)

- Se o teu pai não aceita, e desconfia do que eu tenho para te dar, avisa-o de que eu estudo noite e dia para ser o melhor.
- É isso mesmo que o assusta.
- Assusta-o que eu lute para ser o melhor?
- Assusta-o que lutes noite e dia só por ti.



Hermenegildo Espinoza

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Possível topografia dos lugares interiores #56

56. um amor parkinsónico.


Amor, pedes-me a calma
que este tremor não deixa.
Em repouso,
os membros entusiasmam-se
como os gaiatos bem sabem
quando a paixão depressa é
o maior dos sintomas universais.

Amor, eu vivo rígido,
e procuro-te,
em todos os cantos,
como um bloco dorido,
à medida dos meus sonhos:
sou um atleta de roda dentada.

Amor, eu sei que um beijo
não deve ser tributado,
mas é esta a hora
em que a lentidão do meu corpo
pede a fugacidade dos teus lábios.




Hermenegildo Espinoza

quarta-feira, 9 de maio de 2012

terça-feira, 8 de maio de 2012

Dos nossos mestres

(clicar para ver melhor)

«Abel Salazar, Geraldino Bristes e Celestino da Costa, os três grandes histologistas, na sala do Museu de Anatomia da Faculdade de Medicina do Porto.»


Fotografia, das muitas possíveis de ser visualizadas, retirada do espólio documental de Abel Salazar, da autoria da Casa-Museu Abel Salazar em colaboração com a Fundação Mário Soares, disponível aqui.



Hermenegildo Espinoza

sábado, 21 de abril de 2012

Revolução Cardíaca (2)

- Tu terias ido embora e, de qualquer maneira, eu continuaria a amar-te.
- Deu-te agora para isso, foi?
- A verdade é que me parece que o coração não se compadece com o meu livre arbítrio.
- Nem o teu coração nem o meu. Quando te conheci não eras tão pretensiosamente erudito.
- O nosso amor era simples no seu desenho, decorá-lo no desenrolar dos dias é que nos trouxe uma complicada contradição.



Hermenegildo Espinoza

quarta-feira, 18 de abril de 2012

domingo, 15 de abril de 2012

Gira-discos #42




Jon Hopkins - Light Through The Veins


No dia em que eu morrer cortem-me as veias,
fechem à chave o coração empedrado,
quando o corpo estiver todo seco
e a festa com um fim anunciado
espalhem as veias pelo chão
e não se esqueçam de apagar-me a luz.



Hermenegildo Espinoza

terça-feira, 10 de abril de 2012

Possível topografia dos lugares interiores #55

55. a fábrica de Vesalius.


A fábrica que Vesalius escolheu
para o advento do mundo sem breu
era a mesma imperfeita máquina
que autopsiou até o chamarem de pária.

Para o público deixou a mais antiga preparação
da máquina onde procurou todas as engrenagens.
Acabaram por dar ao Esqueleto de Basileia
a fama, o proveito e o orgulho
que Jacob von Gebweiler não sonhava.

Pouco depois dos trinta, Vesalius,
tão expedito quanto inaudito,
deixou o livro que revelava a fábrica
em todos os seus defeitos e virtudes.
A Filipe II de Espanha, primeiro de Portugal,
dedicou a versão estudantil da obra
que tanto abriu as portas da fábrica
que as suas próprias mãos limparam.





Hermenegildo Espinoza

domingo, 8 de abril de 2012

Sinapses

De Rerum Natura, provavelmente o melhor blogue português de divulgação científica. Uma enorme falta agora emendada.




quarta-feira, 4 de abril de 2012

O nervo laríngeo recorrente




É curioso que um nervo tão inadequadamente comprido para o seu propósito seja, de facto, um estandarte da evolução, uma evolução que não tem propriamente um propósito de perfeição ou um fim em si mesmo. Se assim fosse, os mamíferos ficariam muito mal vistos por qualquer engenheiro, por pior que este fosse. Por isso, olhamos para o nervo laríngeo recorrente (ramo do nervo vago que inerva os músculos das cordas vocais) de uma de duas maneiras: ou uma imperfeição no esboço do Supremo Engenheiro ou a constatação de que o longo trajecto do nervo é o resultado da evolução do pescoço dos mamíferos, a partir de um ancestral comum, provavelmente dos peixes, que teria um trajecto mais directo. Richard Dawkins, como super-ateu e defensor da teoria evolucionista, dá uma perspectiva, neste vídeo, que não é difícil de descobrir qual é.




Hermenegildo Espinoza

domingo, 1 de abril de 2012

Revolução Cardíaca (1)

- Em tempos, à alternância entre a sístole e a diástole dava-se outro nome que não o ciclo cardíaco.
- Que nome era esse, então?
- Revolução Cardíaca.
- Revolução?
- Sim, há ainda quem use o termo, mas tem-se vindo a perder na boca dos novos médicos. Os meus mestres gostavam muito do lirismo do termo.
- Isso deixa-te triste?
- Não consigo dizer que não.
- Porquê?
- Porque todas as revoluções têm vindo a perder o brilho nos olhos dos inquietos.
- Esta revolução também?
- Talvez até mais do que as outras.
- Ai sim?
- Claro, a revolução do coração é a mais antiga de todas.
- De todas?
- De todas, e em muitos não se chega a cumprir.






Hermenegildo Espinoza

domingo, 25 de março de 2012

Possível topografia dos lugares interiores #54

54. um pé navicular.


Enquanto na popa todos esperavam,
a vida verdadeira balançava na proa.
O coração gritava: lancem a âncora!,
mas o pé só tropeçava entre a brisa
que se acomodava no arco plantar.

Que vai ser de nós?, lamentavam
os vários tarsos encolhidos
entre a física do pé-motor
e a anatomia do pé-descalço.

Não vos espera nada, respondia
o altivo resto do corpo,
nada mais vos resta, avisava,
do que aprender a bolinar
neste duro chão salgado.




Hermenegildo Espinoza

terça-feira, 20 de março de 2012

20 de Março de 2009

Felicitações Malditos!
3 anos de divagações...

quinta-feira, 15 de março de 2012

Epitáfios para um médico de algibeira XI

/Era conhecido por ser um médico acanhado. Competente, sim, mas acanhado. Temia contar más-notícias. Dizia que, apesar do inevitável, o melhor cuidado paliativo era não lembrar repetidamente ao corpo o desânimo do seu tiquetaque. Dizem que esse médico morreu de uma coisa maligna, muito dolorosa, muito desanimadora. Também há quem garanta que não quis saber do que padecia afinal. Até poderia desconfiar, mas preferiu acolher o inevitável com o tiquetaque de sempre. O tiquetaque persistente de um relógio suíço./



sábado, 10 de março de 2012

Possível topografia dos lugares interiores #53

53. cada sonho é uma hérnia da realidade.


Os sonhos podem ser directos
podem partir da ânsia tangível
ou mesmo ser indirectos e esguios.

Fogem da realidade como as hérnias do corpo,
como se todas as suas camadas fossem vísceras
que se entendiaram com o refúgio da pele.
Se nos complicam a vida, estrangulam rapidamente,
e morrem tão sem sangue como num corpo lívido.

Por isso - apontam os cirurgiões -,
aos homens que insistem em sonhar
não lhes basta uma realidade para ficar
mas toda a realidade da qual podem fugir.




Hermenegildo Espinoza

quinta-feira, 1 de março de 2012

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

bacoco (2) rococó (3)

Este rococó é também um exagero da realidade, uma realidade hiperbolicamente adornada, que não pode ser mais do que aquilo que é, e que, por isso, usa maquilhagem. É assim a ficção bacoco-rococó: embora abuse da maquilhagem, não utiliza qualquer tipo de barrete, e nisso ela é sincera. Não podemos, contudo, evitar felizes coincidências - estão por todo o lado - e quem lê a ficção e encontra nela uma verdade, talvez seja porque tem frio nas orelhas. Se esta ficção se presta a estas coincidências, nem é o seu mérito que devemos discutir, mas é a verdade que nela assoma aos olhos. Podemos julgar que a realidade está aí, como sempre tem estado, quer a consideremos contingente ou necessária. Porém, a verdade que nela há, por mais fraccionada que seja, principalmente quando surge sinergicamente a reboque da ficção, talvez seja a mais exacta. A verdade transforma-se, para melhor ou para pior; já a teimosia é mais difícil.
E não haverá espaço a patogénios num lugar tão dado à assepsia, não porque o lugar é limpo, mas devido à negação desses patogénios em entrar, por mais que o lugar conspurcado os convide. Afinal, ainda existem patogénios honrados, com respeito pelos enfermos.
Pensando bem, se vejo neste lugar a realidade de sempre, já a verdade que a habita está estiolada. Tenho as orelhas frias e a maquilhagem num desadequado arranjo: a barba farta, a bata vincada, a angina mais frequente. Esta mão que começa a tremer, a mão agora sem essência, é a mão que começa a fechar.




segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Na natureza nada se perde, tudo se transforma?

É certo que a evolução é parte da natureza das coisas. Hoje pequena, amanhã grande. Hoje verde, amanhã caduca. Mas a constância, excepto nas mulheres [1], também o é. Para se ser folha tem de se cumprir um mínimo de requisitos, como sejam ter clorofila, produzir oxigénio e por aí em diante. É esta a nossa essência enquanto folha.

O rococó, tal como a folha, tem a sua clorofila. Pauta-se pela simplicidade. Em matéria arquitectónica faz-se ouvir por janelas alongadas e arqueadas tectalmente. Porém, na sua essência, é dominado pela forma circular. Será rococónico o edifício cujas mais ou menos tantas janelas perdem o arqueado para dar lugar à forma rectangular? Ou aquele que tenha um ângulo recto, ainda que único, nas paredes do seu bloco central, quando manda a regra que sejam circulares?

É isto que o distingue e o caracteriza. Naturalmente, é óbvio que, quando o que interessa é iluminar mais, qualquer um pode moldar a janela à luz do seu interesse. Tirar-lhe o arqueado, por exemplo. Agora, desbaptizem-na! Não a chamem, jamais, de janela rococó.

O clube, tal como o rococó e a folha, têm a sua essência. Não vende produto e, muito menos, se vende por mais valias que o façam vender mais. Não se mede pela qualidade de publicações, pela assiduidade nas mesmas ou pela sua quantidade. O clube é, na sua essência (repito), ter um Jorge Cluni que fez no máximo duas publicações em toda a história da sua existência, é ter um Bachiatari com a sua linguagem bélica e sabedoria oriental, é ter um Ubirajara desencontrado, é ter um Adegesto , Pataca de nome, que vale mais do que dinheiro, e ter um Hermenegildo assíduo, na constante presença dos seus gatos, que nem com mão magoada abdica da partilha de uma sua qualidade: a escrita. Somos nós, os malditos.

O clube é os malditos! No que respeita ao seu carácter, tudo o que não é maldito é medicomalditococo, é patogénico. Se passa a ter janelas sem arqueamento, deixa de ser o que era. Perde aquilo que o caracterizava.

Pode ser equívoco meu, mas parece-me tudo menos ser bacoco, prezar pela qualidade última desta casa. No final de contas, este é o nosso rococó e a janela quer-se como dita a regra.


R: Na natureza, algumas coisas se perdem quando se transforma.

[1] “Inconstância, o teu nome é mulher.” Hamlet

bacoco (2) rococó (2)

Eu normalmente não me queixo. Sou calado e subtil, mas não submisso. Se os propósitos que me movem, ou melhor, os propósitos que habitam o meu espaço da realidade, são tão facilmente dilacerados, repudiados, desrespeitados por um qualquer apelo de coesão de grupo que não existe, por uma falsa ameaça de diluição de força, quando para tal há responsabilidades não levadas a peito por quem de direito, não posso ser eu o incorrecto ou o desadequado. Mandar um amigo à merda pode ser tão indispensável como elogiar-lhe uma acção benemérita, para o bem utilitarista do grupo. Só é bacoco quem quer, e se o dou a entender, é porque posso - quase sub-repticiamente, admito-o - tomar essa posição como hábito de defesa, e, se necessário, também de ataque. Uma coisa que a sinonímia nos ensina, é que não podemos passar a a vida a aturar bardamerdas, bandalhos, badamecos ou pulhas. E assim sucessivamente.




domingo, 12 de fevereiro de 2012

sábado, 11 de fevereiro de 2012

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Possível topografia dos lugares interiores #52

52. o que parece defeito.


A simetria tem dons de injustiça
agora que este corpo desconhece o vigor
e só as rugas resguardam o seu orgulho
de um tempo envergonhado e incompreendido.

O que parece ao longe um defeito anatómico
é a passagem esguia das horas e da glória
e só um dia não basta para colmatar
a falta que a juventude faz nas engrenagens.

Mas não rezam os ossos qualquer lamento
tão placidamente se diminuem em envergadura
e por isso só pode haver alguma qualidade nos defeitos
que em nada diminuem o pouco que o corpo sabe de si.






Hermenegildo Espinoza

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Tragicomédia




Não haja medo em admiti-lo: a tragicomédia não poupa nem o sagrado.




Hermenegildo Espinoza

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

O plasma

A ser verdade, há muito azar em Portugal que, admitamo-lo, é merecido. Curioso que, não raras vezes, é um azar endógeno. Este mesmo Portugal, este Portugal dos detalhes teimosamente esquecidos, é o pior saco de pancada dos portugueses.




Hermenegildo Espinoza

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Gira-discos #41



Fernando Lopes-Graça - Acordai

Acordai
acordai

homens que dormis

a embalar a dor

dos silêncios vis

vinde no clamor

das almas viris

arrancar a flor

que dorme na raíz



Acordai

acordai

raios e tufões

que dormis no ar

e nas multidões

vinde incendiar

de astros e canções

as pedras do mar

o mundo e os corações



Acordai

acendei

de almas e de sóis

este mar sem cais

nem luz de faróis

e acordai depois

das lutas finais

os nossos heróis

que dormem nos covais

Acordai!



letra de José Gomes Ferreira





Hermenegildo Espinoza

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Frenesim

Nestas alturas em que o cansaço impera e as dioptrias disparam, dou comigo a pensar no «frenesim» que a vida por vezes assume. Só não sabia, nem nunca pensei, que este «frenesim» pode considerar-se um delírio, uma hiperbólica inflamação cerebral.





Hermenegildo Espinoza

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Epitáfios para um médico de algibeira X

/Era um médico com uma catedral no coração. Questionava, examinava, auscultava, prescrevia e, não raras vezes, rezava. Também ele tinha a sua própria legião de beatas. Não se cansavam de olhar para os seus olhos. Garantiam que se o cabelo era talha dourada, então aqueles olhos só poderiam ser vitrais./




Hermenegildo Espinoza

domingo, 29 de janeiro de 2012

Os médicos e os milagres

Ladislau Patrício, Os médicos e o Público




Hermenegildo Espinoza

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Uma casa que podemos dizer que é nossa




A nova casa do ICBAS / FFUP.



Hermenegildo Espinoza

domingo, 22 de janeiro de 2012

Sinapses

Ouriquense, Lei Seca do Pedro Mexia e o Sound + Vision.




Hermenegildo Espinoza

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Gira-discos #40




Zooey, marry me.





Hermenegildo Espinoza

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

bacoco (1) rococó (2)

No meio do pátio do hospital, cercada por uns arbustos outonais e vigiada por um pequeno ajuntamento de gatos pretos, está uma capela em repouso. Nunca lá entres se não pretenderes depurar o espírito. Os gatos, outrora nómadas delinquentes, apropriaram-se da segurança do lugar e vislumbram de antemão todas as vontades, boas ou más. Não os provoques. Estão habituados a reconhecer a ralé e ninguém sabe se aquelas unhas conheceram uma lima. Se a morte de uma pessoa te trouxer ao pátio, não te precipites. Os gatos reconhecerão a tua angústia. Evita, contudo, a necessidade de os enfrentar. Os que o fizeram, mais que o desamparo do erro que ali os impeliu, lamentam ainda o rigor ético dos felinos. E o espírito nunca foi tão limpo.



sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Gira-discos #39



The Smiths - Please, please, please, let me get what I want


O que eu quero, por favor, só desta vez, é que este dia se desmembre na memória. Se possível, que seja a cauda gasosa do cometa que, incauto, percorre o comprimento do calendário, sem saber que vagueia sempre na mesma órbita.




Hermenegildo Espinoza

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Possível topografia dos lugares interiores #51

51. pássaro em chamas, cadáver em cinzas.


Um cadáver em cinzas não é um corpo,
talvez tenha sido, com mais ou menos precisão,
algo parecido com o que vem nos livros,
mas destas cinzas não nascem homens.

Com mais pena voa o pássaro em chamas,
pequena ave que sabe como foi em vida o cadáver:
guarda em si o tratado anatómico do último homem.

Pobre pássaro que lamentas no fogo
não o homem que foi antes de ser cinza
mas o amparo que tendo existido já não há
e tanta pena temos de ti, pássaro em chamas,
que cais agora junto ao homem que se foi
e tornas-te num cadáver em cinzas também.




Hermenegildo Espinoza

sábado, 7 de janeiro de 2012

bacoco (1) rococó (1)

É a mulher mais charmosa daquela enfermaria. Até lhe perdoo as unhas de gel, essa praga artificial de queratinas de faz-de-conta. Diz um internista meu amigo que assim arranham mais. E ele gosta, apesar de nunca se ter queixado de qualquer escoriação por parte do paradigma caseiro. Se arranham ou não - possíveis armas de crime? -, a verdade é que aquela enfermeira, pouco mais de trinta anos, esconde nas formas por baixo da bata os alicerces mais elogiados de qualquer estilo arquitectónico. Não que os dias sejam passados na plácida contemplação da obra feita, mas antes na eterna congeminação de aproveitar a obra. Como se um dia nos fartássemos de observar a Janela Manuelina e decidíssemos, como jovens afoitos, subir a parede só para podermos espreitar por lá.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

bacoco (0) rococó (1)

A posição na cadeira permitia descrever o surgimento da escuridão. Não há celebração que não acabe em fartura, nem solidão que não se assemelhe a uma fortuna envenenada. O excesso da pessoa que queres ser é o defeito da pessoa que és. Mas não desanimes. Amanhã voltas para o sufoco e mais gente acabará por morrer sem que os teus olhos se apercebam. E um dia, não o neguemos, saberás auscultar mais que um pulmão, mais que um coração. Até lá, por muito que saibas como bate o coração do homem isquémico, ou como crepita o pulmão direito com a tosse do homem febril, não te iludas, e não tenhas medo de pedir a alguém que apague a luz, agora que só a escuridão te sossega.


domingo, 1 de janeiro de 2012

sábado, 31 de dezembro de 2011

The Walkmen trazem-nos a véspera de ano novo





Hermenegildo Espinoza

2012, na mouche

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;

Todo o mundo é composto de mudança,

Tomando sempre novas qualidades.


Continuamente vemos novidades,

Diferentes em tudo da esperança;

Do mal ficam as mágoas na lembrança,

E do bem, se algum houve, as saudades.


O tempo cobre o chão de verde manto,

Que já coberto foi de neve fria,

E em mim converte em choro o doce canto.


E, afora este mudar-se cada dia,

Outra mudança faz de mor espanto:

Que não se muda já como soía.


Luís de Camões, sua Poesia Lírica




Hermenegildo Espinoza

domingo, 25 de dezembro de 2011

Possível topografia dos lugares interiores #50

50. a lanugem dos homens com frio.


Quantos homens são precisos
para encolher o frio
e para apagar o desenho
que a humidade traz na parede?

Quantos instrumentos,
quantos orgãos, ossos, músculos,
quantos tendões quantos
são precisos para tocar, para partir,
para esquecer o tiritar
quanto são precisos
para abafar e enterrar
a melodia cruel do inverno?

Não mais que a soma da lanugem
de todas as novas crianças do mundo
e não menos que o comedido afago
de dois homens sozinhos e com frio.





Hermenegildo Espinoza

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Gira-discos #38



B Fachada - A Casa do Manel

Esquecer a escola e o dever, fazer as coisas por prazer, fantasiar grandes perigos, fazer planos, muito amigos para viver, daqui a muitos anos os dois num país qualquer.



Hermenegildo Espinoza

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

não me travem quando eu quero acelerar #1

Trago a roupa de estrada, vou percorrer a calçada,
- fachada?,
fugir antes de voltar para trás, eu lembro-me de que antes os meus dedos mexiam quando eu pedia, o meu corpo saltava quando eu pedia, as pernas corriam na savana do tempo porque o tempo era o meu, e não percebo, não percebo mesmo, mas desde há meses,
- anos ou talvez sempre?,
que choro sem que o ânimo peça, treze semáforos a verde num percurso de meia-hora, nenhum trânsito na calçada, e eu não preciso de me desviar, não preciso de parar, conheço apenas a modalidade de acelerar,
- não me travem quando eu quero acelerar,
é o que eu lhes grito sempre, mas não sei o que dizem as pessoas, não digo nada nem nos sombrios confessionários da infância, não conto rigorosamente nada, não faço amigos, porque se os perco também me vou perdendo a mim, quando o sol se põe no céu e eu me lembro que num percurso de meia-hora treze semáforos,
- é preciso ter sorte, sim, treze é formidável,
treze semáforos, senhores, em que o verde brindou-me brilhante a passagem, não precisei de cantar de regozijo, o alcatrão do chão gelado,
- é inverno, rapaz, estamos no inverno,
caminho ao abrigo dos leões e vejo mosaicos num azul fechado,
- as cores fecham-se, não sabias?,
oiço estilhaçar vidros no chão, e os meus pés colam-se às pedras, uma rapariga decotada de lábios exagerados,
- queres?,
e eu não quero nada, o frio não me incomoda e não tarda regressarei a casa conformado,
- sei fazer umas coisas que te podem animar,
não me parece que a rapariga saiba de algum método eficaz para mitigar um desamparo aprendido, nem que me ensine a falar a língua dos outros,
- decide-te que tenho outros à espera,
pela rispidez duvido que ela saiba o que é o conforto de treze semáforos a verde, e pelo vestido vermelho eu julgo que não é para avançar, alguém tomará o meu lugar, alguém que sofra do mesmo anseio, alguém que diga,
- quero, sim,
e me relembre,
- não querias acelerar?,
eu queria tanto, até porque o sol não tarda aí a acordar a multidão que se ergue da cama para a destilaria do ódio,
- vão morrer todos, vão, e julgam que é melhor não pensar nisso, é estranho,
e eu vou tentando ser decente, a culpa não é deles, nem todos podem encontrar quinze semáforos a verde,
- que quinze?,
peço desculpa, treze, treze semáforos a verde, eu não tenho culpa que desde há meses eu chore sem que o ânimo peça, nem que a roupa de estrada me leve de retorno a casa,
- todos os dias é o que tem acontecido,
embora eu repita, enquanto a janela do quarto se fecha e já não oiço o vidro estilhaçar, que não me poderão travar todas as vezes que eu quiser acelerar.






sábado, 10 de dezembro de 2011

Possível topografia dos lugares interiores #49

49. o homem que queria morrer sossegado.


O homem que queria morrer sossegado
pediu-me, inquieto,
que o deixasse morrer sossegado,
enquanto houvesse tempo bastante
para que a morte matreira
não se lembrasse por fim
de o vir buscar à pressa.

O cientista em mim inquietou-se
nas palavras inquietas e tão tristes
do homem que queria morrer sossegado,
mas o médico em mim só descobriu o sossego
quando firme apoiou a mão na mão fraca
do homem que queria morrer sossegado
e garantiu-lhe que não o deixaria morrer inquieto.

O homem que queria morrer sossegado
acabou por não conhecer a inquietação na morte,
enquanto o cientista em mim conheceu amargurado
todos os precipícios da morte que olhava pelos olhos
do médico que em mim fechava em sossego
os olhos do homem que morreu sossegado.




Hermenegildo Espinoza

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Epitáfios para um médico de algibeira IX

/O médico que conheceu o sossego é o resultado do conjunto de doentes que não morreram inquietos./



Hermenegildo Espinoza

sábado, 3 de dezembro de 2011

Gira-discos #37



Ray Charles - I Don't Need No Doctor





Hermenegildo Espinoza

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Possível topografia dos lugares interiores #48

48. uma transfusão de elementos figurados do medo.


Tem um carácter particular
o medo que trespassa a pele
a mesma que teimosa
deveria ser impermeável.

Na confusão da história
a falência do medo é perniciosa
e é tão grave como a coragem louca
que raramente vem uma segunda vez.

Atenta sempre
às condições do corpo
que no seu elementar desejo
deve ter o receio de subir a montanha.




Hermenegildo Espinoza

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Isto de estar vivo ainda um dia acaba mal

Todos os semáforos entre o alfarrabista de eleição e a minha casa dos gatos literários estavam vermelhos. Todos. Estive parado em em todos os semáforos. Foram cerca de sete. Fina ironia a desta vida, a mandar-me interromper a marcha insistentemente. E eu insisti também, dando logo trabalho às pernas assim que o macadame livre mo permitia. Não faço futurologia com semáforos, mas põe-te fino, Espinoza. Como dizia o Luiz Pacheco, porque assim já o tinha dito o Manuel da Fonseca, isto de estar vivo ainda um dia acaba mal.



Hermenegildo Espinoza

domingo, 20 de novembro de 2011

O narcótico dado às cegas

quando não se é ouvido vai-se bater a outra porta.

foi o que fez o rezingão. rezingão que se preze, não só faz oscilar membranas timpânicas, como também provoca oscilações da glote, em movimentos coordenados de cordas-palavras.

o rezingão não tinha esse efeito com o, até então, seu ortopedista. que se pode fazer perante um ortopedista enviesado? é surdez e não-cegueira.

se essa surdez é ou total, ou selectiva, é outra questão. mas estou em crer que se a deficiência auditiva fosse absoluta, o ortopedista jamais teria sido ortopedista, porque não conseguiria acudir aos "ais" que todos os dias o chamam.

a não-cegueira é osso do ofício. ortopedista só acredita na dor que se vê: tibias fracturadas que espreitam a luz do dia; pisiformes com microfracturas no papel Curie, luxações dos pés às 12h30min.

portanto,ortopedista só ouve aquilo que vê. é céptico.
o analgesista, não. ouve o que não salta à vista. não deixa de ser céptico, mas é metódico.

resta-me ter fé no seguinte: que a mão do rezingão faça ressoar a campainha certa.

galli pitt

sábado, 19 de novembro de 2011

A dor asiática

É a chamada dor osteo-étnica ou osteo-racial: há dias, um doente rezingão, daqueles muito sensíveis a uma correcção, queixou-se que já andava farto de referir ao seu ortopedista que não podia mais com a sua dor asiática. Hipócrates bem sabe o que me custou a placidez dos músculos faciais do riso.


Hermenegildo Espinoza

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Pouco me importo, se, arrastado pelos mercados, der falência o BIMM.
Mas esta crise vai além da algibeira.

A crise chega a tudos.

um maldito

terça-feira, 15 de novembro de 2011

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Possível topografia dos lugares interiores #47

47. a arte de refilar nas salas de espera.


Uma cadeira não esquece as horas,
os minutos prolongam-se nos ossos doridos
enquanto alguém espera uns segundos eternos.

Não há má notícia que aguarde a sua vez
nem maus diagnósticos que se acumulem
nos corredores de olhares cabisbaixos.

Quem refila na sala de espera
tem medo que o medo da dor
chegue e não avise ninguém.




Hermenegildo Espinoza

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Possível topografia dos lugares interiores #46

46. não chegaremos ao tempo dos pés inchados.


Os que padecem
de felicidade insuficiente
vivem no estigma da ausência
na falta que lhes faz um relógio
que acelere o tempo em que a felicidade
corre desenfreadamente nas artérias.

Os que se queixam
de felicidade restrita
vivem acordados numa insónia
num sonho estagnado no passado
que não lhes traz a almejada boa-aventurança
numa fé carcomida pela rouquidão dos discursos.

Os que vão morrer
numa parca felicidade
não terão tempo de ver
os dois pés inchados
porque o coração incapaz
não aguenta a nossa triste figura.



Hermenegildo Espinoza

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Gattuso e a paralisia do nervo abducente.


O sexto par craniano, no olho esquerdo, anda a apoquentá-lo. O olho que se recusa a mexer. O olho esquerdo parado. A história do jogador que via a dobrar. Aguenta-te, Gattuso.


Hermenegildo Espinoza

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Possível topografia dos lugares interiores #45

45. o senhor Broadman desenhou um mapa.


Um bicho faz-de-conta tornou-se real
e o verdadeiro cérebro
tornou-se o cérebro faz-de-conta.

Desconhece-se o paradeiro
do bicho faz-de-conta
mas há estudos que apontam
claramente
que o verdadeiro cérebro
está debaixo das arcadas do mundo
a brincar à cabra-cega com o consciente.

O senhor Broadman desenhou um mapa
cheio de números, casas e sentidos,
toda a morada do verdadeiro cérebro,
e tentou convencê-lo a regressar
com palavras científicas, as mais sábias.
Pobre senhor Broadman, não sabia mentir,
e por isso o verdadeiro cérebro exilou-se
vive por aí entretido a tentar perceber
o que aconteceu ao bicho faz-de-conta
que endoideceu a querer ser real.





Hermenegildo Espinoza