quarta-feira, 1 de agosto de 2012

diário de bordo

dia 3 - ictus cordis mais que direito

ali estava ela, a silhueta do contra.
dextrocardias existem.
dextrocardias cardiomegálicas existem.

pitt

terça-feira, 31 de julho de 2012

diário de bordo

dia 2 - "stardust/ bloom"

"- Mãe!! Ah mãe! Ai, ai... Uh, uh, uh, feeeeeeeeeeeiu!
- Tem calma! Conta-me o que é que se passa. O que é que mandaste?
- Não sei, não sei, NÃO SEI! Comprei dois sacos, experimentei um coisinha e não senti nada. Mandei tudo!
- Não sabes!? Heroína? (...)
- ... metadona! metadona! ai... não tem água p'ra beber? Ahhhhh! Estou 20% hidratado! O meu dedo 'tá a cair, ai! Mãe!!!! Olhe, o meu dedo... Ufhhh!
(...)
- Agora é que 'tá a bater! Uai...
- Onde é que posso picar?
(...)"

bastou içar a âncora e soltar as amarras, para que com a corrente e com o sol nascente viesse este náufrago, o náufrago 1, qual rum com o seu pirata. não haviam ventos dispnéicos, ondas edematosas, trovoadas torácicas, temperaturas piréticas, nem destroços corporais. aparentemente, apenas um céu estrelado, "luzes campimétricas a brilhar bitemporalmente".
digo, por minha justiça, que este cintilar bitemporal era estranho. nunca tal se viu. estrelas nos dois tempos do ciclo circadiano, na noite e no dia.

só o naufrago vivia esta experiência. só o náufrago tinha rum. o rum chama-se stardust. era novo, o rum. assim como a experiência, a dele e a minha. e a sua verdade, para mim.

alguns segundos com o naufrago 1 a bordo e ouviu-se um grito distante:

"- Vem aí outro!" desta vez bloom, qual pirata com o seu rum.

pitt

segunda-feira, 30 de julho de 2012

diário de bordo

dia 1 - "Levanta-te e rema"

depois das estereotipadas apresentações, conheci, de nascente a poente, os corredores dos dias que aí vêm, como novo marujo que se começa a ambientar, da proa à popa, aos cantos do barco.
"estão aqui os kits de gasimetria". expressão tão trivial que pode moldar. fez-me Lázaro por momentos, pois soou a "Levanta-te e anda!". fez-se vento na popa.

pitt

sábado, 21 de julho de 2012

Costelas flutuantes são caravelas do mar que nunca irão atracar - apontamentos sobre a melancolia do marulhar #4

Ao longo da linha do comboio de Espinho. O mar que se quedava para lá da areia. O olhar transversal aos raios de sol que se espraiavam pelo vidro da janela. A cadência do movimento uniforme da carruagem. As mãos dadas enquanto o teu rosto caído no meu peito. Ouviam-se o mar e a percussão veraneante de cada sístole, no ir e no voltar.



Hermenegildo Espinoza

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Costelas flutuantes são caravelas do mar que nunca irão atracar - apontamentos sobre a melancolia do marulhar #3

O calor a espalhar-se na pele, o sal, trazido pelo vento, a depositar-se nos poros. Os lábios dela secos, salgados, de qualquer maneira bonitos. Contornámos a rebentação das ondas, de mãos dadas. Os amigos ficaram para trás, na galhofa. A praia inclinava-se sobre o mar, o amor inclinava-se sobre a paisagem. Pedi-lhe para se sentar. Tirei-lhe uma fotografia. O vento matreiro, apanhando o vestido estival desprevenido, deixava à mostra as coxas, as pernas e os pés. Lembro-me de o mar se manifestar. Naquele pôr-do-sol, não esqueço nem o marulhar nem as pernas dela.



Hermenegildo Espinoza

sábado, 14 de julho de 2012

Costelas flutuantes são caravelas do mar que nunca irão atracar - apontamentos sobre a melancolia do marulhar #2

Os pés na areia. O pé cavo, o pé plano. A escultura do arco plantar tão breve quanto o intervalo de uma onda. O mar está velho para voltar, dizia a avó, para chatear. O mar tem ido sempre, e sempre, até hoje, tem regressado.



Hermenegildo Espinoza

Pessoas

Impressiona. A famosa arca com inéditos de Fernando Pessoa, afinal, são duas. Há material, escrito em três línguas diferentes, em qualquer tipo de papel, a lápis, caneta ou dactilografado, dos vários heterónimos ou sobre outros temas, suficiente para estudo, investigação e publicação nos próximos cinquenta anos. Para ouvir na Rádio Renascença, uma conversa com investigadores pessoanos, todos eles estrangeiros que se apaixonaram por Pessoa e pela língua portuguesa.


Hermenegildo Espinoza

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Costelas flutuantes são caravelas do mar que nunca irão atracar - apontamentos sobre a melancolia do marulhar #1

Relembro-me de uma parte da topografia interior. Dentro do apartamento, jaz um búzio numa das prateleiras da estante dos livros de língua portuguesa. Pego nele desinteressadamente. Acomodo-o junto ao ouvido. O mar evoca, subindo por uma estrada em caracol, a potencialidade da vida. A minha vida. Pouso o búzio. No ir e no voltar, resgatando os fragmentos, o marulhar consolida a memória.




Hermenegildo Espinoza

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Shakira, o reforço positivo

Um mês no Claustro 'Europeu Polónia/Ucrânia' não é suficiente para que o estímulo perca o seu efeito.

"El piquetón de Piqué" e um ponto mais para Pavlov!

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Gira-discos #43




I say you are the most exotic flower.




Hermenegildo Espinoza

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Não reconhecer rostos






Prosopagnosia, incapacidade de reconhecer rostos. Sem a memória de um rosto, um traço prontamente diferenciador de cada um, como é que nos podemos relacionar? Como pode isso afectar a ideia da amizade ou do amor sem a correspondência de uma cara? E qual o papel do cérebro nesta capacidade aparentemente simples mas que resulta de um complexo mecanismo de associação de funções superiores?

Vídeos retirados de uma reportagem do programa 60 Minutes, da CBS.




Hermenegildo Espinoza

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Revolução Cardíaca (4)

- Precisas assim tão desenfreadamente de chegar a casa, todos os dias, e explodires com a bateria?
- Claro. Necessito da percussão para me manter vivo. Para restabelecer o meu ritmo sinusal. Só consigo viver a vida em taquicardia.




Hermenegildo Espinoza

sábado, 30 de junho de 2012

domingo, 24 de junho de 2012

São João




Vivas ao Porto, onde a tradição impera!



Hermenegildo Espinoza

sábado, 23 de junho de 2012

ATP dos dias que passam.

Punição ou recompensa.

domingo, 10 de junho de 2012

Possível topografia dos lugares interiores #57

57. Frankenstein não era o monstro.


O monstro apercebeu-se
da anatomia da diferença.

Vagueou, perseguiu,
matou.
Só queria do criador
a explicação.

O criador morreu,
chamava-se Frankenstein
e foi ele
o monstro angustiado
que criou o monstro.





Hermenegildo Espinoza

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Sinapses

Ao Janela das Cinco Ideias. Gostam de lutar contra o marasmo.
Link


Hermenegildo Espinoza

domingo, 20 de maio de 2012

Revolução Cardíaca (3)

- Se o teu pai não aceita, e desconfia do que eu tenho para te dar, avisa-o de que eu estudo noite e dia para ser o melhor.
- É isso mesmo que o assusta.
- Assusta-o que eu lute para ser o melhor?
- Assusta-o que lutes noite e dia só por ti.



Hermenegildo Espinoza

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Possível topografia dos lugares interiores #56

56. um amor parkinsónico.


Amor, pedes-me a calma
que este tremor não deixa.
Em repouso,
os membros entusiasmam-se
como os gaiatos bem sabem
quando a paixão depressa é
o maior dos sintomas universais.

Amor, eu vivo rígido,
e procuro-te,
em todos os cantos,
como um bloco dorido,
à medida dos meus sonhos:
sou um atleta de roda dentada.

Amor, eu sei que um beijo
não deve ser tributado,
mas é esta a hora
em que a lentidão do meu corpo
pede a fugacidade dos teus lábios.




Hermenegildo Espinoza

quarta-feira, 9 de maio de 2012

terça-feira, 8 de maio de 2012

Dos nossos mestres

(clicar para ver melhor)

«Abel Salazar, Geraldino Bristes e Celestino da Costa, os três grandes histologistas, na sala do Museu de Anatomia da Faculdade de Medicina do Porto.»


Fotografia, das muitas possíveis de ser visualizadas, retirada do espólio documental de Abel Salazar, da autoria da Casa-Museu Abel Salazar em colaboração com a Fundação Mário Soares, disponível aqui.



Hermenegildo Espinoza

sábado, 21 de abril de 2012

Revolução Cardíaca (2)

- Tu terias ido embora e, de qualquer maneira, eu continuaria a amar-te.
- Deu-te agora para isso, foi?
- A verdade é que me parece que o coração não se compadece com o meu livre arbítrio.
- Nem o teu coração nem o meu. Quando te conheci não eras tão pretensiosamente erudito.
- O nosso amor era simples no seu desenho, decorá-lo no desenrolar dos dias é que nos trouxe uma complicada contradição.



Hermenegildo Espinoza

quarta-feira, 18 de abril de 2012

domingo, 15 de abril de 2012

Gira-discos #42




Jon Hopkins - Light Through The Veins


No dia em que eu morrer cortem-me as veias,
fechem à chave o coração empedrado,
quando o corpo estiver todo seco
e a festa com um fim anunciado
espalhem as veias pelo chão
e não se esqueçam de apagar-me a luz.



Hermenegildo Espinoza

terça-feira, 10 de abril de 2012

Possível topografia dos lugares interiores #55

55. a fábrica de Vesalius.


A fábrica que Vesalius escolheu
para o advento do mundo sem breu
era a mesma imperfeita máquina
que autopsiou até o chamarem de pária.

Para o público deixou a mais antiga preparação
da máquina onde procurou todas as engrenagens.
Acabaram por dar ao Esqueleto de Basileia
a fama, o proveito e o orgulho
que Jacob von Gebweiler não sonhava.

Pouco depois dos trinta, Vesalius,
tão expedito quanto inaudito,
deixou o livro que revelava a fábrica
em todos os seus defeitos e virtudes.
A Filipe II de Espanha, primeiro de Portugal,
dedicou a versão estudantil da obra
que tanto abriu as portas da fábrica
que as suas próprias mãos limparam.





Hermenegildo Espinoza

domingo, 8 de abril de 2012

Sinapses

De Rerum Natura, provavelmente o melhor blogue português de divulgação científica. Uma enorme falta agora emendada.




quarta-feira, 4 de abril de 2012

O nervo laríngeo recorrente




É curioso que um nervo tão inadequadamente comprido para o seu propósito seja, de facto, um estandarte da evolução, uma evolução que não tem propriamente um propósito de perfeição ou um fim em si mesmo. Se assim fosse, os mamíferos ficariam muito mal vistos por qualquer engenheiro, por pior que este fosse. Por isso, olhamos para o nervo laríngeo recorrente (ramo do nervo vago que inerva os músculos das cordas vocais) de uma de duas maneiras: ou uma imperfeição no esboço do Supremo Engenheiro ou a constatação de que o longo trajecto do nervo é o resultado da evolução do pescoço dos mamíferos, a partir de um ancestral comum, provavelmente dos peixes, que teria um trajecto mais directo. Richard Dawkins, como super-ateu e defensor da teoria evolucionista, dá uma perspectiva, neste vídeo, que não é difícil de descobrir qual é.




Hermenegildo Espinoza

domingo, 1 de abril de 2012

Revolução Cardíaca (1)

- Em tempos, à alternância entre a sístole e a diástole dava-se outro nome que não o ciclo cardíaco.
- Que nome era esse, então?
- Revolução Cardíaca.
- Revolução?
- Sim, há ainda quem use o termo, mas tem-se vindo a perder na boca dos novos médicos. Os meus mestres gostavam muito do lirismo do termo.
- Isso deixa-te triste?
- Não consigo dizer que não.
- Porquê?
- Porque todas as revoluções têm vindo a perder o brilho nos olhos dos inquietos.
- Esta revolução também?
- Talvez até mais do que as outras.
- Ai sim?
- Claro, a revolução do coração é a mais antiga de todas.
- De todas?
- De todas, e em muitos não se chega a cumprir.






Hermenegildo Espinoza

domingo, 25 de março de 2012

Possível topografia dos lugares interiores #54

54. um pé navicular.


Enquanto na popa todos esperavam,
a vida verdadeira balançava na proa.
O coração gritava: lancem a âncora!,
mas o pé só tropeçava entre a brisa
que se acomodava no arco plantar.

Que vai ser de nós?, lamentavam
os vários tarsos encolhidos
entre a física do pé-motor
e a anatomia do pé-descalço.

Não vos espera nada, respondia
o altivo resto do corpo,
nada mais vos resta, avisava,
do que aprender a bolinar
neste duro chão salgado.




Hermenegildo Espinoza

terça-feira, 20 de março de 2012

20 de Março de 2009

Felicitações Malditos!
3 anos de divagações...

quinta-feira, 15 de março de 2012

Epitáfios para um médico de algibeira XI

/Era conhecido por ser um médico acanhado. Competente, sim, mas acanhado. Temia contar más-notícias. Dizia que, apesar do inevitável, o melhor cuidado paliativo era não lembrar repetidamente ao corpo o desânimo do seu tiquetaque. Dizem que esse médico morreu de uma coisa maligna, muito dolorosa, muito desanimadora. Também há quem garanta que não quis saber do que padecia afinal. Até poderia desconfiar, mas preferiu acolher o inevitável com o tiquetaque de sempre. O tiquetaque persistente de um relógio suíço./



sábado, 10 de março de 2012

Possível topografia dos lugares interiores #53

53. cada sonho é uma hérnia da realidade.


Os sonhos podem ser directos
podem partir da ânsia tangível
ou mesmo ser indirectos e esguios.

Fogem da realidade como as hérnias do corpo,
como se todas as suas camadas fossem vísceras
que se entendiaram com o refúgio da pele.
Se nos complicam a vida, estrangulam rapidamente,
e morrem tão sem sangue como num corpo lívido.

Por isso - apontam os cirurgiões -,
aos homens que insistem em sonhar
não lhes basta uma realidade para ficar
mas toda a realidade da qual podem fugir.




Hermenegildo Espinoza

quinta-feira, 1 de março de 2012

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

bacoco (2) rococó (3)

Este rococó é também um exagero da realidade, uma realidade hiperbolicamente adornada, que não pode ser mais do que aquilo que é, e que, por isso, usa maquilhagem. É assim a ficção bacoco-rococó: embora abuse da maquilhagem, não utiliza qualquer tipo de barrete, e nisso ela é sincera. Não podemos, contudo, evitar felizes coincidências - estão por todo o lado - e quem lê a ficção e encontra nela uma verdade, talvez seja porque tem frio nas orelhas. Se esta ficção se presta a estas coincidências, nem é o seu mérito que devemos discutir, mas é a verdade que nela assoma aos olhos. Podemos julgar que a realidade está aí, como sempre tem estado, quer a consideremos contingente ou necessária. Porém, a verdade que nela há, por mais fraccionada que seja, principalmente quando surge sinergicamente a reboque da ficção, talvez seja a mais exacta. A verdade transforma-se, para melhor ou para pior; já a teimosia é mais difícil.
E não haverá espaço a patogénios num lugar tão dado à assepsia, não porque o lugar é limpo, mas devido à negação desses patogénios em entrar, por mais que o lugar conspurcado os convide. Afinal, ainda existem patogénios honrados, com respeito pelos enfermos.
Pensando bem, se vejo neste lugar a realidade de sempre, já a verdade que a habita está estiolada. Tenho as orelhas frias e a maquilhagem num desadequado arranjo: a barba farta, a bata vincada, a angina mais frequente. Esta mão que começa a tremer, a mão agora sem essência, é a mão que começa a fechar.




segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Na natureza nada se perde, tudo se transforma?

É certo que a evolução é parte da natureza das coisas. Hoje pequena, amanhã grande. Hoje verde, amanhã caduca. Mas a constância, excepto nas mulheres [1], também o é. Para se ser folha tem de se cumprir um mínimo de requisitos, como sejam ter clorofila, produzir oxigénio e por aí em diante. É esta a nossa essência enquanto folha.

O rococó, tal como a folha, tem a sua clorofila. Pauta-se pela simplicidade. Em matéria arquitectónica faz-se ouvir por janelas alongadas e arqueadas tectalmente. Porém, na sua essência, é dominado pela forma circular. Será rococónico o edifício cujas mais ou menos tantas janelas perdem o arqueado para dar lugar à forma rectangular? Ou aquele que tenha um ângulo recto, ainda que único, nas paredes do seu bloco central, quando manda a regra que sejam circulares?

É isto que o distingue e o caracteriza. Naturalmente, é óbvio que, quando o que interessa é iluminar mais, qualquer um pode moldar a janela à luz do seu interesse. Tirar-lhe o arqueado, por exemplo. Agora, desbaptizem-na! Não a chamem, jamais, de janela rococó.

O clube, tal como o rococó e a folha, têm a sua essência. Não vende produto e, muito menos, se vende por mais valias que o façam vender mais. Não se mede pela qualidade de publicações, pela assiduidade nas mesmas ou pela sua quantidade. O clube é, na sua essência (repito), ter um Jorge Cluni que fez no máximo duas publicações em toda a história da sua existência, é ter um Bachiatari com a sua linguagem bélica e sabedoria oriental, é ter um Ubirajara desencontrado, é ter um Adegesto , Pataca de nome, que vale mais do que dinheiro, e ter um Hermenegildo assíduo, na constante presença dos seus gatos, que nem com mão magoada abdica da partilha de uma sua qualidade: a escrita. Somos nós, os malditos.

O clube é os malditos! No que respeita ao seu carácter, tudo o que não é maldito é medicomalditococo, é patogénico. Se passa a ter janelas sem arqueamento, deixa de ser o que era. Perde aquilo que o caracterizava.

Pode ser equívoco meu, mas parece-me tudo menos ser bacoco, prezar pela qualidade última desta casa. No final de contas, este é o nosso rococó e a janela quer-se como dita a regra.


R: Na natureza, algumas coisas se perdem quando se transforma.

[1] “Inconstância, o teu nome é mulher.” Hamlet

bacoco (2) rococó (2)

Eu normalmente não me queixo. Sou calado e subtil, mas não submisso. Se os propósitos que me movem, ou melhor, os propósitos que habitam o meu espaço da realidade, são tão facilmente dilacerados, repudiados, desrespeitados por um qualquer apelo de coesão de grupo que não existe, por uma falsa ameaça de diluição de força, quando para tal há responsabilidades não levadas a peito por quem de direito, não posso ser eu o incorrecto ou o desadequado. Mandar um amigo à merda pode ser tão indispensável como elogiar-lhe uma acção benemérita, para o bem utilitarista do grupo. Só é bacoco quem quer, e se o dou a entender, é porque posso - quase sub-repticiamente, admito-o - tomar essa posição como hábito de defesa, e, se necessário, também de ataque. Uma coisa que a sinonímia nos ensina, é que não podemos passar a a vida a aturar bardamerdas, bandalhos, badamecos ou pulhas. E assim sucessivamente.




domingo, 12 de fevereiro de 2012

sábado, 11 de fevereiro de 2012

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Possível topografia dos lugares interiores #52

52. o que parece defeito.


A simetria tem dons de injustiça
agora que este corpo desconhece o vigor
e só as rugas resguardam o seu orgulho
de um tempo envergonhado e incompreendido.

O que parece ao longe um defeito anatómico
é a passagem esguia das horas e da glória
e só um dia não basta para colmatar
a falta que a juventude faz nas engrenagens.

Mas não rezam os ossos qualquer lamento
tão placidamente se diminuem em envergadura
e por isso só pode haver alguma qualidade nos defeitos
que em nada diminuem o pouco que o corpo sabe de si.






Hermenegildo Espinoza

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Tragicomédia




Não haja medo em admiti-lo: a tragicomédia não poupa nem o sagrado.




Hermenegildo Espinoza

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

O plasma

A ser verdade, há muito azar em Portugal que, admitamo-lo, é merecido. Curioso que, não raras vezes, é um azar endógeno. Este mesmo Portugal, este Portugal dos detalhes teimosamente esquecidos, é o pior saco de pancada dos portugueses.




Hermenegildo Espinoza

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Gira-discos #41



Fernando Lopes-Graça - Acordai

Acordai
acordai

homens que dormis

a embalar a dor

dos silêncios vis

vinde no clamor

das almas viris

arrancar a flor

que dorme na raíz



Acordai

acordai

raios e tufões

que dormis no ar

e nas multidões

vinde incendiar

de astros e canções

as pedras do mar

o mundo e os corações



Acordai

acendei

de almas e de sóis

este mar sem cais

nem luz de faróis

e acordai depois

das lutas finais

os nossos heróis

que dormem nos covais

Acordai!



letra de José Gomes Ferreira





Hermenegildo Espinoza

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Frenesim

Nestas alturas em que o cansaço impera e as dioptrias disparam, dou comigo a pensar no «frenesim» que a vida por vezes assume. Só não sabia, nem nunca pensei, que este «frenesim» pode considerar-se um delírio, uma hiperbólica inflamação cerebral.





Hermenegildo Espinoza

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Epitáfios para um médico de algibeira X

/Era um médico com uma catedral no coração. Questionava, examinava, auscultava, prescrevia e, não raras vezes, rezava. Também ele tinha a sua própria legião de beatas. Não se cansavam de olhar para os seus olhos. Garantiam que se o cabelo era talha dourada, então aqueles olhos só poderiam ser vitrais./




Hermenegildo Espinoza

domingo, 29 de janeiro de 2012

Os médicos e os milagres

Ladislau Patrício, Os médicos e o Público




Hermenegildo Espinoza

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Uma casa que podemos dizer que é nossa




A nova casa do ICBAS / FFUP.



Hermenegildo Espinoza

domingo, 22 de janeiro de 2012

Sinapses

Ouriquense, Lei Seca do Pedro Mexia e o Sound + Vision.




Hermenegildo Espinoza

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Gira-discos #40




Zooey, marry me.





Hermenegildo Espinoza

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

bacoco (1) rococó (2)

No meio do pátio do hospital, cercada por uns arbustos outonais e vigiada por um pequeno ajuntamento de gatos pretos, está uma capela em repouso. Nunca lá entres se não pretenderes depurar o espírito. Os gatos, outrora nómadas delinquentes, apropriaram-se da segurança do lugar e vislumbram de antemão todas as vontades, boas ou más. Não os provoques. Estão habituados a reconhecer a ralé e ninguém sabe se aquelas unhas conheceram uma lima. Se a morte de uma pessoa te trouxer ao pátio, não te precipites. Os gatos reconhecerão a tua angústia. Evita, contudo, a necessidade de os enfrentar. Os que o fizeram, mais que o desamparo do erro que ali os impeliu, lamentam ainda o rigor ético dos felinos. E o espírito nunca foi tão limpo.



sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Gira-discos #39



The Smiths - Please, please, please, let me get what I want


O que eu quero, por favor, só desta vez, é que este dia se desmembre na memória. Se possível, que seja a cauda gasosa do cometa que, incauto, percorre o comprimento do calendário, sem saber que vagueia sempre na mesma órbita.




Hermenegildo Espinoza

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Possível topografia dos lugares interiores #51

51. pássaro em chamas, cadáver em cinzas.


Um cadáver em cinzas não é um corpo,
talvez tenha sido, com mais ou menos precisão,
algo parecido com o que vem nos livros,
mas destas cinzas não nascem homens.

Com mais pena voa o pássaro em chamas,
pequena ave que sabe como foi em vida o cadáver:
guarda em si o tratado anatómico do último homem.

Pobre pássaro que lamentas no fogo
não o homem que foi antes de ser cinza
mas o amparo que tendo existido já não há
e tanta pena temos de ti, pássaro em chamas,
que cais agora junto ao homem que se foi
e tornas-te num cadáver em cinzas também.




Hermenegildo Espinoza

sábado, 7 de janeiro de 2012

bacoco (1) rococó (1)

É a mulher mais charmosa daquela enfermaria. Até lhe perdoo as unhas de gel, essa praga artificial de queratinas de faz-de-conta. Diz um internista meu amigo que assim arranham mais. E ele gosta, apesar de nunca se ter queixado de qualquer escoriação por parte do paradigma caseiro. Se arranham ou não - possíveis armas de crime? -, a verdade é que aquela enfermeira, pouco mais de trinta anos, esconde nas formas por baixo da bata os alicerces mais elogiados de qualquer estilo arquitectónico. Não que os dias sejam passados na plácida contemplação da obra feita, mas antes na eterna congeminação de aproveitar a obra. Como se um dia nos fartássemos de observar a Janela Manuelina e decidíssemos, como jovens afoitos, subir a parede só para podermos espreitar por lá.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

bacoco (0) rococó (1)

A posição na cadeira permitia descrever o surgimento da escuridão. Não há celebração que não acabe em fartura, nem solidão que não se assemelhe a uma fortuna envenenada. O excesso da pessoa que queres ser é o defeito da pessoa que és. Mas não desanimes. Amanhã voltas para o sufoco e mais gente acabará por morrer sem que os teus olhos se apercebam. E um dia, não o neguemos, saberás auscultar mais que um pulmão, mais que um coração. Até lá, por muito que saibas como bate o coração do homem isquémico, ou como crepita o pulmão direito com a tosse do homem febril, não te iludas, e não tenhas medo de pedir a alguém que apague a luz, agora que só a escuridão te sossega.


domingo, 1 de janeiro de 2012

sábado, 31 de dezembro de 2011

The Walkmen trazem-nos a véspera de ano novo





Hermenegildo Espinoza

2012, na mouche

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;

Todo o mundo é composto de mudança,

Tomando sempre novas qualidades.


Continuamente vemos novidades,

Diferentes em tudo da esperança;

Do mal ficam as mágoas na lembrança,

E do bem, se algum houve, as saudades.


O tempo cobre o chão de verde manto,

Que já coberto foi de neve fria,

E em mim converte em choro o doce canto.


E, afora este mudar-se cada dia,

Outra mudança faz de mor espanto:

Que não se muda já como soía.


Luís de Camões, sua Poesia Lírica




Hermenegildo Espinoza

domingo, 25 de dezembro de 2011

Possível topografia dos lugares interiores #50

50. a lanugem dos homens com frio.


Quantos homens são precisos
para encolher o frio
e para apagar o desenho
que a humidade traz na parede?

Quantos instrumentos,
quantos orgãos, ossos, músculos,
quantos tendões quantos
são precisos para tocar, para partir,
para esquecer o tiritar
quanto são precisos
para abafar e enterrar
a melodia cruel do inverno?

Não mais que a soma da lanugem
de todas as novas crianças do mundo
e não menos que o comedido afago
de dois homens sozinhos e com frio.





Hermenegildo Espinoza

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Gira-discos #38



B Fachada - A Casa do Manel

Esquecer a escola e o dever, fazer as coisas por prazer, fantasiar grandes perigos, fazer planos, muito amigos para viver, daqui a muitos anos os dois num país qualquer.



Hermenegildo Espinoza

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

não me travem quando eu quero acelerar #1

Trago a roupa de estrada, vou percorrer a calçada,
- fachada?,
fugir antes de voltar para trás, eu lembro-me de que antes os meus dedos mexiam quando eu pedia, o meu corpo saltava quando eu pedia, as pernas corriam na savana do tempo porque o tempo era o meu, e não percebo, não percebo mesmo, mas desde há meses,
- anos ou talvez sempre?,
que choro sem que o ânimo peça, treze semáforos a verde num percurso de meia-hora, nenhum trânsito na calçada, e eu não preciso de me desviar, não preciso de parar, conheço apenas a modalidade de acelerar,
- não me travem quando eu quero acelerar,
é o que eu lhes grito sempre, mas não sei o que dizem as pessoas, não digo nada nem nos sombrios confessionários da infância, não conto rigorosamente nada, não faço amigos, porque se os perco também me vou perdendo a mim, quando o sol se põe no céu e eu me lembro que num percurso de meia-hora treze semáforos,
- é preciso ter sorte, sim, treze é formidável,
treze semáforos, senhores, em que o verde brindou-me brilhante a passagem, não precisei de cantar de regozijo, o alcatrão do chão gelado,
- é inverno, rapaz, estamos no inverno,
caminho ao abrigo dos leões e vejo mosaicos num azul fechado,
- as cores fecham-se, não sabias?,
oiço estilhaçar vidros no chão, e os meus pés colam-se às pedras, uma rapariga decotada de lábios exagerados,
- queres?,
e eu não quero nada, o frio não me incomoda e não tarda regressarei a casa conformado,
- sei fazer umas coisas que te podem animar,
não me parece que a rapariga saiba de algum método eficaz para mitigar um desamparo aprendido, nem que me ensine a falar a língua dos outros,
- decide-te que tenho outros à espera,
pela rispidez duvido que ela saiba o que é o conforto de treze semáforos a verde, e pelo vestido vermelho eu julgo que não é para avançar, alguém tomará o meu lugar, alguém que sofra do mesmo anseio, alguém que diga,
- quero, sim,
e me relembre,
- não querias acelerar?,
eu queria tanto, até porque o sol não tarda aí a acordar a multidão que se ergue da cama para a destilaria do ódio,
- vão morrer todos, vão, e julgam que é melhor não pensar nisso, é estranho,
e eu vou tentando ser decente, a culpa não é deles, nem todos podem encontrar quinze semáforos a verde,
- que quinze?,
peço desculpa, treze, treze semáforos a verde, eu não tenho culpa que desde há meses eu chore sem que o ânimo peça, nem que a roupa de estrada me leve de retorno a casa,
- todos os dias é o que tem acontecido,
embora eu repita, enquanto a janela do quarto se fecha e já não oiço o vidro estilhaçar, que não me poderão travar todas as vezes que eu quiser acelerar.






sábado, 10 de dezembro de 2011

Possível topografia dos lugares interiores #49

49. o homem que queria morrer sossegado.


O homem que queria morrer sossegado
pediu-me, inquieto,
que o deixasse morrer sossegado,
enquanto houvesse tempo bastante
para que a morte matreira
não se lembrasse por fim
de o vir buscar à pressa.

O cientista em mim inquietou-se
nas palavras inquietas e tão tristes
do homem que queria morrer sossegado,
mas o médico em mim só descobriu o sossego
quando firme apoiou a mão na mão fraca
do homem que queria morrer sossegado
e garantiu-lhe que não o deixaria morrer inquieto.

O homem que queria morrer sossegado
acabou por não conhecer a inquietação na morte,
enquanto o cientista em mim conheceu amargurado
todos os precipícios da morte que olhava pelos olhos
do médico que em mim fechava em sossego
os olhos do homem que morreu sossegado.




Hermenegildo Espinoza

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Epitáfios para um médico de algibeira IX

/O médico que conheceu o sossego é o resultado do conjunto de doentes que não morreram inquietos./



Hermenegildo Espinoza

sábado, 3 de dezembro de 2011

Gira-discos #37



Ray Charles - I Don't Need No Doctor





Hermenegildo Espinoza

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Possível topografia dos lugares interiores #48

48. uma transfusão de elementos figurados do medo.


Tem um carácter particular
o medo que trespassa a pele
a mesma que teimosa
deveria ser impermeável.

Na confusão da história
a falência do medo é perniciosa
e é tão grave como a coragem louca
que raramente vem uma segunda vez.

Atenta sempre
às condições do corpo
que no seu elementar desejo
deve ter o receio de subir a montanha.




Hermenegildo Espinoza

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Isto de estar vivo ainda um dia acaba mal

Todos os semáforos entre o alfarrabista de eleição e a minha casa dos gatos literários estavam vermelhos. Todos. Estive parado em em todos os semáforos. Foram cerca de sete. Fina ironia a desta vida, a mandar-me interromper a marcha insistentemente. E eu insisti também, dando logo trabalho às pernas assim que o macadame livre mo permitia. Não faço futurologia com semáforos, mas põe-te fino, Espinoza. Como dizia o Luiz Pacheco, porque assim já o tinha dito o Manuel da Fonseca, isto de estar vivo ainda um dia acaba mal.



Hermenegildo Espinoza

domingo, 20 de novembro de 2011

O narcótico dado às cegas

quando não se é ouvido vai-se bater a outra porta.

foi o que fez o rezingão. rezingão que se preze, não só faz oscilar membranas timpânicas, como também provoca oscilações da glote, em movimentos coordenados de cordas-palavras.

o rezingão não tinha esse efeito com o, até então, seu ortopedista. que se pode fazer perante um ortopedista enviesado? é surdez e não-cegueira.

se essa surdez é ou total, ou selectiva, é outra questão. mas estou em crer que se a deficiência auditiva fosse absoluta, o ortopedista jamais teria sido ortopedista, porque não conseguiria acudir aos "ais" que todos os dias o chamam.

a não-cegueira é osso do ofício. ortopedista só acredita na dor que se vê: tibias fracturadas que espreitam a luz do dia; pisiformes com microfracturas no papel Curie, luxações dos pés às 12h30min.

portanto,ortopedista só ouve aquilo que vê. é céptico.
o analgesista, não. ouve o que não salta à vista. não deixa de ser céptico, mas é metódico.

resta-me ter fé no seguinte: que a mão do rezingão faça ressoar a campainha certa.

galli pitt

sábado, 19 de novembro de 2011

A dor asiática

É a chamada dor osteo-étnica ou osteo-racial: há dias, um doente rezingão, daqueles muito sensíveis a uma correcção, queixou-se que já andava farto de referir ao seu ortopedista que não podia mais com a sua dor asiática. Hipócrates bem sabe o que me custou a placidez dos músculos faciais do riso.


Hermenegildo Espinoza

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Pouco me importo, se, arrastado pelos mercados, der falência o BIMM.
Mas esta crise vai além da algibeira.

A crise chega a tudos.

um maldito

terça-feira, 15 de novembro de 2011

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Possível topografia dos lugares interiores #47

47. a arte de refilar nas salas de espera.


Uma cadeira não esquece as horas,
os minutos prolongam-se nos ossos doridos
enquanto alguém espera uns segundos eternos.

Não há má notícia que aguarde a sua vez
nem maus diagnósticos que se acumulem
nos corredores de olhares cabisbaixos.

Quem refila na sala de espera
tem medo que o medo da dor
chegue e não avise ninguém.




Hermenegildo Espinoza

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Possível topografia dos lugares interiores #46

46. não chegaremos ao tempo dos pés inchados.


Os que padecem
de felicidade insuficiente
vivem no estigma da ausência
na falta que lhes faz um relógio
que acelere o tempo em que a felicidade
corre desenfreadamente nas artérias.

Os que se queixam
de felicidade restrita
vivem acordados numa insónia
num sonho estagnado no passado
que não lhes traz a almejada boa-aventurança
numa fé carcomida pela rouquidão dos discursos.

Os que vão morrer
numa parca felicidade
não terão tempo de ver
os dois pés inchados
porque o coração incapaz
não aguenta a nossa triste figura.



Hermenegildo Espinoza

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Gattuso e a paralisia do nervo abducente.


O sexto par craniano, no olho esquerdo, anda a apoquentá-lo. O olho que se recusa a mexer. O olho esquerdo parado. A história do jogador que via a dobrar. Aguenta-te, Gattuso.


Hermenegildo Espinoza

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Possível topografia dos lugares interiores #45

45. o senhor Broadman desenhou um mapa.


Um bicho faz-de-conta tornou-se real
e o verdadeiro cérebro
tornou-se o cérebro faz-de-conta.

Desconhece-se o paradeiro
do bicho faz-de-conta
mas há estudos que apontam
claramente
que o verdadeiro cérebro
está debaixo das arcadas do mundo
a brincar à cabra-cega com o consciente.

O senhor Broadman desenhou um mapa
cheio de números, casas e sentidos,
toda a morada do verdadeiro cérebro,
e tentou convencê-lo a regressar
com palavras científicas, as mais sábias.
Pobre senhor Broadman, não sabia mentir,
e por isso o verdadeiro cérebro exilou-se
vive por aí entretido a tentar perceber
o que aconteceu ao bicho faz-de-conta
que endoideceu a querer ser real.





Hermenegildo Espinoza

domingo, 25 de setembro de 2011

Possível topografia dos lugares interiores #44

44. as úlceras do corpo que chora.


Úlceras do corpo que chora,
pode o corpo chamar para si a tristeza
que mais nenhum corpo quer?

Quando a firmeza é vazia,
sabe a pele a ácido
das úlceras do corpo que chora.

O corpo todo ele frouxo
vive embargado
preso nos arames
de uma amizade ulcerada.



Hermenegildo Espinoza
backstage

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Epitáfios para um médico de algibeira VIII

/Os médicos de algibeira acabam também por morrer. Morrem despercebidos, os pobres coitados, esquecidos no bolso fundo de uma ideia inquieta./



Hermenegildo Espinoza

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

?

"La meta es el olvido.
Yo he llegado antes"

Jorge Luís Borges

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Possível topografia dos lugares interiores #43

43. o juramento hipocrático da tristeza.


Já só te falta o tédio,
o jornal e o café,
as mesmas queixas e pessoas
e a solidão pé ante pé.

As tuas horas vencidas
convertem-se em outras adquiridas,
muitas são as pessoas que anda viverão
enquanto amargas a tua depressão.

Que tu guardas a tua tristeza
na doença e na pureza,
sem que um diagnóstico te separe.




Hermenegildo Espinoza

domingo, 10 de julho de 2011

Possível topografia dos lugares interiores #42

42. o sal concentrado na pele.


Entre o ar dos dedos e o sal do mar
a nossa pele entre os corais.

Estranha esta aparência de búzio:
só queremos enrodilhar-nos no verão.

Resta o companheirismo bivalve:
entre nós e a topografia da casa.



Hermenegildo Espinoza

sábado, 25 de junho de 2011

Possível topografia dos lugares interiores #41

41. todos sabemos chorar sem o pedir.


Alguém viu no espelho um vulto
de um menino metido consigo,
e logo esse alguém pediu:
- abre as asas, rapaz -
mas do solo o menino não descolou
no solo nenhuma pena caiu,
e teve o rapaz o acesso de bondade
de nos contemplar do alto da sua meninice
naquela posicão anatómica descritiva
de quem pode chorar sem o pedir.

Não tinha sombra, não tinha rosto,
um vulto não tem anatomia, tem suposições,
e alguém disse num tom cuidadoso:
- daqui não avançamos mais -
e viu-se invertido ao espelho
teve medo das suas feições de criatura
e também não teve necessidade de pedir.

Num atlas de anatomia actualizado
apareceu por cima um espelho de bolso
todo ele numa nitidez húmida
e uma pena fustigada pelo vento:
tão belo era esse prefácio da descrição
de quem pode chorar sem o pedir.




Hermenegildo Espinoza

quinta-feira, 23 de junho de 2011

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Possível topografia dos lugares interiores #40

40. se um dia o meu corpo não pedisse licença.

Raiados os dedos de benjamim
eu pediria uma inflamação de ossos
que de encontro à tua delicada bacia
criasse todos os dias do mundo.

Pretenderia ouvir todo o estalar dos meus ossos
todo o estirar dos meus tendões furiosos,
e pediria tanto que a orquestra dos ossos chatos
desse de si uma ovação às minhas contorções.

Eu poderei exercitar todos os instrumentos
que na arrecadação do meu corpo se amontoam
a tirar o tapete ao seu maestro, que vai pensando:
se um dia o meu corpo não pedisse licença.



Hermenegildo Espinoza

terça-feira, 7 de junho de 2011

^

um acento circunflexo é tudo menos circunflexo.

a menos que circunflexo seja sinónimo de "timbre fechado",
ou que um dedo cubista lhe tenha tirado as curvas.

não acredito que o picasso tenha perdido o seu tempo a moldar-lhe as formas,
e acredito ainda menos que "cúpula circunflexa" seja uma cupúla timbre fechada.

pitt

domingo, 5 de junho de 2011

Possível topografia dos lugares interiores #39

39. sistema desconfiança – humor – fragilidade.


Justamente em nós
cabe toda a desconfiança
que o corpo tem de si.

Justamente de nós
foge por vezes o humor
que o corpo não omite.

Justamente através de nós
a desconfiança e o humor
vão pintando fragilidades.





Hermenegildo Espinoza

terça-feira, 31 de maio de 2011

Plastik

Plastik

É assim que a palavra está escrita: Com "k" e a cor vermelha.
Se uns pensarão que bonito, que estético, que agradável, que diferente. ai, é tão lindo!, a outra corja de inocentes vai pensar estritamente o oposto que caralhada, que conice, que brejeiro. tem mesmo ar de acidente de viação. A mim, faz-me lembrar "mamas", "Corporacion Dermoestética" e "Lili Caneças" (com o cuidado de dissociar os conceitos uns dos outros (embora, em certo ponto se toquem (porra, juntar "tocar", "mamas" e "Lili Caneças" já é abusar (oh, merda, "abusar". Agora bem ia um comprimido para o enjoo (foda-se, pára seu animal, já trouxeste o conceito de "gravidez" para a conversa))))) (só para evitar mais confusões). Onde é que eu ia? Ah, sim.
Plastik!

São só colheres de plástico.

(espera lá... "colheres" - "comer" - "mamas"/"tocar"- "Lili Caneças". Foda-se, onde é que eu tinha a cabeça?; hum... "cabeça", hein? (...) [OH GOD!])

quinta-feira, 26 de maio de 2011

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Possível topografia dos lugares interiores #38

38. uma riacho na córnea, um oceano nas comissuras.

Temos o sal, temos o tempo,
temos a luz, temos as pálpebras,
temos toda a astúcia de um jumento
e quase sempre a ironia de um marialva.

Muitos sorrisos para esconder as águas,
a nossa força sempre passou por camuflar
cada pequena fissura nas nossas mágoas,
cada pequeno medo de a jusante hesitar.

Dai ao tempo o tempo para os riachos
tropeçarem nos acidentes da nossas caras
e saibamos nós esconder as comissuras de machos
daqueles oceanos adornados pelas intempéries de tiaras.





Hermenegildo Espinoza

domingo, 15 de maio de 2011

Possível topografia dos lugares interiores #37

37. certidão de óbito do coração em parte incerta.


Um dia abrir-me-ão o peito,
bem a meio do esterno,
e na falta de um coração
serei declarado morto.

Um dia, na falta de um movimento,
por todos considerado perpétuo,
uma certidão tremida e baça:
como tantos, de tanto bater, parou.

Um dia fechar-me-ão o peito,
depois de me declararem morto
e eu quieto, com os olhos para dentro:
foi alguém, doutor, alguém que mo levou.




Hermenegildo Espinoza

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Possível topografia dos lugares interiores #36

36. à espera que não chova nos meatos.


Quem me estraga a felicidade de ser
algo mais que um ponto num plano
são quase sempre os ruídos de fundo
dos meus meatos insubordinados.

Bandidos, eu gosto de chamá-los,
ou compor o sermão infernal
só para que saibam como temo
que chova um dia nos meus meatos
e eu perca a exacta orientação
dos redondos afunilamentos.

Não sinto o perigo de perder
uma réstea de som na minha algibeira
e se confio na inocência da chuva
é porque acredito na rudez do meatos.




Hermenegildo Espinoza

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Possível topografia dos lugares interiores #35

35. as constrições nunca efémeras dos leões.


Jazem na nua vivacidade de pedra
os felinos bichos da fonte.
Estão ali alheios na constrição
nunca efémera dos seus anseios.

Se o rugido não se ouve,
está pois encoberto no grito de outros,
aqueles que de fresco aqui chegam:
Ave leo praxeturi te salut.

E vão chegando, vão pingando
os novos que hão-de ser os velhos
a regressar um dia, em frente à fonte,
saudando de orgulho o peito dos leões.




Hermenegildo Espinoza

terça-feira, 19 de abril de 2011

Gira-discos #36



Mountains - Telescope

Um telescópio que permita ver as constelações dentro de mim, dentro de nós. O corpo como uma coordenada num céu estrelado. E quando julgamos conseguir ver, quando julgamos saber, é aí que começamos a chover.




Hermenegildo Espinoza

domingo, 10 de abril de 2011

Possível topografia dos lugares interiores #34

34. os dicionários da melancolia visceral.


O significado desta vida de eremita
nem eu sei nem os tratados nas estantes,
mas eu sei que sou boa pessoa.
Ando por aí nas enfermarias a discursar
brutais discursos de melancolia:
há quem veja em mim a arte de refilar.

Eis-me a vaguear neste corredor de conceitos
onde há uma felicidade que não é significado.
Mesmo da mais ínfima acção heróica
- que é este meu estruturado ruir de escadas -
eu sei-me esconder muito bem,
só não me salva o estetoscópio, nem a mim
nem a todos estes filhos-da-mãe.

Aqui não há maneira de entender
qual das vidas andamos a perder,
pois se me coloco na sala de espera
na espera que o meu nome
seja por todos chamado,
o mais certo é regressar à enfermaria
com esta cara de melancólico resignado.




Hermenegildo Espinoza

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Gira-discos #35



The pains of being pure at heart - The Body


Tragam-me sol servido a fresco, o meu corpo precisa.
Esmiúcem-me o tédio, o meu corpo precisa.
Desenhem-me esplanadas nos olhos,
um guarda-sol, uma aragem,
tragam-me café com gelo, um copo de vinho,
pernas esbeltas e o meu reflexo de acomodação,
tragam-me cheiro a relva, tragam-me os passeios,
o meu corpo precisa, um gelado com caramelo,
tragam-me doces, o meu corpo precisa,
o meu corpo precisa da palavra que é corpo.




Hermenegildo Espinoza