quarta-feira, 1 de agosto de 2012
diário de bordo
terça-feira, 31 de julho de 2012
diário de bordo
segunda-feira, 30 de julho de 2012
diário de bordo
terça-feira, 24 de julho de 2012
sábado, 21 de julho de 2012
Costelas flutuantes são caravelas do mar que nunca irão atracar - apontamentos sobre a melancolia do marulhar #4
Hermenegildo Espinoza
segunda-feira, 16 de julho de 2012
Costelas flutuantes são caravelas do mar que nunca irão atracar - apontamentos sobre a melancolia do marulhar #3
Hermenegildo Espinoza
sábado, 14 de julho de 2012
Costelas flutuantes são caravelas do mar que nunca irão atracar - apontamentos sobre a melancolia do marulhar #2
Hermenegildo Espinoza
Pessoas
Hermenegildo Espinoza
quinta-feira, 12 de julho de 2012
Costelas flutuantes são caravelas do mar que nunca irão atracar - apontamentos sobre a melancolia do marulhar #1
Hermenegildo Espinoza
segunda-feira, 9 de julho de 2012
Shakira, o reforço positivo
quinta-feira, 5 de julho de 2012
Gira-discos #43
I say you are the most exotic flower.
Hermenegildo Espinoza
quarta-feira, 4 de julho de 2012
Não reconhecer rostos
Vídeos retirados de uma reportagem do programa 60 Minutes, da CBS.
Hermenegildo Espinoza
terça-feira, 3 de julho de 2012
Contra o marasmo #1
Hermenegildo Espinoza
segunda-feira, 2 de julho de 2012
Revolução Cardíaca (4)
- Claro. Necessito da percussão para me manter vivo. Para restabelecer o meu ritmo sinusal. Só consigo viver a vida em taquicardia.
Hermenegildo Espinoza
sábado, 30 de junho de 2012
domingo, 24 de junho de 2012
São João
Vivas ao Porto, onde a tradição impera!
Hermenegildo Espinoza
sábado, 23 de junho de 2012
domingo, 10 de junho de 2012
Possível topografia dos lugares interiores #57
O monstro apercebeu-se
da anatomia da diferença.
Vagueou, perseguiu,
matou.
Só queria do criador
a explicação.
O criador morreu,
chamava-se Frankenstein
e foi ele
o monstro angustiado
que criou o monstro.
Hermenegildo Espinoza
quarta-feira, 6 de junho de 2012
domingo, 20 de maio de 2012
Revolução Cardíaca (3)
- É isso mesmo que o assusta.
- Assusta-o que eu lute para ser o melhor?
- Assusta-o que lutes noite e dia só por ti.
Hermenegildo Espinoza
quinta-feira, 10 de maio de 2012
Possível topografia dos lugares interiores #56
Amor, pedes-me a calma
que este tremor não deixa.
Em repouso,
os membros entusiasmam-se
como os gaiatos bem sabem
quando a paixão depressa é
o maior dos sintomas universais.
Amor, eu vivo rígido,
e procuro-te,
em todos os cantos,
como um bloco dorido,
à medida dos meus sonhos:
sou um atleta de roda dentada.
Amor, eu sei que um beijo
não deve ser tributado,
mas é esta a hora
em que a lentidão do meu corpo
pede a fugacidade dos teus lábios.
Hermenegildo Espinoza
quarta-feira, 9 de maio de 2012
terça-feira, 8 de maio de 2012
Dos nossos mestres
Fotografia, das muitas possíveis de ser visualizadas, retirada do espólio documental de Abel Salazar, da autoria da Casa-Museu Abel Salazar em colaboração com a Fundação Mário Soares, disponível aqui.
Hermenegildo Espinoza
sábado, 21 de abril de 2012
Revolução Cardíaca (2)
- Deu-te agora para isso, foi?
- A verdade é que me parece que o coração não se compadece com o meu livre arbítrio.
- Nem o teu coração nem o meu. Quando te conheci não eras tão pretensiosamente erudito.
- O nosso amor era simples no seu desenho, decorá-lo no desenrolar dos dias é que nos trouxe uma complicada contradição.
Hermenegildo Espinoza
quarta-feira, 18 de abril de 2012
domingo, 15 de abril de 2012
Gira-discos #42
No dia em que eu morrer cortem-me as veias,
fechem à chave o coração empedrado,
quando o corpo estiver todo seco
e a festa com um fim anunciado
espalhem as veias pelo chão
e não se esqueçam de apagar-me a luz.
Hermenegildo Espinoza
terça-feira, 10 de abril de 2012
Possível topografia dos lugares interiores #55
A fábrica que Vesalius escolheu
para o advento do mundo sem breu
era a mesma imperfeita máquina
que autopsiou até o chamarem de pária.
Para o público deixou a mais antiga preparação
da máquina onde procurou todas as engrenagens.
Acabaram por dar ao Esqueleto de Basileia
a fama, o proveito e o orgulho
que Jacob von Gebweiler não sonhava.
Pouco depois dos trinta, Vesalius,
tão expedito quanto inaudito,
deixou o livro que revelava a fábrica
em todos os seus defeitos e virtudes.
A Filipe II de Espanha, primeiro de Portugal,
dedicou a versão estudantil da obra
que tanto abriu as portas da fábrica
que as suas próprias mãos limparam.
Hermenegildo Espinoza
domingo, 8 de abril de 2012
Sinapses
sábado, 7 de abril de 2012
quarta-feira, 4 de abril de 2012
O nervo laríngeo recorrente
Hermenegildo Espinoza
domingo, 1 de abril de 2012
Revolução Cardíaca (1)
- Que nome era esse, então?
- Revolução Cardíaca.
- Revolução?
- Sim, há ainda quem use o termo, mas tem-se vindo a perder na boca dos novos médicos. Os meus mestres gostavam muito do lirismo do termo.
- Isso deixa-te triste?
- Não consigo dizer que não.
- Porquê?
- Talvez até mais do que as outras.
- Ai sim?
- Claro, a revolução do coração é a mais antiga de todas.
- De todas?
- De todas, e em muitos não se chega a cumprir.
Hermenegildo Espinoza
domingo, 25 de março de 2012
Possível topografia dos lugares interiores #54
Enquanto na popa todos esperavam,
a vida verdadeira balançava na proa.
O coração gritava: lancem a âncora!,
mas o pé só tropeçava entre a brisa
que se acomodava no arco plantar.
Que vai ser de nós?, lamentavam
os vários tarsos encolhidos
entre a física do pé-motor
e a anatomia do pé-descalço.
Não vos espera nada, respondia
o altivo resto do corpo,
nada mais vos resta, avisava,
do que aprender a bolinar
neste duro chão salgado.
Hermenegildo Espinoza
terça-feira, 20 de março de 2012
quinta-feira, 15 de março de 2012
Epitáfios para um médico de algibeira XI
sábado, 10 de março de 2012
Possível topografia dos lugares interiores #53
Os sonhos podem ser directos
podem partir da ânsia tangível
ou mesmo ser indirectos e esguios.
Fogem da realidade como as hérnias do corpo,
como se todas as suas camadas fossem vísceras
que se entendiaram com o refúgio da pele.
Se nos complicam a vida, estrangulam rapidamente,
e morrem tão sem sangue como num corpo lívido.
Por isso - apontam os cirurgiões -,
aos homens que insistem em sonhar
não lhes basta uma realidade para ficar
mas toda a realidade da qual podem fugir.
Hermenegildo Espinoza
quinta-feira, 1 de março de 2012
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
bacoco (2) rococó (3)
E não haverá espaço a patogénios num lugar tão dado à assepsia, não porque o lugar é limpo, mas devido à negação desses patogénios em entrar, por mais que o lugar conspurcado os convide. Afinal, ainda existem patogénios honrados, com respeito pelos enfermos.
Pensando bem, se vejo neste lugar a realidade de sempre, já a verdade que a habita está estiolada. Tenho as orelhas frias e a maquilhagem num desadequado arranjo: a barba farta, a bata vincada, a angina mais frequente. Esta mão que começa a tremer, a mão agora sem essência, é a mão que começa a fechar.
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
Na natureza nada se perde, tudo se transforma?
É certo que a evolução é parte da natureza das coisas. Hoje pequena, amanhã grande. Hoje verde, amanhã caduca. Mas a constância, excepto nas mulheres [1], também o é. Para se ser folha tem de se cumprir um mínimo de requisitos, como sejam ter clorofila, produzir oxigénio e por aí em diante. É esta a nossa essência enquanto folha.
O rococó, tal como a folha, tem a sua clorofila. Pauta-se pela simplicidade. Em matéria arquitectónica faz-se ouvir por janelas alongadas e arqueadas tectalmente. Porém, na sua essência, é dominado pela forma circular. Será rococónico o edifício cujas mais ou menos tantas janelas perdem o arqueado para dar lugar à forma rectangular? Ou aquele que tenha um ângulo recto, ainda que único, nas paredes do seu bloco central, quando manda a regra que sejam circulares?
É isto que o distingue e o caracteriza. Naturalmente, é óbvio que, quando o que interessa é iluminar mais, qualquer um pode moldar a janela à luz do seu interesse. Tirar-lhe o arqueado, por exemplo. Agora, desbaptizem-na! Não a chamem, jamais, de janela rococó.
O clube, tal como o rococó e a folha, têm a sua essência. Não vende produto e, muito menos, se vende por mais valias que o façam vender mais. Não se mede pela qualidade de publicações, pela assiduidade nas mesmas ou pela sua quantidade. O clube é, na sua essência (repito), ter um Jorge Cluni que fez no máximo duas publicações em toda a história da sua existência, é ter um Bachiatari com a sua linguagem bélica e sabedoria oriental, é ter um Ubirajara desencontrado, é ter um Adegesto , Pataca de nome, que vale mais do que dinheiro, e ter um Hermenegildo assíduo, na constante presença dos seus gatos, que nem com mão magoada abdica da partilha de uma sua qualidade: a escrita. Somos nós, os malditos.
O clube é os malditos! No que respeita ao seu carácter, tudo o que não é maldito é medicomalditococo, é patogénico. Se passa a ter janelas sem arqueamento, deixa de ser o que era. Perde aquilo que o caracterizava.
Pode ser equívoco meu, mas parece-me tudo menos ser bacoco, prezar pela qualidade última desta casa. No final de contas, este é o nosso rococó e a janela quer-se como dita a regra.
R: Na natureza, algumas coisas se perdem quando se transforma.
[1] “Inconstância, o teu nome é mulher.” Hamlet
bacoco (2) rococó (2)
domingo, 12 de fevereiro de 2012
sábado, 11 de fevereiro de 2012
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
Possível topografia dos lugares interiores #52
A simetria tem dons de injustiça
agora que este corpo desconhece o vigor
e só as rugas resguardam o seu orgulho
de um tempo envergonhado e incompreendido.
O que parece ao longe um defeito anatómico
é a passagem esguia das horas e da glória
e só um dia não basta para colmatar
a falta que a juventude faz nas engrenagens.
Mas não rezam os ossos qualquer lamento
tão placidamente se diminuem em envergadura
e por isso só pode haver alguma qualidade nos defeitos
que em nada diminuem o pouco que o corpo sabe de si.
Hermenegildo Espinoza
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
Tragicomédia
Não haja medo em admiti-lo: a tragicomédia não poupa nem o sagrado.
Hermenegildo Espinoza
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
O plasma
Hermenegildo Espinoza
domingo, 5 de fevereiro de 2012
Gira-discos #41
Acordai
acordai
homens que dormis
a embalar a dor
dos silêncios vis
vinde no clamor
das almas viris
arrancar a flor
que dorme na raíz
Acordai
acordai
raios e tufões
que dormis no ar
e nas multidões
vinde incendiar
de astros e canções
as pedras do mar
o mundo e os corações
Acordai
acendei
de almas e de sóis
este mar sem cais
nem luz de faróis
e acordai depois
das lutas finais
os nossos heróis
que dormem nos covais
Acordai!
letra de José Gomes Ferreira
Hermenegildo Espinoza
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
Frenesim
Hermenegildo Espinoza
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
Epitáfios para um médico de algibeira X
Hermenegildo Espinoza
domingo, 29 de janeiro de 2012
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
domingo, 22 de janeiro de 2012
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
bacoco (1) rococó (2)
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
Gira-discos #39
The Smiths - Please, please, please, let me get what I want
O que eu quero, por favor, só desta vez, é que este dia se desmembre na memória. Se possível, que seja a cauda gasosa do cometa que, incauto, percorre o comprimento do calendário, sem saber que vagueia sempre na mesma órbita.
Hermenegildo Espinoza
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
Cá por casa, amontoados nas estantes, eles também dançam, e algumas vezes valsam comigo
Hermenegildo Espinoza
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
Possível topografia dos lugares interiores #51
Um cadáver em cinzas não é um corpo,
talvez tenha sido, com mais ou menos precisão,
algo parecido com o que vem nos livros,
mas destas cinzas não nascem homens.
Com mais pena voa o pássaro em chamas,
pequena ave que sabe como foi em vida o cadáver:
guarda em si o tratado anatómico do último homem.
Pobre pássaro que lamentas no fogo
não o homem que foi antes de ser cinza
mas o amparo que tendo existido já não há
e tanta pena temos de ti, pássaro em chamas,
que cais agora junto ao homem que se foi
e tornas-te num cadáver em cinzas também.
Hermenegildo Espinoza
sábado, 7 de janeiro de 2012
bacoco (1) rococó (1)
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
bacoco (0) rococó (1)
domingo, 1 de janeiro de 2012
The Walkmen trazem-nos um ano novo, por sinal tenebroso
Hermenegildo Espinoza
sábado, 31 de dezembro de 2011
The Walkmen trazem-nos a véspera de ano novo
Hermenegildo Espinoza
2012, na mouche
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.
Luís de Camões, sua Poesia Lírica
Hermenegildo Espinoza
domingo, 25 de dezembro de 2011
Possível topografia dos lugares interiores #50
Quantos homens são precisos
para encolher o frio
e para apagar o desenho
que a humidade traz na parede?
Quantos instrumentos,
quantos orgãos, ossos, músculos,
quantos tendões quantos
são precisos para tocar, para partir,
para esquecer o tiritar
quanto são precisos
para abafar e enterrar
a melodia cruel do inverno?
Não mais que a soma da lanugem
de todas as novas crianças do mundo
e não menos que o comedido afago
de dois homens sozinhos e com frio.
Hermenegildo Espinoza
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Gira-discos #38
B Fachada - A Casa do Manel
Hermenegildo Espinoza
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
não me travem quando eu quero acelerar #1
- fachada?,
fugir antes de voltar para trás, eu lembro-me de que antes os meus dedos mexiam quando eu pedia, o meu corpo saltava quando eu pedia, as pernas corriam na savana do tempo porque o tempo era o meu, e não percebo, não percebo mesmo, mas desde há meses,
- anos ou talvez sempre?,
que choro sem que o ânimo peça, treze semáforos a verde num percurso de meia-hora, nenhum trânsito na calçada, e eu não preciso de me desviar, não preciso de parar, conheço apenas a modalidade de acelerar,
- não me travem quando eu quero acelerar,
é o que eu lhes grito sempre, mas não sei o que dizem as pessoas, não digo nada nem nos sombrios confessionários da infância, não conto rigorosamente nada, não faço amigos, porque se os perco também me vou perdendo a mim, quando o sol se põe no céu e eu me lembro que num percurso de meia-hora treze semáforos,
- é preciso ter sorte, sim, treze é formidável,
treze semáforos, senhores, em que o verde brindou-me brilhante a passagem, não precisei de cantar de regozijo, o alcatrão do chão gelado,
- é inverno, rapaz, estamos no inverno,
caminho ao abrigo dos leões e vejo mosaicos num azul fechado,
- as cores fecham-se, não sabias?,
oiço estilhaçar vidros no chão, e os meus pés colam-se às pedras, uma rapariga decotada de lábios exagerados,
- queres?,
e eu não quero nada, o frio não me incomoda e não tarda regressarei a casa conformado,
- sei fazer umas coisas que te podem animar,
não me parece que a rapariga saiba de algum método eficaz para mitigar um desamparo aprendido, nem que me ensine a falar a língua dos outros,
- decide-te que tenho outros à espera,
pela rispidez duvido que ela saiba o que é o conforto de treze semáforos a verde, e pelo vestido vermelho eu julgo que não é para avançar, alguém tomará o meu lugar, alguém que sofra do mesmo anseio, alguém que diga,
- quero, sim,
e me relembre,
- não querias acelerar?,
eu queria tanto, até porque o sol não tarda aí a acordar a multidão que se ergue da cama para a destilaria do ódio,
- vão morrer todos, vão, e julgam que é melhor não pensar nisso, é estranho,
e eu vou tentando ser decente, a culpa não é deles, nem todos podem encontrar quinze semáforos a verde,
- que quinze?,
peço desculpa, treze, treze semáforos a verde, eu não tenho culpa que desde há meses eu chore sem que o ânimo peça, nem que a roupa de estrada me leve de retorno a casa,
- todos os dias é o que tem acontecido,
embora eu repita, enquanto a janela do quarto se fecha e já não oiço o vidro estilhaçar, que não me poderão travar todas as vezes que eu quiser acelerar.
sábado, 10 de dezembro de 2011
Possível topografia dos lugares interiores #49
O homem que queria morrer sossegado
pediu-me, inquieto,
que o deixasse morrer sossegado,
enquanto houvesse tempo bastante
para que a morte matreira
não se lembrasse por fim
de o vir buscar à pressa.
O cientista em mim inquietou-se
nas palavras inquietas e tão tristes
do homem que queria morrer sossegado,
mas o médico em mim só descobriu o sossego
quando firme apoiou a mão na mão fraca
do homem que queria morrer sossegado
e garantiu-lhe que não o deixaria morrer inquieto.
O homem que queria morrer sossegado
acabou por não conhecer a inquietação na morte,
enquanto o cientista em mim conheceu amargurado
todos os precipícios da morte que olhava pelos olhos
do médico que em mim fechava em sossego
os olhos do homem que morreu sossegado.
Hermenegildo Espinoza
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
Epitáfios para um médico de algibeira IX
Hermenegildo Espinoza
sábado, 3 de dezembro de 2011
Gira-discos #37
Ray Charles - I Don't Need No Doctor
Hermenegildo Espinoza
sexta-feira, 25 de novembro de 2011
Possível topografia dos lugares interiores #48
Tem um carácter particular
o medo que trespassa a pele
a mesma que teimosa
deveria ser impermeável.
Na confusão da história
a falência do medo é perniciosa
e é tão grave como a coragem louca
que raramente vem uma segunda vez.
Atenta sempre
às condições do corpo
que no seu elementar desejo
deve ter o receio de subir a montanha.
Hermenegildo Espinoza
terça-feira, 22 de novembro de 2011
Isto de estar vivo ainda um dia acaba mal
Hermenegildo Espinoza
domingo, 20 de novembro de 2011
O narcótico dado às cegas
foi o que fez o rezingão. rezingão que se preze, não só faz oscilar membranas timpânicas, como também provoca oscilações da glote, em movimentos coordenados de cordas-palavras.
portanto,ortopedista só ouve aquilo que vê. é céptico.
o analgesista, não. ouve o que não salta à vista. não deixa de ser céptico, mas é metódico.
sábado, 19 de novembro de 2011
A dor asiática
Hermenegildo Espinoza
quinta-feira, 17 de novembro de 2011
terça-feira, 15 de novembro de 2011
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
Possível topografia dos lugares interiores #47
Uma cadeira não esquece as horas,
os minutos prolongam-se nos ossos doridos
enquanto alguém espera uns segundos eternos.
Não há má notícia que aguarde a sua vez
nem maus diagnósticos que se acumulem
nos corredores de olhares cabisbaixos.
Quem refila na sala de espera
tem medo que o medo da dor
chegue e não avise ninguém.
Hermenegildo Espinoza
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
terça-feira, 25 de outubro de 2011
Possível topografia dos lugares interiores #46
Os que padecem
de felicidade insuficiente
vivem no estigma da ausência
na falta que lhes faz um relógio
que acelere o tempo em que a felicidade
corre desenfreadamente nas artérias.
Os que se queixam
de felicidade restrita
vivem acordados numa insónia
num sonho estagnado no passado
que não lhes traz a almejada boa-aventurança
numa fé carcomida pela rouquidão dos discursos.
Os que vão morrer
numa parca felicidade
não terão tempo de ver
os dois pés inchados
porque o coração incapaz
não aguenta a nossa triste figura.
Hermenegildo Espinoza
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
Gattuso e a paralisia do nervo abducente.

Hermenegildo Espinoza
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
Possível topografia dos lugares interiores #45
Um bicho faz-de-conta tornou-se real
e o verdadeiro cérebro
tornou-se o cérebro faz-de-conta.
Desconhece-se o paradeiro
do bicho faz-de-conta
mas há estudos que apontam
claramente
que o verdadeiro cérebro
está debaixo das arcadas do mundo
a brincar à cabra-cega com o consciente.
O senhor Broadman desenhou um mapa
cheio de números, casas e sentidos,
toda a morada do verdadeiro cérebro,
e tentou convencê-lo a regressar
com palavras científicas, as mais sábias.
Pobre senhor Broadman, não sabia mentir,
e por isso o verdadeiro cérebro exilou-se
vive por aí entretido a tentar perceber
o que aconteceu ao bicho faz-de-conta
que endoideceu a querer ser real.
Hermenegildo Espinoza
domingo, 25 de setembro de 2011
Possível topografia dos lugares interiores #44
Úlceras do corpo que chora,
pode o corpo chamar para si a tristeza
que mais nenhum corpo quer?
Quando a firmeza é vazia,
sabe a pele a ácido
das úlceras do corpo que chora.
O corpo todo ele frouxo
vive embargado
preso nos arames
de uma amizade ulcerada.
Hermenegildo Espinoza
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
terça-feira, 20 de setembro de 2011
Epitáfios para um médico de algibeira VIII
Hermenegildo Espinoza
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
segunda-feira, 25 de julho de 2011
Possível topografia dos lugares interiores #43
Já só te falta o tédio,
o jornal e o café,
as mesmas queixas e pessoas
e a solidão pé ante pé.
As tuas horas vencidas
convertem-se em outras adquiridas,
muitas são as pessoas que anda viverão
enquanto amargas a tua depressão.
Que tu guardas a tua tristeza
na doença e na pureza,
sem que um diagnóstico te separe.
Hermenegildo Espinoza
domingo, 10 de julho de 2011
Possível topografia dos lugares interiores #42
Entre o ar dos dedos e o sal do mar
a nossa pele entre os corais.
Estranha esta aparência de búzio:
só queremos enrodilhar-nos no verão.
Resta o companheirismo bivalve:
entre nós e a topografia da casa.
Hermenegildo Espinoza
sábado, 25 de junho de 2011
Possível topografia dos lugares interiores #41
Alguém viu no espelho um vulto
de um menino metido consigo,
e logo esse alguém pediu:
- abre as asas, rapaz -
mas do solo o menino não descolou
no solo nenhuma pena caiu,
e teve o rapaz o acesso de bondade
de nos contemplar do alto da sua meninice
naquela posicão anatómica descritiva
de quem pode chorar sem o pedir.
Não tinha sombra, não tinha rosto,
um vulto não tem anatomia, tem suposições,
e alguém disse num tom cuidadoso:
- daqui não avançamos mais -
e viu-se invertido ao espelho
teve medo das suas feições de criatura
e também não teve necessidade de pedir.
Num atlas de anatomia actualizado
apareceu por cima um espelho de bolso
todo ele numa nitidez húmida
e uma pena fustigada pelo vento:
tão belo era esse prefácio da descrição
de quem pode chorar sem o pedir.
Hermenegildo Espinoza
quinta-feira, 23 de junho de 2011
quarta-feira, 15 de junho de 2011
Possível topografia dos lugares interiores #40
Raiados os dedos de benjamim
eu pediria uma inflamação de ossos
que de encontro à tua delicada bacia
criasse todos os dias do mundo.
Pretenderia ouvir todo o estalar dos meus ossos
todo o estirar dos meus tendões furiosos,
e pediria tanto que a orquestra dos ossos chatos
desse de si uma ovação às minhas contorções.
Eu poderei exercitar todos os instrumentos
que na arrecadação do meu corpo se amontoam
a tirar o tapete ao seu maestro, que vai pensando:
se um dia o meu corpo não pedisse licença.
Hermenegildo Espinoza
terça-feira, 7 de junho de 2011
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domingo, 5 de junho de 2011
Possível topografia dos lugares interiores #39
Justamente em nós
cabe toda a desconfiança
que o corpo tem de si.
Justamente de nós
foge por vezes o humor
que o corpo não omite.
Justamente através de nós
a desconfiança e o humor
vão pintando fragilidades.
Hermenegildo Espinoza
terça-feira, 31 de maio de 2011
Plastik
É assim que a palavra está escrita: Com "k" e a cor vermelha.
Se uns pensarão que bonito, que estético, que agradável, que diferente. ai, é tão lindo!, a outra corja de inocentes vai pensar estritamente o oposto que caralhada, que conice, que brejeiro. tem mesmo ar de acidente de viação. A mim, faz-me lembrar "mamas", "Corporacion Dermoestética" e "Lili Caneças" (com o cuidado de dissociar os conceitos uns dos outros (embora, em certo ponto se toquem (porra, juntar "tocar", "mamas" e "Lili Caneças" já é abusar (oh, merda, "abusar". Agora bem ia um comprimido para o enjoo (foda-se, pára seu animal, já trouxeste o conceito de "gravidez" para a conversa))))) (só para evitar mais confusões). Onde é que eu ia? Ah, sim. Plastik!
São só colheres de plástico.
(espera lá... "colheres" - "comer" - "mamas"/"tocar"- "Lili Caneças". Foda-se, onde é que eu tinha a cabeça?; hum... "cabeça", hein? (...) [OH GOD!])
quinta-feira, 26 de maio de 2011
quarta-feira, 25 de maio de 2011
Possível topografia dos lugares interiores #38
Temos o sal, temos o tempo,
temos a luz, temos as pálpebras,
temos toda a astúcia de um jumento
e quase sempre a ironia de um marialva.
Muitos sorrisos para esconder as águas,
a nossa força sempre passou por camuflar
cada pequena fissura nas nossas mágoas,
cada pequeno medo de a jusante hesitar.
Dai ao tempo o tempo para os riachos
tropeçarem nos acidentes da nossas caras
e saibamos nós esconder as comissuras de machos
daqueles oceanos adornados pelas intempéries de tiaras.
Hermenegildo Espinoza
domingo, 15 de maio de 2011
Possível topografia dos lugares interiores #37
Um dia abrir-me-ão o peito,
bem a meio do esterno,
e na falta de um coração
serei declarado morto.
Um dia, na falta de um movimento,
por todos considerado perpétuo,
uma certidão tremida e baça:
como tantos, de tanto bater, parou.
Um dia fechar-me-ão o peito,
depois de me declararem morto
e eu quieto, com os olhos para dentro:
foi alguém, doutor, alguém que mo levou.
Hermenegildo Espinoza
quinta-feira, 5 de maio de 2011
Possível topografia dos lugares interiores #36
Quem me estraga a felicidade de ser
algo mais que um ponto num plano
são quase sempre os ruídos de fundo
dos meus meatos insubordinados.
Bandidos, eu gosto de chamá-los,
ou compor o sermão infernal
só para que saibam como temo
que chova um dia nos meus meatos
e eu perca a exacta orientação
dos redondos afunilamentos.
Não sinto o perigo de perder
uma réstea de som na minha algibeira
e se confio na inocência da chuva
é porque acredito na rudez do meatos.
Hermenegildo Espinoza
segunda-feira, 25 de abril de 2011
Possível topografia dos lugares interiores #35
Jazem na nua vivacidade de pedra
os felinos bichos da fonte.
Estão ali alheios na constrição
nunca efémera dos seus anseios.
Se o rugido não se ouve,
está pois encoberto no grito de outros,
aqueles que de fresco aqui chegam:
Ave leo praxeturi te salut.
E vão chegando, vão pingando
os novos que hão-de ser os velhos
a regressar um dia, em frente à fonte,
saudando de orgulho o peito dos leões.
Hermenegildo Espinoza
terça-feira, 19 de abril de 2011
Gira-discos #36
Mountains - Telescope
Um telescópio que permita ver as constelações dentro de mim, dentro de nós. O corpo como uma coordenada num céu estrelado. E quando julgamos conseguir ver, quando julgamos saber, é aí que começamos a chover.
Hermenegildo Espinoza
domingo, 10 de abril de 2011
Possível topografia dos lugares interiores #34
O significado desta vida de eremita
nem eu sei nem os tratados nas estantes,
mas eu sei que sou boa pessoa.
Ando por aí nas enfermarias a discursar
brutais discursos de melancolia:
há quem veja em mim a arte de refilar.
Eis-me a vaguear neste corredor de conceitos
onde há uma felicidade que não é significado.
Mesmo da mais ínfima acção heróica
- que é este meu estruturado ruir de escadas -
eu sei-me esconder muito bem,
só não me salva o estetoscópio, nem a mim
nem a todos estes filhos-da-mãe.
Aqui não há maneira de entender
qual das vidas andamos a perder,
pois se me coloco na sala de espera
na espera que o meu nome
seja por todos chamado,
o mais certo é regressar à enfermaria
com esta cara de melancólico resignado.
Hermenegildo Espinoza
quarta-feira, 6 de abril de 2011
Gira-discos #35
The pains of being pure at heart - The Body
Tragam-me sol servido a fresco, o meu corpo precisa.
Esmiúcem-me o tédio, o meu corpo precisa.
Desenhem-me esplanadas nos olhos,
um guarda-sol, uma aragem,
tragam-me café com gelo, um copo de vinho,
pernas esbeltas e o meu reflexo de acomodação,
tragam-me cheiro a relva, tragam-me os passeios,
o meu corpo precisa, um gelado com caramelo,
tragam-me doces, o meu corpo precisa,
o meu corpo precisa da palavra que é corpo.
Hermenegildo Espinoza








