Um telescópio que permita ver as constelações dentro de mim, dentro de nós. O corpo como uma coordenada num céu estrelado. E quando julgamos conseguir ver, quando julgamos saber, é aí que começamos a chover.
O significado desta vida de eremita nem eu sei nem os tratados nas estantes, mas eu sei que sou boa pessoa. Ando por aí nas enfermarias a discursar brutais discursos de melancolia: há quem veja em mim a arte de refilar.
Eis-me a vaguear neste corredor de conceitos onde há uma felicidade que não é significado. Mesmo da mais ínfima acção heróica - que é este meu estruturado ruir de escadas - eu sei-me esconder muito bem, só não me salva o estetoscópio, nem a mim nem a todos estes filhos-da-mãe.
Aqui não há maneira de entender qual das vidas andamos a perder, pois se me coloco na sala de espera na espera que o meu nome seja por todos chamado, o mais certo é regressar à enfermaria com esta cara de melancólico resignado.
Tragam-me sol servido a fresco, o meu corpo precisa. Esmiúcem-me o tédio, o meu corpo precisa. Desenhem-me esplanadas nos olhos, um guarda-sol, uma aragem, tragam-me café com gelo, um copo de vinho, pernas esbeltas e o meu reflexo de acomodação, tragam-me cheiro a relva, tragam-me os passeios, o meu corpo precisa, um gelado com caramelo, tragam-me doces, o meu corpo precisa, o meu corpo precisa da palavra que é corpo.
33. o homem que nos pedia para dizer trinta e três.
O biombo arrastado quase de todo o tamanho fechava-nos o espaço e o homem pedia: - diga trinta e três.
Se me ouvia mais do que eu sabia a ignorância era a minha, e o tórax escavado às vezes acanhado, respondia, envergonhado: - trinta e três.
Os anos que se condensaram nas escavações do meu peito fizeram-me crer em algum jeito ou até algum secreto desígnio de ser eu o meu próprio sacrifício e aceitar a vulnerabilidade dos que se apresentando frágeis deixam a minha vulnerabilidade reencontrar neles a integridade e para isso eu peço hoje: - diga trinta e três.
Colhidos por um bocejo de tédio, achocalham-se logo as moedas para no intervalo ir recuperar o médio ânimo que se nos escapa pelas goelas.
As horas sem taxa nessas filas de espera, o dedo na ranhura logo a seleccionar o açúcar que, sendo muito amigo das canas de esmera, salva-nos amiúde do desencontro de escutar.
Para onde iremos depois exercitar a paciência ou alguns momentos de mútua sociedade? Equacionar a caféina na sua elegante cadência de menina, em bicos de pés, dona da sua idade.
/Dizias: um dia dançarás para mim, um dia cuidarás de mim, um dia estarás lá para me ver morrer. Falavas só das tuas certezas: eu dancei para ti, eu cuidei de ti e, por fim, morreste, mas a medicina não morreu em ti./
O metacarpo não se verga à dor, à dor da falta de outra concavidade, onde se enterram a saudade, o fado e as ternuras sussuradas em acordes de colibri.
O bom metacarpo, aliás, não vive da inveja que outros servem fria como condimento, se nos esquecermos das letras desse diálogo: coragem! – a resistência é um rotineiro embalo.
Alguém que se assemelhe a um verso de melancolia, não sabe a associação humana destes ossos moles, só a lembrança de não desanimar em frente ao Grotesco que há dias em que utiliza a nossa fotografia de infância.
Hermenegildo Espinoza
quarta-feira, 2 de março de 2011
Cadáver s. m.
1. Corpo morto. 2.Fig. Pessoa tão fraca ou doente que parece estar para morrer. 3. Coisa que parece aniquilada de todo.
30. os ossículos do ouvido são mais caros que pianos de cauda.
Senhor Bach, Senhor Mozart, Senhor Chopin, não me esquecerei de si, Senhor Beethoven, quero crer que mais que a magia de qualquer piano abençoado, tinham todos ossículos de ouvidos preparados para novas euforias, novos silêncios e epifanias, dedilhadas no compasso de um amor conturbado.
À condução de outro som a hemisférios não dominantes - e à permanência da resistência ao enfado - chamam-lhe criatividade e imaginação, de maneira que não há vencimento que abata o requinte de um bom meato acústico e nervos que abrem ressonâncias dentro de nós.
É que um bom compositor, não pretende só incutir alguns sons, mas também dedilhar-nos os ossículos.
Hermenegildo Espinoza
*este poemário está prestes a fazer um ano de publicação. muitos lugares interiores aindam restam para topografar.
Os sonhos. Desconfio tanto deles como das pálidas sombras que me atravessam os olhos pouco antes de adormecer. Há, claro, uma admiração por essas imaginações, ora efusivas, ora incomodativas, não só porque os sonhos são, eles próprios, uma experiência frequentemente irracional, mas porque, verdadeiramente, adicionam uma racionalidade posterior à divagação: precisamos do inesperado que alumie o caminho da razão. Eu vejo, ou melhor, oiço, ou ainda melhor, experiencio isso com os Dreams: é a harmonia repetitiva que, de tanto repetir, se diversifica; é a batida, uma profunda percussão a cravar-nos estacas de quotidiano no peito; é a voz, aquela voz mansa, longínqua, muitas vezes inexplicável, que em momentos precisos revela a sua mensagem. Dreams carrega em si, apesar do paradoxo, o peso que a realidade delega na subjectividade dos sentidos. Dreams é o meio que a realidade encontra para chegar ao seu fim: dar-se a conhecer. Ninguém sentirá esta música como eu, porém, acabamos todos por sair alterados; no meu caso, desconfiado uma vez que a minha realidade ainda não me cumprimenta da mesma maneira que eu. Sabem aqueles momentos em que, prestes a adormecer de cansaço, sentimos um valente espasmo na perna que logo nos reaviva? Pois bem, acabamos eventualmente por adormecer, mas a perna, essa, conseguimo-la sentir melhor.
Uma gota de sangue no dedo, uma rosa e um queixo caídos, arranhado o amor anterior, triste vai o carinho proximal.
À distância uma coluna de desculpas, um enxerto de vaidade posterior, cervical, torácico, lombar, a dor de não poder estar.
Longas horas, trinta e muitos níveis, a física de perdurar até mais não poder - erguer, erguer, distribuir o nervoso -, abre em nós um caiado lugar honroso.
/Há uma linha a separar as horas usadas das horas desperdiçadas. É que muitas horas vagueiam como passageiros inquietos na aura acizentada do nosso corpo. Essas, as desperdiçadas, são como os líquenes que se entranham na pedra fria. Não sejamos nós pedras, não sejam as horas coroadas de desperdícios./
/Não perdemos. Não ganhámos. Alguns de nós transformaram-se. A conservação da energia dos nossos dias diz muito das azias e dos nervosismos. Que nunca nos falte o sarcasmo. Não mudámos nada, afinal. A nossa lápide não é uma reiteração, é uma teimosia. Longa vida ao teimoso médico maldito!/
Se a mitologia nos permitir a arrogância e a descrição humilde nos aprouver, interessa contar com ganância o duro tendão no acto de correr.
Se do joelho vai até ao tornozelo ligando as nobres articulações, importa louvar o excesso de zelo que nos afasta dos tropeções.
É que há uma posição a manter, um bipedismo que nos faz esvoaçar, acreditem, não é preciso ver para crer que andar é voar em oposição ao céu e ao luar.
Meus amigos, garanto-vos, mais que a morte, mais que o fim, garanto-vos um ciclo de rejuvenescida vingança. Ou talvez não de vingança, mas de impaciência, como o barco que sabemos que vai atracar no porto pelo barulho que ouvimos no meio do nevoeiro, mas que, pequeno casco de sebastião, não chega. Um qualquer mundo cheio de pequenos barcos que não chegam, uma morte teimosa e uma vingança que, cíclica, se esconde por entre o marulhar. E damos connosco a implorar o verbo morrer neste inverno, num imperativo de último carinho. Matem-nos, matem-nos bem, mas com o devido carinho com que qualquer morte - ela, ele, quem sabe nós mesmos - deve vir buscar os seus amigos mais próximos, na corrida pelo melhor ouro.
Sangue azul a saltitar no seu corcel, experiências de ressuscitar os mortos de tão direitos a remendar os tortos; acabar a fugir do incompleto painel.
Até que alguns descalços e moribundos decidiram estudar o ouro baço dos burgueses, e equacionaram o roubo dos bandeirantes portugueses que perderam a moral enquanto desbravavam os mundos.
Do que resta das terras e colinas de ninguém é escrever dos cadáveres os registos biográficos, dos malefícios implícitos em contornos diabólicos, assinando com a muita ignorância que a gente tem.
/Nosso Senhor alquimista, guarde em descanso este homem que, sem descanso, errou. Que o guarde, sem descanso, pelo tempo que não viveu. Dos seus amigos, pacientes e inimigos, todos eles ainda à procura da pedra filosofal./
O médico e investigador português La Fuente de Carvalho é o autor de um estudo que abre portas ao tratamento da disfunção eréctil de diabéticos. Uma grande parte dos homens com disfunção eréctil é diabético e não pode recorrer aos meios tradicionais de tratamento da doença, nomeadamente os medicamentos existentes no mercado, daí a importância deste avanço.
Esta via não tem qualquer relação com o estado das artérias do doente, o que levanta uma outra questão. La Fuente de Carvalho explica que se o doente diabético estabilizar as lesões arteriais já estabelecidas, a administração deste novo medicamento pode permitir a recuperação do estado funcional das suas artérias. Esta hipótese vai ser confirmada ao longos dos próximos anos."
Janus, era assim que o chamavam, enquanto o tempo não se habitua ao naufrágio de ir e à maré de voltar.
Janus, era assim que o chamavam, tinha o pensamento do pelourinho a dividir a urbanização da aldeia. Quem vier por bem, não virá escondido, nas duas faces do mesmo rosmaninho.
Janus, era assim que o chamavam, desfilava pelos anos esticados, mas rugas vinham sobrepostas ao elixir híbrido da juventude. E é assim que o chamam, Janus, antes de o virar no calendário.
médico (latim medicus, -a, um, relativo à Média) adj.adj. Da Média (Pérsia) ou a ela relativo.
médico (latim medicus, -i)
s. m.1.Med. Pessoa que exerce medicina. 2. Fig. O que cura um mal-estar (físico ou moral). médico espiritual: confessor. visita de médico: visita muito rápida.
Amanhã, por volta da meia-noite, rotineiramente, pegarei numa cadeira da cozinha, ficarei sentado na quietude da noite da varanda, um copo de vinho do Porto no regaço, com o leitor de mp3 escondido no roupão azul e, mesmo antes do primeiro rebentar do fogo, carregarei no play, só para que novo ano não me apanhe desprevenido na corrida dos anos, enquanto vou dedilhando no ar as notas de um piano etéreo, acompanhado pela orquestra dos meus gatos. Depois arranharei a barba - dizem as más-línguas - idêntica à que o Paul McCartney exibia quando, em 1970, já a separação habitava os olhos deles os quatro. Para já, não revejo na minha barba qualquer premonição. Deixai-a sosegada. Bom ano.
Dois nus começaram a humanidade, adiantam alguns, que ainda acrescentam os pecados que esses dois nus incutiram ao futuro.
Na alegria da nossa criação, em todos os credos, retemos um cordão que nos liga e possui a geleia que nutriu as multidões dum bipedismo propulsor do mal e do bem, da chama de petróleo em candeia. (E a humanidade canta, no meio do frio do orvalho: - aproveita, camarada, e traz outro amigo também).
Tanto em Belém, Berlim, Buenos Aires, até mesmo Freixo-de-Espada-à-Cinta, nasce um menino, nascerá sempre, que traz camuflados nos genes os andaimes babilónicos de humanização.
Já houve um tempo em que o tempo não me vinha comer os calcanhares, nem a pressa de viver vinha aligeirar as frieiras das mãos, tornando o meu corpo frio, - São os carris, os carris que nos prendem aqui, Onde tudo é igual, quase tão rápido como a vez em que experimentámos deixar de respirar, em que a ausência de sopro foi um século vazio, - São os carris, esses malditos carris que nos prendem aqui, Ao pé de ti, ao pé de ti, ao pé de ti, ao pé de ti, o lugar de onde fugi.
(esta velha casa, onde tudo é igual)
Hermenegildo Espinoza
sábado, 18 de dezembro de 2010
Apneia
(a- + -pneia)
s. f. 1. Asfixia. 2. Por ext. Respiração excessivamente ténue.
Penduradas nas casas, descaídas sobre a rua, deparamo-nos com vastas artérias a vencer as veias tão pequenas nas noites com este dominó de candeias a deslumbrar-nos com mais do que uma visão crua.
Encarnado a soprar no breu da avenida, o casaco esconde mais do que o calor do corpo: são espectáculos de luz recta em espectador torto, ecos de uma estância ininterrupta e foragida.
Fiquem a saber que nestas rimas de néon arterial somos todos um soldadinho de chumbo imperial.
/Quem não se cumpriu em rigor mais do que quem se ausentou em vontade, não se pode auto-responsabilizar por ineficácia. Contudo, o médico sem responsabilidade não é médico. E o médico que não recicla, diariamente, a sua responsabilidade é um João Semana sem bondade, para os outros e para si./
Não sei se é da voz se é da batida, mas há um certo compasso melódico e nostálgico que me faz querer comprar um gira discos e voltar ao século passado. E metê-lo numa sala onde tenha uma lareira. Sala essa incluída num 16º andar em Paris. Ah e com vista para a Tour Eiffel, num dia frio com neve nas ruas.
Carago, como eu me enconstava para trás no sofá dessa sala a saborear um whisky velho com a prespectiva dessa torre a espelhar os sonhos de uma vida e um crepitar aconchegador a acompanhar a Françoise Hardy.
Para já, vou voltar a terra e vestir a manga caviada para acabar o dia com masturbação psicológica em protesto pela mudança dos tempos.
O frio do círculo polar árctico impõe, dizem-nos, o recolhimento, mas, até ver, os dedos das crianças têm acarinhado muitas expansões.
De modo a principiar a escultura do medo as falanges das crianças são duras como cascos, quanto muito sabem ferir-se por descuido, ou não fosse o descuido o catalisador da perfeição.
Vão errando as crianças, com as falanges a prolongar-se por intermináveis erros, palpando quanto podem: sinais salientes e marcas da destruição maldosa, mesmo que avisadas vão pelas suas aventuras esfolando as falanges dos dedos estirados. O mundo, reitere-se, é mesmo delas.
Vou a caminho do nada, venham comigo, cientes de um limbo de escarpas tingidas com os nossos nomes marcados a sangue: o nosso, perpassado por elementos que, mais que figurantes, reis do protagonismo de um épico poema-ópera de Strauss.
Assim falou quem da boca a terra seca estabelecia composições de fogo duro. A jangada que nos leva, mais os dois tostões, é tão triste como os olhos alargados e inchados de quem ficou para trás com o nosso corpo nas mãos.
Há, contudo, quem guarde o corpo na expectativa de valentes dissecções das camadas que escondem almas. E pensar em quem sustenta o rasto da Criação é difícil de aceitar, como tão fácil é resignar-se à ideia da inexistência de dedo divino. Vou a caminho do nada, venham comigo, que garanto dessas teorias estarem as duas erradas, as duas certas, e a Medicina sempre no meio.
Os Golpes - Vá lá Senhora (com Rui Pregal da Cunha)
Alguém para amar, raparigas e rapazes, alguém para amar, este baile não pode parar, raparigas e rapazes, somos os monumentos tão audazes, raparigas e rapazes, venham daí dar-me a mão, raparigas e rapazes, ofereço-vos a alegria da tradição, raparigas e rapazes, agora que o Inverno ganhou ao Verão, raparigas e rapazes, saiam da alegórica caverna, raparigas e rapazes, olha o azeiteiro a sacar a mulherada, raparigas e rapazes, vá la senhora, irá beber comigo até de madrugada?
/Na altura de escrever a receita, aquela bata branca de anjo estático, na sua caligrafia de apontamentos distraídos, perdurava na memória colectiva de exorcizar. Bem-haja ao escrevinhador e ao seu prontuário terapêutico/
Assim que as cores desaparecem, ou melhor, se desvanecem a preceito de uma ligeira vontade de fuga, a música acaba por soar mais honesta. No fundo, as cores que cambaleiam como nós em noites de embalo nicotínico ou cafeínico, como se fossem um determinante agressivo para não nos perdermos, - As cores, rapaz, as cores, não te esqueças delas, Algures na algibeira (os médicos, quer queiram quer não, têm muitas vidas depositada na concavidade dos seus bolsos) enterram-se as tonalidades fugidias e muito temperamentais, muito senhoras do seu nariz, - Deus me livre, rapaz, mas não encontro sentido nas palavras que dizes, nem cores, tudo muito baço, rapaz, Livres como cândidas flores que absorvem todos os comprimentos de onda para exibirem, como as mulheres vaidosas e fúteis, as lombadas das suas coxas cintilantes (conheço muita dessas na minha rua), deambulando, deambulando pelos lancis à espera de não caírem, ou, se for o caso, que alguém, príncipe encantado de sarjeta, lhes acomode a queda de caule que não soube virar-se para o sol, - Como vai essa cabeça, rapaz, algum dia saberás dizer as coisas como elas são e não como tu as pensas?, O mesmo sol que se esgueirava pela enfermaria onde vi morrer o primeiro paciente da minha carreira fantasmagórica de médico de algibeira, o paciente que não pude salvar, o paciente que perdeu as suas cores, as cores, as cores, as cores, não esquecerei aqueles olhos a apagarem-se num colapso tão ténue de girassol mordido pelo vento, - Tudo muito ao jeito de alguém que não se apercebeu do que é viver ainda, não é, rapaz?, E lembrei-me do meu avô na soleira da porta, - Todos morremos, Hermenegildo, todos morremos, Não contive a raiva, pois os olhos do paciente tombavam no intervalo do pestanejar dos meus, e a irritação de não querer conceber um susto tão rotineiro, um susto assim, - Sabe, avô, não sei se fui feito para poder testemunhar este colapso das cores das pessoas, Ao que ele coçava a barba e ronronava enquanto pensava sermões para peixes miúdos, - Enfim, rapaz, enfim, ninguém manda nas cores, ninguém manda, Enquanto eu, feito camaleão de olhos giratórios, mantinha o meu movimento de precessão, como um pião que, quase quase a cair, tenta não perder as cores favoritas que se escapam.
Armazenar a memória de uma paisagem onde sequelas de uma emoção transbordam sobre circuitos com o arsenal da integração.
Ecos refinados de alguém que questiona: - É isto uma emoção? E poucos respondem porque poucos são os que sabem.
Evidentemente, que o estado de coração na boca vem ancorado a uma fusão de memórias que condiciona tanto a memória de ter tido quanto a memória de estar a ter, embora se saiba que mesmo aqueles que julgam saber, duvidam: - Não conhecemos bem a fímbria desses ecos.
Abana o leque, o leque que cintila trepidações de sentinelas, de sentinelas com as suas cores a iluminar um caminho de arco-íris, um caminho de arco-íris pelas escarpas perdidas e qualquer coisa, qualquer coisa como um estetoscópio com um diafragma, um diafragma que absorve não o som mas a luz, a luz que escorre-nos pelas mãos atenuadas onde um filme, um filme todo ele branco que é a soma de todas as cores, as cores que eu não sei dizer, as cores que não sei ver, ver como quem diz está ali um feixe compacto de vida e nenhum, nenhum prisma sabe separar da mesma maneira, da mesma maneira que não se separa a vida da morte, da morte que vem não se sabe se roubar as cores para ela, ela que tão escura e cinzenta vem a caminhar, a caminhar pelas portas da nossa espera, na espera também que alguém se chegue à frente, à frente da vida como quem diz atrás da morte e diga You are the colour, my dear.
/O médico de algibeira que vive embriagado da dor dos outros, obliterando, teimosamente, os resquícios d'alva da sua própria imensidão microscópica universal, tem pela frente a sólida secura de, no fim, acabar por desenvolver a cirrose de dor pela dor de outrem. Que não lhe falte, pelo menos no que aos amigos diz respeito, o breve epitáfio da sepulcral alegria da malandragem./
Com duas alheiras e um copo de vinho já fazia um almoço.
Mas as alheiras são gentes estranhas que frequentemente não caem bem, ou por defeito do porco, ou por defeito da tripa, que ao ser esticada e enchida com enchido para fazer o enchido final com que se enche o bandulho, acaba por ourar os restos moídos do porco e porco ourado e tonto cai mal. Ou isso, ou são alheiras contaminadas com vírus. E os vírus alheirófilos multi-resistentes a correntes de ar que se encontram nas alheiras são um problema dificil de erradicar. É que o seu segredo não está em factores de virulência, não... O seu segredo está na sua origem: os virus alheirófilos são judeus. E os judeus quando urinam engarrafam a sua própria urina para a venderem depois aos esgotos, porque a urina é deles e eles têm direitos sobre elas. E os vírus alheirófilos fazem o mesmo: negoceiam a sua própria urina com o sistema imune do hospedeiro, mantendo-se em cerradas negociações durante dias ou até meses, até terem a quantidade que pedem, o que, na prática, corresponde a uma greve dos sindicatos de policia, só que dentro do organismo, e o raio do porco moído misturado com pão, fica sem escolta que o guie para saída e anda para ali a ourar até que as negociações cessem. E porco ourado cai mal. Cai mal porque o animal ourado perde equilibrio e noção espacial e anda aos tombos desamparados. Caí aqui, caí ali, parece que não mas faz mazelas. E é que ainda por cima o chão do intestino e estômago sáo rugosos, por isso imagine-se: porco ourado, tonto e aos tropeços como é que não há-de cair? Pois com a ajuda das policias, claro está, que dão a mãozinha ao suíno e o ajudam a equilibrar enquanto sussuram no ouvidinho peludinho: "levanta lá o pé que aqui tem uma ruga. E ali à frente tem outra. Já está quase. só faltam três metros."
«O que mais me intriga e dói na nossa morte, como vemos na dos outros, é que nada se perturba com ela na vida normal do mundo. Mesmo que sejas uma personagem histórica, tudo entra de novo na rotina como se nem tivesses existido. O que mais podem fazer-te é tomar nota do acontecimento e recomeçar. Quando morre um teu amigo ou conhecido, a vida continua natural como se quem existisse para morrer fosses só tu. Porque tudo converge para ti, em quem tudo existe, e assim te inquieta a certeza de que o universo morrerá contigo. Mas não morre. Repara no que acontece com a morte dos outros e ficas a saber que o universo se está nas tintas para que morras ou não. E isso é que é incompreensível - morrer tudo com a tua morte e tudo ficar perfeitamente na mesma. Tudo isto tem significado para o teu presente. Mas recua duzentos anos e verás que nada disto tem já significado.»
Vergílio Ferreira in Escrever.
(a leitura, ela mesmo, como um dos melhores remédios)
A mensagem codificada no fundo do Douro sabe a doce, se doce é a água dos exões que brilham no nosso miradouro.
Uma lengalenga da profundidade onde se traduzem abundantes aluviões, sabe a pouco reconhecer todos os alçapões, desse escuro que vai branqueando a idade.
Repetidamente, um tiroteio de palindromas, venham, venham ver como escorre fundo o Douro a rasgar o atlântico mundo.
O homem dos mil dedos apresenta-nos o curto, e não menos magnífico, canto do rio. Algo que o caudal de muitas horas de sono perdidas, mesmo atirando-nos para o fundo dos aluviões, não consegue deturpar. Até quando o rio se escoa por entre os nossos olhos estáticos de marinheiro sem astrolábio? O rio lamenta-se por baixo das pontes de pedra onde peixes, sem contemporâneos sermões, se afunilam na turvação dos átomos, aleatoriamente. E giram e giram, os grandes com os pequenos, e morrem e morrem (falo muito em morrer pois também eu vou pelo mesmo caminho, e é suposto contar a história do passageiro que vai) serpenteando (bonita palavra, muito bonita mesmo) as lápides erodidas da vulgaridade dos meninos dos verdes anos. Somente se pudessem - os peixes que cantam no rio - nadar nas lágrimas que nascem nos olhos do rapaz de coração inclinado. E aprender, nesse fundo azul de escarpa, a observar o movimento perpétuo da gente pequenina e grande mergulhando no fundo poço do mundo.
Queres chegar, olhar de frente a fenda, na outra margem o porto o cais de um novo lugar.
Trazes a boa-nova vens potenciar saberás pouco inibir melhor ainda excitar: aqui é que não podes ficar.
Vais sentar-te à mesa da hospitalidade de iões. Se a noite é o limiar e ela vai receber-te não podes esmorecer. Mesmo que da fenda sejas ostracizado, o sinal não pode ficar, o sinal avançará. Boa noite, sinapse.
Hermenegildo Espinoza
domingo, 3 de outubro de 2010
"- O que está a dar é a circuncisão! - Mas o que é isso da circuncisão? - As mulheres gostam... - Ai é? Então quero duas!"
17. costelas flutuantes são caravelas do mar que nunca irão atracar.
Um cadáver atirado ao mar ao muito sal e outros minerais, leva nos lábios um penoso escorbuto. Será sempre triste ver um corpo morto, constatar que padecemos de muitas deficiências e nem todas elas são vitamínicas, mas enfim, o corpo do homem atirado ao mar jamais voltará a atracar.
Caravelas no fundo dos riftes, companheiras de inversões magnéticas, jamais voltarão a atracar. Muitas delas viram o azarado Adamastor, muitas delas caíram em eterna apneia. Rejubilemos com a memória de mastros a bolinar porque se ainda existir um brasão português naufragado nessas fossas de tantos nomes a decorar, servirá para nos lembrarmos que o mundo dificilmente se dá ao luxo de ter um fim.
Tal como as costelas flutuantes que jamais irão atracar, contudo, cumprirão bem o seu perene dever de estar.
Vim à varanda na esperança de que o ar tépido de início de Setembro me trouxesse um soporífero, algo confortável que deixasse a fadiga fazer o seu trabalho de conduzir o meu cérebro à regeneradora resposta: o sono. Quieto na varanda, o som do trânsito, das pessoas noctívagas que neste preciso momento iniciam a procissão aos bares e ao seu quotidiano nocturno, perfilam-me várias sensações de banalidade.
(Espinoza, deixa-te desses pensamentos de agonia auto-consciente) Uma festa de fumo a esvoaçar pelos lancis da calçada. Pares de namorados, pares de concorrentes a namorados, loucura de noites sós, para onde vão os desejos sussurrados antes do raiar do dia? (Espinoza, há festa na moradia, mas também há festa nessa cabeça de miúdo-dos-porquês) Ver os jovens burgueses aumentar o capital da futilidade, escarrar para o lado enquanto se afia o dente para a febra mais perto, há mulheres - mulheres, sim -, que metem mais medo que muitos selvagens homens, e onde anda o nosso super-ego a rastrear inutilidades da nossa moral? (Espinoza, a selva também cresce na cidade, ou julgavas que a humanidade era um manual protegido nos museus que ninguém visita?) A persiana - ou adufa, o dicionário diz-nos que também se pode designar por adufa - encerram a radiação vampírica de quem, lá em baixo, suga o amplexo gaseificado dos becos sem saída, e eu escrevo, eu não sei quem, eu, o Espinoza, a pessoa que o Espinoza julga ser, aquele que o Espinoza não sabe quem é, outro que se julga o Espinoza, um guarda-livros chamado Bernardo Soares que, para viver desassossegado, encorpora todos os homens fracos de decisão e prolixos de imaginação, quem é quem, é a pergunta que devo fazer? (Espinoza, faz como os gatos e não te questiones, acabarás por ronronar no fim também) E este desamor forçado da minha chegada ao cansaço do dia, quando por fim tudo instila em mim uma lápide a pedir desculpa aos outros meus que não se manifestaram, um arrepio de árvores alvoraçadas, e as pálpebras que lamentam, as pálpebras que se sucedem, as pálpebras que nos convencem, as pálpebras que enfim caem, (Dorme, amigo Espinoza, dorme)
Esses amigos de casa e fora dela, promotores de cordas vocais afinadas aturam-nos até a disfonia de querer falar tudo depressa.
Folhas de chá para a rouquidão e o rebuçado com o senhor de barba, coadjuvados, a bem querer, pelo bater aconchegado nas costas, há quem diga: caminho meio sarado.
Até que a voz não nos falte, nem haja perigo de saltarmos fora dos carris dessa caminhada onde sobram os amigos recorrentes.
Vim dar um passeio para o sul do país / Tomai uma valsa para depurar as miudezas e os safados actos de férias. Se essa comunhão de espírito, noves fora, restar, prossiga a dança / Deixei-te em Lisboa, mas não porque quis / Tudo quanto há do mercúrio dos termómetros a escoar pela razia do regresso / Saber que te soa esta valsa que eu fiz, há-de ser coisa boa, sou eu quem to diz, mandei vir o saber de Paris / E a letra, os acordes, o tímpano de quem ouve com ouvidos de ver, e só a música resta, só os nossos passos compassados, num padrão cirúrgico, a memória na convalescença a repetir, a repetir, a repetir...
Escrevi-te uma carta de coisas de amar Se não for entregue, não me vou desculpar Porque o dom que consegue esta valsa a soar Não és tu quem mo negue, não, nem quando eu voltar Quando abrires os teus braços, nada disto já vai importar
E quando o sonho saciar vou fazer de tudo para acordar
Às vezes eu sinto uns fantasmas por perto Ao entardecer e com o meu rulfo aberto Faço para te prender esta valsa que é certo Mais que para te vencer, é para ver se desperto
Lembras-me em todas as coisas de cá E a cada passo eu me passo para lá Mas então o que eu faço é valsar isto em fá Para te ter num abraço que Vénus não dá Quando o verão acabar e nós dois for só tudo o que há
E o Verão acaba, o Setembro cresce, e a rotina citadina desperta - e rima - com o prazer da (re)descoberta.
É um céu azul quase de pinturas, preces ao além de beleza, dirão, aqueles meus amigos, com uma possibilidade de certeza: tem a atmosfera mais cores que as cores por nós imaginadas.
Se a tonalidade desse olho é a reflexão do que lá deveria estar, o que olhamos não é o olho, é antes uma cor que não quis ficar.
E na barafunda da discussão, diz o míope para o presbíope calado (eles que não se vêem, mas entendem-se): - vai ali a íris de Tyndall.
«(…) Se me dissessem que escrevia ficção sentia-me insultado: ficção que tolice, é o mundo inteiro que a gente mete entre as capas de um livro. Vende menos? Decerto, mas há-de vender sempre. Se tivermos lado a lado, à nossa frente, Camões e o jornal, a tendência imediata é pegar no jornal, mas o jornal desaparece amanhã e Camões fica. Chamo jornalismo, explicava Gide, ao que é menos interessante amanhã do que hoje. E depois a Arte não é um desporto de competição: o editor que ponha numa cinta, por exemplo, cem mil exemplares vendidos, ou julga falar de sabonetes ou não é um editor. Se o livro for bom há-de vender muito mais do que isso: quanto terá vendido Ovídio até hoje? É apenas uma questão de tempo, porque os bons leitores existirão sempre, ainda que poucos. O que me aborrece na Arte são os comerciantes que giram em volta dela, sem lhe tocar, porque tiram o seu alimento do efémero. Faz pouco comecei uma biblioteca na empresa onde estou. Tolstoi foi o primeiro: ao receber o livro impresso reparei que as últimas três páginas eram propaganda a lixo. Como se pode, no fim de um livro de Tolstoi, fazer aquilo? Desonestidade? Ignorância? Não faço ideia de quem é o responsável mas devia ter sido fuzilado no berço: Tolstoi de mistura com livros de cozinha e ficções. Recomecei a colecção: até agora não repetiram a indignidade. Pergunta: – Como vão os livros da biblioteca? Resposta: – Pingam e ainda bem que pingam. Se vendessem às grosas é que eu ficava alarmado. Os bons livros são para pingar eternidade fora: o Mondego começa gota a gota; a água suja basta virar o balde e encharca-nos. A água do balde acaba logo. O Mondego não tem princípio nem fim. (…)»
António Lobo Antunes, na sua crónica do último número da revista Visão.
(a leitura como um dos melhores remédios: abrir a ferida para nos mostrar como utilizar a cura, gota a gota a pingar pela eternidade fora)
Estão acabados, sim. Encostados de pé à parede com o joelho flectido, há uma mímica de percussão, de quem vê uma ruiva (Florence Welch, Florence Welch, Florence Welch) a gesticular canções entoadas ao ouvido. A máquina essa, que a acompanha, dá-lhe o sumo necessário aos nossos meatos acústicos externos. Mas é a ruiva de olhar inebriado que nos permite alienar disto tudo, algo vago que nem o calor intenso de pré-ebulição consegue deslindar. E a ruiva, aquela ruiva, reiterando «the dog days are over, the dog days are over». Batemos palmas. Por uns minutos, estamos acabados, sim.
Em relação a esta irmandade das tesouras, tomando em linha de conta a bagagem de dois álbuns por muitos colocados no contexto do glam rock e do pop, já ouvi de tudo: desde alarves a apontar o timbre larilas do vocalista masculino, o conteúdo fútil das letras, os visuais pindéricos, um pop frouxo até às melodias citadinas das grandes metrópoles, aos acordes dificilmente esquecidos nas pistas de dança de muitas discotecas e de outros tantos palcos de karaoke. Tudo, ouvi e li tudo que possa existir. Eu mesmo enveredei por tentativas, todas elas frustradas, de acompanhar com as minhas próprias cordas vocais a I Don't Feel Like Dancin' . Mas, porra, ao terceiro álbum, estes sujeitos criaram uma monumental música pop, digam o que disserem. Atrevam-se.
14. os gelados de baunilha e as cores da melanina.
Tão geladas as amígdalas pelo sabor da baunilha, mar de banhos e de luz em camadas córneas (a pele é muita, muitas vezes, somos tantos, tantas vezes) Eu quis explicar-lhes a cor da melanina, as tonalidades do espectro que o corpo é, mas de nada sobrou da ideia de querer alargar o leque das férias avesso à intelectualidade do ser.
São Pedro de Moel foi o nome de uma delas, temos areia empacotada para o confirmar, como esquecer esse tempo, cálice de quimeras, à beira-mar com o mundo cálido a hesitar?
Eu escrevia tanta palavra, imaginava-me na medicina, fui-me curando nesses retiros do calor pelo país rectangular. Morenos voltávamos à condição, hoje regresso à bata branca, e voltamos ao rigor do ano para a formação do que se é com esse Agosto na ideia, esses mergulhos sem consciência.
Saiu hoje o novo álbum dos Arcade Fire, The Suburbs. Convém avisar que, após uma única audição completa, estou novamente indeciso. Vamos ver e ouvir, ver e ouvir.
... ando perdido,por mais que vasculhe pelos recantos da vida.
Ou não os chego a revelar, ou a vida talvez não tenha recantos.
Nos recantos é que guardo os segredos mais preciosos, quais tesouros no fundo do mar, coisas que aos outros não dizem nada e que para mim são mais que barras de ouro num cofre bem selado, na Suiça. Como o tal tesouro no fundo do mar, os segredos são inacessíveis à maioria de nós, salvo àquele que o possui e sabe bem onde o tem guardado. Aceder a essa riqueza oculta, é bem mais simples que mergulhar num oceano e resgatar o perdido baú. Revelá-lo... bem, aí o cenário já se reverte. E reverte porque, não sendo excepção, tenho se vencer três forças: a gravidade, a impulsão e os outros. Se a gravidade e a impulsão andassem de mãos dadas, sorte a minha. Porém, isoladas, são barreiras a vencer, a gravidade aquando do levar o baú para terra, a impulsão quando pretendo alcançar o fundo do mar para agarrar o meu tesouro. Os outros, são aquela força que tenho de vencer, uma vez tendo o baú em terra. Apesar destas contrariedadas, uma vez existindo segredos, existem recantos.
Portanto, como para mim é inconcebível uma vida sem recantos, o mais provável é não os conseguir alcançar com o fim de revelar, ou porque estou a seguir o caminho errado, ou porque não sei onde ficam esses cantos escuros e recônditos. Ainda não pensei.
Bachiatari, Cluni, Ubirajara, Adegesto e Hermenegildo, um coisa vos digo, com vocês essas forças estão atenuadas (e eu tenho de me esforçar menos). Por isso, dedico-vos estas palavras e aproveito para deixar outras de saudade e revelar um dos meus segredos:
Todo o coração é de corda, e não há braços suficientemente grandes que possam dar corda ao próprio coração que os sustenta.
Na chegada dos pólenes a bicicleta a subir na direcção do sol. As articulações que no Inverno rangiam sons sinoviais de esquecimento do movimento, despertam orquestras de pirilampos nocturnos. Nesses dias mais longos que a noite começávamos sempre por ser mais novos.
Os joelhos esfolados com consequente sermão das mães tinham mais vivacidade que a memória da geografia dos rios naquelas mesas da escola espelhadas nos olhos cansados. E o suor da correria era melhor que anti-inflamatório.
Inchados muitas vezes nas batalhas com os enxames de abelhas ignorávamos os mecanismos das alergias, o desenho do corpo, a existência da responsabilidade futura de correctas gincanas. Sabíamos tanto de traquinice como hoje dos numerosos ligamentos, das cápsulas, dos meniscos, da irrigação das áreas de acrobacias doridas. E ainda agora o Verão chegou ao nosso pensamento antigo de criança para nos fazer rejuvenescer um pouco, um pouco de vida para esbanjar.
São eles que vêm ao nosso encontro, mais do que a distância que percorremos na errante tentativa de os alcançar, tal vos garanto, caros dois leitores. Há uma viagem que não está terminada - a procissão ainda nem chegou à sua metade; no mais que podemos clarificar, a bem dizer se diga que este é o intervalo merecido para o clube. Não fugimos da responsabilidade adquirida (existe?), e nem hesitamos na hora da confissão: sim, isto enveredou numa quietude tímida. Uma parcimónia, disseram-nos, de quem parece andar com pouco para dizer. Errado, errado, errado, caros dois leitores. A gestão do tempo que se tem para transmitir o que se tem para dizer é que desencarrilou numa deficiente autonomia da relação espaço & tempo & outras obrigações. No fundo, a nossa justificação cai sempre nesta mesma lengalenga. Não haja fogueira preparada para a nossa combustão, assim esperamos, caros dois leitores. Estes dias são agora a errante tentiva de uma não existência exterior, apenas a justificada existência interior, do retemperamento freático. Diria Mia Couto: tempo de brincriação da criança. Pousar o estetoscópio, os tijolos com a topografia do corpo padrão, das sequências repetitivas do nosso genoma, do reforço positivo das nossas boas intenções, das defesas além-sangue, da resposta à fisiologia do medo e, para o fim onde tudo tende, a constituição dos tecidos aventurados. E siga a marinha para diante do que foi ontem.
Melodias que tresandam a Verão. E a mudança de paradigma: uma banda inteira enfiada num laptop, onde carradas de sintetizadores, loops mirabolantes e algumas linhas suaves de voz dão o mote para a frescura auditiva de uma época quente: somos familiares que presenciam o nascimento do Chillwave. Cada música uma fotografia de lugares comuns, de tentativas de decifrar os espelhos baços em que a nossa imagem incide. No fundo, melodias que induzem em nós uma ilusão de telomerase: uma faísca de eternidade, porquanto sabemos que eterna é a ideia de sermos eternos, enquanto eterno for perene o pensamento do eterno. E não se esqueçam dos chinelos e da toalha.
* nome das músicas no sentido dos ponteiros do relógio: Belong; You'll See It; Feel it all around; You and I.
Amor, amor, amor, como não amam os que de amor o amor de amar não sabem, como não amam se de amor não pensam os que amar o amor de amar não gozam. Amor, amor, nenhum amor, nenhum em vez do sempre amar que o gesto prende o olhar ao corpo que perpassa amante e não será de amor se outro não for que novamente passe como amor que é novo. Não se ama o que se tem nem se deseja o que não temos nesse amor que amamos, mas só amamos quando amamos o acto em que de amor o amor de amar se cumpre. Amor, amor, nem antes, nem depois, amor que não possui, amor que não se dá, amor que dura apenas sem palavras tudo o que no sexo é o sexo só por si amado. Amor de amor de amar de amor tranquilamente o oleoso repetir das carnes que se roçam até ao instante em que paradas tremem de ansioso terminar o amor que recomeça. Amor, amor, amor, como não amam os que de amar o amor de amar não amam.
De quando em vez, aparece o chamado indivíduo desvio-padrão, alguém que se nota à légua que gosta de ultrapassar a pasmaceira normal pela esquerda. O país precisa destes indivíduos como pão para a boca. Um deles é o B Fachada, o melhor cantautor iniciante e em desenvolvimento neste pedaço de terra. Olho para ele como o maestro da tragicomédia, alguém que abana o chinelo no compasso da viola, na companhia da bela poesia rasgada em cochichos da urbe e da aldeia. Há muito, confesso, que não via na música portuguesa quem pegasse no povo desta maneira para o levar ao colo nas suas músicas. Mais interesante ainda é que o B Fachada, tal como havia prometido, disponibilizou gratuitamente o seu novo disco de Verão, o EP que dá pelo festivaleiro nome de Há Festa na Moradia. Para o obter, carreguem aqui. E façam um favor a vocês próprios e procurem o resto da discografia do homem.
Estirado sobre a cama um livro aberto nada mais é que um livro aberto ainda que, para nosso bem, porta de entrada de múltiplos mundos.
O que não é regular é esta falta de alelos nos sonhos, essa incapacidade de nós vivermos outro como se um qualquer outro fosse nós.
Pelo que a contínua imaginação positiva a insuflar-nos o córtex de dendrites apelativas terá o condão de nos fazer bocejar sem medo, e em qualquer apneia obstrutiva dos sonhos virão esses outros depositar-se nos ponteiros de nós.
A casa tem o peso do silêncio de quem lá vive. Não só madeira comem as térmitas, mas algum do silêncio vai com elas também, enquanto nós as ajudamos. É nessa digestão dos lugares comuns que o quotidiano vive esfarrapado na compaixão dos dias para os quais não temos paciência, destreza ou o maneirismo adequado para a rebelião, e por isso nos dizem, aqueles com um monóculo nas páginas das estantes, - Os compartimentos da casa são jardins ocos, E se ausente é a matéria, de que é feita a casa, afinal?, talvez os alicerces sejam então um produto de arquitectura banal, rarefeitos pelos interstícios fulminantes da nossa vulgaridade, verdade que são, só pelo cálcio dos ossos que vai invadindo a medula, não nos chega perguntar, - Se o jardim é oco, que é feito do jardineiro?, Perdido andará ele pela selva urbana, com a ciência ignorante, sem qualquer pressa de chegar longe, amparado por um guia deitado ao seu lado, pois sabem os dois que não há como avançar, apenas que, entretanto, há uma altura na vida, dessas várias lotarias, em que o esquadro, o transferidor, a régua, a biologia, a física de nada valem para o cálculo da nossa posição no cosmos, de maneira que, se perguntarem, respondo, - Não há lugar melhor que uma ilha deserta dentro de casa, Concluindo, claro, que se o silêncio é maior do que nós, se há mais vácuo que portas na irrigação das estirpes que povoam a nossa personalidade, não custa, nunca custa, enfim, fechar os olhos, fechar as narinas ao ar, nada ouvir, nada sentir, nem um esboço de paladar, para esse jejum intenso dos nossos sentidos nos revelar a história contada pela filogenia do amor que nos deram, algo assim, - Juro que não há nada, nada melhor do que a casa onde vamos morrer.
Este texto é dedicado a um amigo, daqueles que nos ajudam a mirar o início e o fim das coisas, estando nós no meio delas.
Cristiano Ronaldo: uma versão da Virgem Maria, à século XXI.
Sorte a Daquela senhora, porque o acordo que fez não teve oportunidade de vir ao de cima na altura, má sorte a do "capitão português" porque para seu azar, ou para seu bem se a sua intenção é alterar o status quo, existem media.
Uma coisa é certa: para limar qualquer aresta, "Falem com o Queiróz!". E preparem-se, pois se para o dito cujo ter filhos é como o Ketchup, vêm aí as escolinhas da equipa CR9. Quase sou tentado a apostar que estará sedeada na África do Sul. O tempo o dirá, compinchas.
É verdade, o sistema surround foi mesmo devolvido. Vuvuzelas? O que aconteceu ao homem da corneta da bancada central do estádio e aos cânticos insultuosos entre adeptos? Quererá Platini ensurdecer o Mundo numa tentativa de impelir a selecção francesa por meios que não uma mão de Henry? Náo percam o próximo episódio, porque nós, também não.
(E tudo explica, como é que a Alemanha perdeu a guerra. No Dia D, os Aliados entraram na praia de Normandie ao som de vuvuzelas. E nem um tiro foi disparado.)
Vuvuzela. Adorada por alguns, enfadonhamente desprezável para os restantes. Desengane-se quem pensa que este objecto só agora foi inventado. O seu mítico poder é que só agora se revelou. "This is only the beggining". Talvez tenha que ver com o Mundial e a disseminação deste arsenal, o facto da avançada sociedade Maia prever o fim do Mundo para 2012!
Ainda há vida, afinal. Resquícios que nem a mais animalesca besta poderá dilacerar. De facto, e parando para pensar, nunca deixou de haver! Aproveitemos a oportunidade. Em breve vos contarei uma história.
Cumprimentos de um reaparecido.
Bachiatari Sensei
sábado, 26 de junho de 2010
Levanto uma folha, levanto outra. Agora um caderno. Nada. Pela terceira vez abro a capa de apontamentos, ainda que já sabendo lá não a ia encontrar lá também.
"- Onde raio a terei metido?"
Procuro num livro, numa prateleira, na estante inteira. Nada. E o meu estômago começa a apertar-se, com a sensação de perda.
E depois lembro-me!
Subo à pressa as escadas tropeçando no meu próprio fôlego e correndo por entre esta taquicardia: e ali está. Mesmo ao lado da tua fotografia. Quieta, como que esperando pacientemente que este meu rasgo de luz me levasse até ela.
E agora que a encontrei, tenho medo de lhe tocar. Tenho medo que o encanto acabe e que tudo não passe de um sonho bonito, mas finito; a minha mente avança, mas o meu corpo permanece, petrificado, a pesar os prós e contras, dando ligeira vantagem aos contras: Acho que me vou ficar outra vez pelo quase.
E viro costas em direcção à porta por onde há segundos tinha entrado mais feliz que nunca, para a atravessar na direcção contrária, mais inconsolável que da última vez que me vi nesta situação. Sim, isto é um processo cíclico em mim. Um ciclo demasiado vicioso.
Subitamente algo me detém. Não sei se foste tu que me deste a mão e me puxaste em direcção a ti, ou se fui eu que me fartei de suspiros e correrias vãs. Hoje decidi que nunca mais te vou largar.
E agarro-a, à tua alma. Agora, nem eu preciso de correr, nem tu precisas de esperar. E é assim que deve ser.
Umas escadas para subir e Santa Justa, o elevador, quieto, como todos os ascensores de esquina que, mimetizando vértebras em coluna, não fazem mais do que subir enquanto parados.
Só mais uma vez cair e a nossa medula sem conhecimento da nossa existência entre o empurra e os baloiços.
Tão precisas foram as palmadas no lugar concebido para o efeito, agora erguemo-nos sobre nós e há peso, força, tónus coordenação do mesmo lado do lado que for preciso e o elevador de Santa Justa tal como a coluna erecta sabe a gravidade contrariar.
*é a única coisa de que me consigo lembrar para corroborar a espectacularidade desta música do senhor Variações, não condenada ao esquecimento em gravações caseiras e, por isso, felizmente resgatada pelos Humanos vinte anos depois da sua morte, em 2004.
Bebendo os últimos dias que, sendo dilúvios que vêm por bem, servem também para essa destreza de denunciar mapas escondidos em armários posteriores a toda a área da pele.
Mapas de ossos, músculos, orgãos tudo assim obedecendo às proporções de dedos do pé, dedos da mão. Esta liturgia da descrição sabe-nos tão bem como a Deus soube a criação.
Em tantos cortes mínimos, fatias desse bolo humano, apetece descansar ao sábado e reparar nos pormenores dos traços imperfeitos ainda que sublimes da arquitectura deste corpo.
Já rola o Mundial de Futebol. Mais do que os incríveis inúteis, os bastidores que não interessam a ninguém, as tatuagens do Meireles, as peúgas do Ronaldo, as danças do Bruno Alves, os tás aqui tás apanhado de estupidez, os piqueniques de Carreira em riste e as horríveis vuvuzelas para provocar demência até à exaustão, o futebol é isto. Isto. Dios Santo, viva el Fútbol!
É uma pena realmente a boca seca indicativa de secreções pouco aquosas. Tal como os delírios sem cor nas alturas de entorpecimento dos movimentos rápidos dos olhos.
Estão bem aviados os pobres que da boca seca não conseguem humidificar nem a menor tira de pão.
Peçam-lhes para não ser tão simpáticos e para aprender a salivar em altas definições não sendo necessário, portanto, invocar de riso o senhor Pavlov e as suas deambulações.