segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Realidade Percebida #7

Uma sinapse. É o que basta.
Canais electrolíticos abertos, estímulos eléctricos, quimicos e até electroquimicos, uma chuva de vesículas que caminham para a auto desintegração, a distribuição ordeira e perfeccionista de cargas positivas e negativas. Tudo antropomorfismos (que condenado eu não esteja por esse requinte de malvadez histológico) da metrópole biofisiológica - complexa e harmoniosa esta microscopia cientifica que de tão infinitamente imensa que é se compila em atafulhados de diferentes tecidos e retalhos polvilhados com meia dúzia de pêlos donde emerge esta bruta macroscopia da forma humana. Já o era antes, descobrimo-lo agora e não sabemos se perpetuará no futuro. Prossigamos.
Curiosa maneira, esta, de pôr a vida (bem, ou curiosa ou tresloucada, dependendo dos pontos de vista, mas nada que me dê comichões, seja de que maneira for).
Parece que o tempo de Deus e dos Santos e a teoria do sopro da vida, cada vez se distanciam mais, e há-de surgir por aí uma Miguel Ângelo que esculpa uma tal estátua de uma bomba sódio potássio com cornos (e voltamos ao grego e ao latim - quem percebeu, percebeu). Verdade é que começam a ter cada vez menos limites estas excurssões à nano-mini-micro complexidade que nos compõe. E a este ponto, acho pertinente tranquilizar os mais velhos, pois não é isto que a Biblia prevê como Holocausto.
Bom, na prática... A base da pizza é a mesma, o que muda são os ingredientes: todo o processo estimulo-resposta acontece da mesma maneira - a despolarização, a propagação do tsunami electroquímico, a interacção com as vias aferentes para mediarem a resposta formulada pelo sistema nervoso central e... STOP! É aqui que uns comem pepperoni e outros cheeseham. Todo este processo descrito é igual num empregado de mesa subitamente requisitado por um cliente ou num militar camuflado que ouve o estalar de galhos próximo da sua posição - o estímulo auditivo produzido pela vibração da membrana timpânica. Agora, se comermos cheeseham, olhamos para o caso do empregado que esboça um sorriso e prontamente atende o cliente o melhor que pode. Se preferirmos pepperoni estamos a olhar para o caso do militar altamente treinado e com o instinto de sobrevivência no auge cujo atendimento não será certamente simpático. Pausa para divagar. O treino elitista, confere a este operacional em missão o discernimento táctico e posicional perfeitos, bem como a preparação física e psicológica para acalmar a sua respiração, baixar a frequência cardíaca, controlar o seu instinto de sobrevivência de modo a localizar a sua presa com o mínimo de barulho e movimento possíveis, munindo-o simultaneamente da possibilidade de uma descarga súbita de adrenalina que conjugada com reflexos altamente eficientes suprimiam uma qualquer investida surpresa. Benevolente que sou, ofereço-vos duas opções/cenário (para decidirem liguem 808-80-90-10 e digam-nos a vossa resposta, sendo que o mais rápido receberá uma edição do livro "Viva Melhor!"): A primeira implica uma arma de fogo - um tiro certeiro na nuca, ao nivel de C3, de uma MP5 silenciada, a uma distância de cerca de 20 metros. Brutamontes, mas eficaz. A segunda, certamente mais elitista e um pouco mais sádica, implicaria agarrar o adversário desprevenido pelas costas e traçar-lhe jugulares interna, externa e anterior, carótidas interna e externa e cartilagem da traqueia com o aço dos Deuses. Mais sujo, muito mais doloroso e demorado, mas profissional. Fim de divagação. [que não se sintam perturbadas as mentes mais susceptíveis, nem assustadas pela divagação de um velho louco. Culpem os filmes, culpem o stress, culpem o tempo e sei lá... A Manuela Ferreira Leite].
Acho que sempre se reteve a comparação desejada, de um modo mais ou menos amistoso, mas igualmente elucidativo.
Cheira-me a Oreos e há leite a aquecer, e já que a gula faz parte dos antigos pecados mortais, porque não aproveitar?
Com uma última cascata sináptica me despedirei, para atalhar que os de vós que comem à base de menús polissaturados em gorduras e ainda têm que levar com um artolas servente que tem menos modos que um gnomo descalço, purulento e maldisposto deviam ser no minímo condecorados pelo controlo moral que têm. Até lá, certifiquem-se que não ateroscleram nem arteroscleram a vossa crossa aórtica. Por outras palavras, variem a vossa casa de pasto (sem nunca irem à tasca do Aires, atrevo-me a dizer, porém).
Este e mais conselhos porventura numa outra altura que não esta, em que o cheiro a Oreo que já mergulham em leite me entram pelas narinas sem passarem pelo tálamo e me viciam emoções.

Com a habitual estima,

O Sensei

domingo, 4 de outubro de 2009

Dos debates internos

Questionava-me há tempos um amigo extra-clube (mas nem por isso menor) sobre os métodos que nós aqui utilizamos para estarmos em contacto e fazer as nossas coisas ou aquilo que vocês devem supor que fazemos (aqueles três ou quatro que se riram nesta frase deveriam ser mandados para o inferno, não antes de terem enxurradas de químicas biológicas e aulas paupérrimas de levar ao desespero ao ponto de um sujeito auto-mutilar-se, dando com um Gray no hálux e um Snell no bregma ao mesmo tempo que tenta entender a fonética do nome próprio Leeuwenhoek). Pois bem, é muito fácil dar com o clube por aí, o problema com que se podem deparar é olhar e não ver. Por muito que sejamos olhados, raramente somos vistos. Além das reuniões e excursões pedestres na Cordoaria, nos Aliados, em São Bento, na Batalha, na Ribeira, no Marquês, na Trindade e outros, também recorremos às novas tecnologias de informação: a moches e extravaganzas e a mails com nomes sonantes e simbólicos. Para corroborar tal afirmação, transcrevo a parte final de uma correspondência electrónica trocada há dias entre nós. E não me chamem mentiroso.


"Pronto, é isto. Se o debate e o intercâmbio de ideias não forem o pico do espírito académico, a universidade e todos os seus apêndices (praxe incluída) não fazem qualquer sentido. A universidade deixa de ser a semente germinativa da novas gerações enquanto formação de cidadãos conscientes, activos e empreendedores, para passar a ser uma qualquer fábrica em série de produtos académicos diplomados embora acéfalos. A universidade utópica seria aquela que reunisse, em cada um dos alunos, as qualidades dos malditos - o que vamos tentando ser. Somos nós a resistência.

Abraço,

Espinoza"


Hermenegildo Espinoza

sábado, 3 de outubro de 2009

Imagiologia (quase) médica #5


Até ver é a nossa mãe mais antiga. Cumprimentem a senhora Ardipithecus ramidus, amistosamente conhecida por Ardi e que vagueou pelas terras da actual Etiópia, quiçá com uma ou outra inquietação no alto do seu um metro e vinte.




Hermenegildo Espinoza

(aviso aos leitores: para terem acesso aos restantes posts referentes a cada tópico, qualquer que ele seja, basta carregar nas etiquetas no final de cada post.)

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

"Não contaminem a água!"


Caros compinchas,

Não sei se já é do vosso conhecimento, mas sou um grande discípulo da Teoria do Caos.

Se há algo que supere a Incerteza de Heisenberg, digo-o, com toda a convicção, é este paradigma. O caos comanda o mundo, meus amigos. Comanda o gole do rico chá do Sensei, cujo aroma activa di pronto o hipocampo e alude a tudo o que é memória de lutas e conquistas (deixo-vos na ambiguidade da palavra - especialmente a ti, Bachia...); comanda a gataria do Espinoza, cujo miar conjunto jamais se compara aos uivos quase autênticos do Ubirajara ou até mesmo ao canto "arrouxinalado" do Pataca.

Adiante. Como toda a regra tem excepção, venho, por intermédio deste post, louvar aquele ilustre peito lusitano que do acaso (ou ao acaso) virou o rumo da malária. Graças a este eco-homem (supõe-se) a taxa de mortalidade por malária em Angola viu-se reduzida este ano. Na verdade, neste preciso momento, ouço um som de baixa frequência oriundo de Angola (semelhante ao que se diz ouvir no México) que, traduzido de decibéis, fica qualquer coisa do género: "Já nao quero massacrar-vos com detalhes! Não contaminar a água já não é imperativo! Façamos a dança da Chuva". E com as miudezas molhadas, como resultado de uma exagerada actividade apócrina, por entre saias de folha de bananeira e soutiens de coco, louvam a grande descoberta: Mosquito da malária tem gene que o ajuda a resistir à doença e pode ser importante para os humanos .
Imagino o que vos vai pela cabeça... "então, e o que é que se passou com a fé daquele homem para quem a pureza da água era tudo?" A isso, responderia perguntando o maldito Pessoa (que se ainda fosse vivo, era com certeza cá um dos malditos,se bem que antagonista do Cluni, sublinhe-se): "Como então, senão por doença, cair e reincidir na anormalidade de querer pensar hoje a mesma coisa que se pensou ontem, quando não só o cérebro de hoje já não é o de ontem, mas nem sequer o dia de hoje é o de ontem?"
*Bachiatari, não te admires se o aroma do teu chá nunca for o mesmo. Se isso acontecer, acredita, estás de perfeita saúde.
Pitt

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Il Diva

O que se pode ver de uma janela?
Neste momento um edificio cheio de tantas outras, mas centro-me numa em especial. Não pela cor, não pela forma, obviamente pelo conteúdo. Singela, modesta, pequenina donzela esta, com que me deparo desde há um par de dias. E uma mão cheia de vós, que ledes isto, ter-me-á já injuriado pelo pensamento de perversão pela certa, enquanto uns tantos outros me gabam a vida e a vista e possivelmente tentam adivinhar onde moro para fazerem malas e ocupar o T2 de baixo.
Antes de mais, que ninguém se meta neste buraco, que além de velho tem um senhorio velhaco territorial e tão pobre em espirito e afazeres que não hesita em invandir privacidade alheia sob desculpa de "revisão do estado das coisas". Por outro lado, os apartamentos deste andar são os únicos dotados de janela traseira, virado para o beco de trás e ambos estão ocupados. Circunstâncias amargas da vida, ou uma delas pelo menos. Bem, verdade é que esta tal vizinha que observo é no fundo cúmplice desta taradez, qual exibicionista semi-nua que entre risinhos e espalhafato insiste em abrir as janelas pela manhã com o máximo de barulho possível e com o minimo de roupa vestida. Não sei se a nudez é obra verdadeiramente sua ou dos namorados novos que pernoitam na sua casa (e pernas), todos diferentes, mas igualmente indiferentes à sua publicidade. Nunca sendo rude, acho que a malta agradece e a Musa não se importa. Pelo menos o Rui já convidou dois amigos para a manhã de cinema e nem assim a nossa actriz se coibiu, o minimo que seja. De facto, acho que foi o dia em que deu mais de si ao mundo do espectáculo. Será que a extensão da sua nudez é proporcional à sua audiência? Aqui está um bom desafio. Para já, vou estando seguro que a nossa actriz não nos falhará, já o Rui... Bem, fiquemos assim!

Com toda a estima,

Bachiatari Sensei

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Devaneios Meditacionais #8

"O princípio da maximização do espaço e dos materiais."
Teoricamente, definição salta à vista e nem é preciso ser um exímio anatomista para o entender. Não obstante, insisto em dissecá-la em palavras miúdas, para tornar fácil a sua compreensão: principio segundo o qual determinado local é aproveitado ao máximo para atafulhar com as mais variadas coisas e dar trabalho ou motivos de chatice a quem "abrir a porta" a seguir - por porta leia-se corpo.
Bem, por um lado este fio de raciocínio ajuda-me a compreender todo um motivo de orgulho de alguns em ser dotado de "pequenas bananas, ainda que grossas". Nada mal, para altruísmo.
Mas depois surge-me a questão... "Porque raio é que o Milka Choco Swing tem que ter mais calorias que um pastel de nata? ". A resposta, essa, surge num ápice: Alpes! A mania dos suíços se meterem em nevões e viverem 8 meses lá no alto com temperaturas abaixo de 10 graus negativos, mas ao mesmo tempo terem esse dom de manipular o néctar divino que me embeiça desde jovem e me borra cara e barba, de uma maneira tal que até engelho os dedos dos pés de cada vez que as papilas gustativas dançam a lambada ao som de edulcorantes e extracto concentrado do cacau. Yummy! Por eles, é juntar o útil ao agradável... O docinho e o gordinho para superar o Invernozinho. Para mim, uma fuga ao fisco para os contrabandear a baixo preço e uma vida maluca de corridas anti-calóricas, a qual a glutationa começa a ter dificuldade em acompanhar. Parágrafo.
Hey, espera lá... Mas as bananas deficitárias em nada têm que ver com o doce Milka...
Desenganem-se, há alguém que sempre consegue descontextualizar conversas a este ponto, o de nos perdermos e ficarmos atónitos e indecisos entre a falta de vontade de responder ou o impulso de virar costas e dizer adeus. "A quem lho serve, que enfie o barrete".

Com toda a estima,

Bachiatari Sensei

sábado, 26 de setembro de 2009

Devaneios Meditacionais #7

Neuroanatomia. Com isto abro o pequeno devaneio que vos trago. Por definição "é o ramo da anatomia que estuda a organização anatómica do sistema nervoso", e na prática? Há quem concorde, é verdade, eu próprio talvez o venha a fazer, mas de momento acho mais aplicável "ramo da anatomia que dilacera e mói toda uma organização nervosa pré concebida e que se, de facto, se entendesse patavina do que descreve poderia vir a ter utilidade clínica". Parece-me justo.
Enfim, fazendo um diagnóstico à coisa, quase que se poderia chamar Síndrome de Mariquicis Facultis a toda esta panóplia "psiquico-patológica". O irónico, é que ainda agora começou.

Bom, há que soltar as feras e a este ponto tornar esta conversa realmente interessante (nunca descurando a relatividade inerente a qualquer matéria - jamais desrespeitar os ensinamentos do Mestre Einstein- e por isso admito excepções). A verdade é que o nosso caro Adegesto Pataca se lançou à aventura e, dando corpo e experiência ao manifesto, ingressou no mundo da música, revelando dotes vocais nunca antes vistos e uma presença em palco verdadeiramente extasiante - diria que capaz de relegar a atenção conquistada pela sensualidade do Toy e pelas piadas porcas do Herman para um baú de madeira revestida a titânio de Goblin e selado com pingo de solda do mais resistente, seguidamente carimbado pelo Rei Artur e selado com o anel papal.
Pela sua modéstia de artista do povo, ele negá-lo-à, pela certa. Cabe-me a mim, aos maçónicos que comigo estão e aos que quiserem cá chegar profetizar por entre esquinas e vãos de escada que o músico do povo chegou para nos salvar.

Com toda a estima,

O Sensei

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Reencontros & estiramentos



Não há melhor conforto do que regressar de um período de férias pleno de sapiência da preguiça e de outras miudezas e, invariavelmente, reconhecer a presença daqueles seres constantes no nosso pensamento e nos vários projectos com que nos deparamos. O clube tem sido, desde o início, a ambivalência e o amparo de um grupo de amigos ligados por pequenos fios, sinapses tão ténues que não raras vezes constatamos pensar simultaneamente na mesma coisa. E, contudo, heterógeneos somos e ainda bem que tal acontece. As nossas personalidades quase bipolares, imersas num quotidiano citadino, permitem um enquadramento nas várias geometrias da realidade. Não somos substância superior ou matéria arrogante: convivemos com os nossos imensos erros, defeitos, traços irritantes de personalidade e igualmente sofremos, como o maldito Darwin vaticinou, da selecção natural e sexual com que nos agarramos aos vértices baços da sociedade. Porém, tendemos a trabalhar como um sincício funcional: almejamos os mesmos objectivos, intrigam-nos as potencialidades da Ciência - alicerçada nas ciências médicas e de largo espectro nas demais áreas do saber - procuramos, dentro dos nossos gostos, discutir e produzir arte em todas as suas expressões, tendo como base essencial a escrita e a leitura. Muito do que até aqui se desfiou é uma pequena amostra do universo de hipóteses por nós testadas em todos os âmbitos. Poder-se-ia rotular isto como um curriculum vitae do rasto das nossas pegadas, e, parafraseando, o caminho faz-se caminhando.
Com agrado nos voltámos a reunir e as ideias não rareiam, pelo contrário, irromperam num surpreendente alinhavar de ideias-esboço. Outros projectos, desta feita paralelos, assomaram aos nossos planos. Nos próximos tempos andaremos a tentar conciliar todas estas novas variáveis nas nossas vidas e permaneceremos, na medida da nossa disponibilidade, a destilar aquilo que sabemos e que nos aprouver partilhar. Paciência impõe-se, e podemos confessar que temos ideias ao nível do conteúdo do clube, da sua imagem e das suas fronteiras. Na devida altura, quem apreciar esta aventura que tanto tem de ridícula quanto de ambição, poderá vir, como o tem feito, esmiuçar o nosso promontório de bites e bytes, zeros e uns.
Da reunião magna, a acta lavrada ressoa uma plêiade de entusiasmo e uma miríade de sorrisos. Contam as paredes que houve quem de lá saísse com cãibras e estiramentos ao nível do músculo risório, do levantador do lábio superior e do zigomático maior.
Os nossos cumprimentos mais amistosos, em especial do Cluni que tem andado estafado com o estudo minucioso da anatomia feminina, sem fronteiras aparentes.




Hermenegildo Espinoza

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Gira-discos #9

Vampire Weekend - Campus

Ultimam-se arrumações, retira-se o pó às mentes menos usadas (um pano seco basta, dizem), reformula-se o guarda-fatos para as intempéries do inverno, gasta-se dinheiro que dói nos bolsos, novos beijos são distribuídos, abraços e "olá-tudo bem". Novas sementes germinam, capas negras nos ombros, regresso ao café matinal e às piadas íntimas. Sejam muito bem-vindos à ordem natural das coisas. Ao fundo, a estátua do egrégio Abel sentado numa poltrona mirando-nos. Eis para alguns o verdadeiro Campus.



Hermenegildo Espinoza


(Vampire Weekend, o glorioso regresso da camisa por dentro das calças)

sábado, 12 de setembro de 2009

Del médico que no sabe más que Medicina, tem por cierto que ni Medicina sabe*


A História vive de remodelações, de arquivamentos e, não raras vezes, do modo oblíquo de tresler o que é dito e escrito. No debate José Sócrates vs Manuela Ferreira Leite, enquanto replicava as acusações de não perceber patavina de economia, o primeiro-ministro citou uma frase do conceituado médico Abel Salazar (1889 - 1946) que “aparece na Faculdade de Medicina do Porto e que diz: o médico que só sabe medicina, nunca será um bom médico”. De facto, o aforismo é ligeiramente diferente: “o médico que só sabe medicina, nem medicina sabe” e aparece no átrio de entrada do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto, atrás do busto do egrégio cientista. O engraçado disto tudo é que a frase tem sido retirada, ao longo dos anos, a outro grande médico e filósofo espanhol, José de Letamendi (1828 – 1897). Ao que parece, Abel Salazar utilizava a referida citação como seu lema de trabalho – basta ler a sua biografia e constatar a sua personalidade multifacetada – e o tempo acabou por lhe atribuir (em larga escala, principalmente no nosso país) a autoria do pensamento, com a colaboração em geral das pessoas na linha do quem conta um conto acrescenta um ponto. Pelo menos é aquilo que é transmitido na cadeira de História da Medicina e aparece mais do que certamente no exame para tramar os mais distraídos, que os há.


*retirado do documento "Medicina na Beira Interior, da Pré-História ao Século XXI" de vários autores, dos cadernos de cultura da Universidade da Beira Interior. Ler, em especial, da página 57 à 59, da responsabilidade do professor Romero Bandeira, agregador de multidões de ausências nas aulas teóricas.



Hermenegildo Espinoza

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Leituras & Remédios #4


52

(..)

"I bequeath myself to the dirt to grow from the grass I love,
If you want me again look for me under your boot-soles.

You will hardly know who I am or what I mean,
But I shall be good health to you nevertheless,
And filter and fibre your blood.

Failing to fetch me at first keep encouraged,
Missing me one place search another,
I stop somewhere waiting for you."

1855

_____________________________


52

(...)


"Entrego-me ao húmus para crescer da erva que amo,
Se me queres ter de novo, procura-me debaixo da sola das tuas botas.

Dificilmente saberás quem sou o que significo,
Todavia dar-te-ei saúde,
E filtrando o teu sangue dar-te-ei vigor.

Se à primeira não me encontrares, não desanimes,
Se não estiver num lugar, procura-me noutro,
Algures estarei à tua espera."


1855



Walt Whitman,
excerto do poema 52, páginas 142 e 143 da obra "Canto de Mim Mesmo", edição bilingue (Inglês e Português) das edições B.I. - Biblioteca editores Independentes".


(a leitura como um dos melhores remédios. um manual para negar a futilidade. nenhum átomo é frívolo. é que o nosso centro de massa está carregado de multidões.)


Hermenegildo Espinoza

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

uma questão de essência médica


11:38.


Eram os digitos que marcava o relógio digital estampado defronte da marquise onde jazia, quando recuperei a consciência...


Apesar das recordações serem vagas, as sensações processadas pelo corpo que me suntenta eram incontestáveis: em primeiro lugar, o raio catódico gélido que teimava em marcar presença na minha mão e se projectava braço acima, uma espécie de estria catabática, e, em segundo, o latejar estridente na minha cabeça resultante da queda desamparada no bloco.

Era, indubitavelmente, o casamento perfeito: hematoma e saco com gelo.


O vento estava a ser tudo menos ponteiro.





Havia me levantado à hora certa e ainda antes das 8h me encontrava no Hospital. Não queria falhar neste meu 1º dia de estágio (supostamente 2º... se considerarmos que esperar 4h, para ter uma conversa de cinco minutos com o cirurgião a combinar o dia seguinte, é estágio).


Conversa para um lado, apresentações para outro e tudo estava a ir de vento em popa.


- Na próxima porta virás à direita. É lá o vestiário masculino.


Sentia a adrenalina correr-me os vasos e o entusiasmo era enorme. Com efeito, de uma hora para a outra, dou por mim trajando umas vestes verdes, uma touca e uma máscara. Outro passo em frente e encontrava-me num lugar de sonho: o bloco operatório.


O equipamento, a enfermeira instrumentista, a enfermeira de serviço e o seu colega que se estava a integrar, os cirurgiões, os instrumentos, a temperatura controlada, o material esterilizado pronto a abrir, a médica anestesista, os medicamentos, a marquise de última geração, os focos e os odores faziam daquela sala um mundo à parte, porém fascinante.


Voltei-me para a parede e, para matar a curiosidade, estavam agendadas as cirurgias que se fariam nesse dia.


"Cancro cólon rectal - Dr X, Dr Y e Dr Z"


Era o meu dia de sorte. Apesar da cirurgia ser longa , ia assistir a um cateterismo central, à aplicação da epidural e à cirurgia propriamente dita. Ia ser uma manhã longa e singular. Por isso, até me tinha sido dada autorização para sair e comer durante o acto.


Horas de começar a cirurgia.

Paciente colocado na posição fetal.

Médica anestesista dirige-se ao dorso do paciente.

Passa uma espécie de álcool iodado na projecção cutânea das vertebras lombares e arredores.

Injecta-lhe um líquido que priva o paciente de sensibilidade cutânea nessa zona.

Paira uma mistura de ódores no ar que pareciam anestesiar-me mais a mim que ao paciente.

Insere um catéter na pele (entre L2 e L3, suspeito)

...

...

...

...tudo negro. Não me lembro de mais nada. Ainda nem tinha saído para comer e já estava a "fazer la siesta".



Galli Pitt





quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Gira-discos #8 especial

The Beatles - You Never Give Me Your Money + Golden Slumbers + Carry That Weight + The End


Hoje é o dia dos Beatles. Foi lançada toda a discografia remasterizada destes senhores, juntamente com um jogo para consola (que não interessa nada, o que interessa é a música dos Fab Four). Não é preciso acrescentar rien de rien. Por isso, tomem lá com estas quatro músicas do famoso Abbey Road, que data de 1969 (40 anos!) e que ainda me faz perder as estribeiras que nem um adolescente cheio de acne e testosterona para dar e vender.





Hermenegildo Espinoza

sábado, 5 de setembro de 2009

Gira-discos #7

Manuel Cruz (Foge Foge Bandido) - Borboleta

Agora pára de fazer sentido. Entre borboletas e furacões temos alterações infímas. O que éramos há um ano? O que seremos daqui a uma semana? Nada sempre nos disse muito. O interessante do actual quotidiano, creio, é interpretar o silêncio das casas, o silêncio da noite, o silêncio que, noutros mais noutros menos, irrompe à medida que tentamos adormecer. Esse silêncio ensurdecedor, admitamos, revela-nos quase tudo o que desejamos saber. Contudo, o problema é conseguir ouvi-lo e submetê-lo ao raciocínio objectivo. Enquanto não o conseguirmos - ou, se o ouvimos de facto, como saberemos que estamos a interpretá-lo correctamente? - permaneceremos nesta escada rolante de sentido único, tentando, com as devidas variações, organizar o nosso caos. Vale o esforço, acredito. Por enquanto, reconfortemo-nos com a ideia segura de que vivemos entre borboletas e furacões. E, se calhar, afinal nunca fizemos sentido algum.

"Tu és o teu mundo
Tu és o teu fundo
Tu és o teu poço
És o teu pior almoço
És a pulga na balança
És a mãe dessa criança
És o mal, és o bem
És o dia que não vem

Tu és tu sempre que tu és
És mesmo tu quando pensas que és outra coisa
Tu pensas que não, mas tu és mesmo bom a ser sempre quem és"

Hermenegildo Espinoza



Caro Sensei, como me arrependo de não ter ido ao festival, especialmente para deliciar-me com Manuel Cruz, esse foge foge bandido que concebeu as 80 sublimes músicas do "O Amor Dá-me Tesão/Não Fui Eu que Estraguei". Deu-me uma das minhas crises agorafóbicas e resignei-me a gritar, aqui pela casa, impropérios para os meus gatos - coitados deles que não tiveram culpa nenhuma. Diria o meu avô que preciso ainda de umas quantas sopas de cavalo cansado.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Imagiologia (quase) médica #4


Ora vejam o pobre garoto - sorridente como tudo e com umas bochechas rubicundas que sugerem já uma taxa de alcoolemia superior para ao permitido por lei se for conduzir, o que parece provável - a barbear-se como se não houvesse amanhã! Com a espuma bem distribuída, empunhando a gillette com lâmina segura. Olhem para ele! Ainda há pouco deve ter saído do útero materno e reparem na pinta do sujeitinho. Aposto que ainda nem o esfincter anal controla, para pena dos pais que lhe devem mudar os resíduos tóxicos e pôr um pouquinho de halibut para não queimar a pele do traseiro.
Não, o que me enerva não é este marketing/advertisement (ainda que muito antigo da famosa Gillette) utilizar um bebé como maneira de cativar a clientela. O que me enerva, isso sim, é o raio do miúdo com uma lâmina daquele tamanho não ter sequer um corte na face, enquanto eu ando aqui com cicatrizes na cara, encarando cada barbear matinal como o último da minha vida, não vá eu esvair-me em sangue com a minha agilidade de mãos. Talvez venha daí a minha tendência para deixar crescer a barba. Porquê, meu Deus, porquê?



Hermenegildo Espinoza

O que está para vir #1


Dizem que os japoneses são espertos e os maiores ases na electrónica.

É fazendo jus a esta afirmação (nem sempre verdadeira, é certo) que apresento o protótipo da nova cadeira de rodas nipónica, à qual só faltam mesmo os propulsores a jacto e meia dúzia de néons para parecer uma nave espacial.

Há quem chame a esta menina, Rodem de nome, um robot, facto desmentido por alguns dos "seus pais" que a entendem demasiado descomplexa para o efeito, referindo no entanto que a sua complexação será um projecto bastante capaz, o que desde já vos deixo à disposição de ler aqui.



Com toda a estima,



Bachiatari Sensei

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Bachiatari Sensei #8

Esta manhã substituí o cada vez mais hábito de ócio por um passeio matinal como há muito não fazia.
À saída do duche e com o devido cuidado aparei a meia dúzia de "irrequietos" que insistiam em retirar algum brio à barba farta que me brota do queixo e abandonando o look desmazelado a que me começava a apegar decidi pela primeira vez encafuar o velho esqueleto numa fatiota (com camisa e tudo) e usar um chapéu de aba bem ao estilo dos anos 60. Verdade, diga-se, é que nem desgostei de todo.
Precavido e nunca desleixando a sabedoria quase exprimental, troquei o autocarro - que àquela hora aparentava um misto de lata de sardinhas com compartimento selado e de dificil circulação de ar - pela aparência bem mais airosa (e certamente mais confortável!) de um desses comboios urbanos, quase mundanos tal é a variedade de nacionalidades neles presentes por vezes. Digamos que não me arrependi. Em parte.
"Quando a esmola é grande, o pobre desconfia", não é o que dizem? Pois, e têm razão! Logo de seguida senta-se um desses ganapos de tenra idade que têm por hábito guinchos estridentes e um disparo de palavras a tal velocidade que já não são para a minha cabeça. E ele pulava no assento, bocejava quase hiperbolicamente até se lhe antever o cardia estomacal, empinava rabo e pernas em danças demoníacas, sempre vigiado pela mãe impávida e serena sentada na cadeira ao lado a conferir a simplicidade... de um talão de compras e dos descontos que poderia ter na próxima cruzada ao mundo dos supermercados, claro está!
Fulminei com olhar esse macaco irritante que havia de me sujar o fato novo enquanto cerrava dentes e mente ao impulso que me impelia a atear fogo aos talões e ao próprio supermercado.
Agora que penso, estou parecido aos velhos que em jovem criticava: Intolerante e irritadiço, mas ainda não gágá. Bem, mas o fato era novo.

Com toda a estima,

Bachiatari Sensei

Informação

Há coisas que me chateiam caramba. Se as há...!
Um delas é nada mais nada menos que escrever um texto coerente e do qual desfruto enquanto o faço e acabar por constatar que ao submetê-lo à publicação ele é pura e simplesmente apagado por um erro informático qualquer de um sistema cibernético de porcaria!
Ora bolas, é que nem há Ninfas da blogosfera prontas a ser evocadas para ajudarem a resgatar o naufrago. Estou francamente à beira de um ataque de nervos, o que já de si é mau mas poderá ser ainda pior se considerarmos a idade de um velho como eu, que além de ao minimo motivo poderá sucumbir a um descontrolo intestinal de esfíncteres que já não são o que eram, mas acima de tudo tem dificuldades em controlar uma tendência quase exagerada para elaborar o palavrão, ou não se sentisse já integrado na cidade do Porto.
Francamente, isto não são maneiras!

Fulo da vida,

Bachiatari Sensei

domingo, 30 de agosto de 2009

Realidade percebida #6

Estou naqueles dias.
Curioso, dito assim. Se fosse uma fêmea, toda a gente compreendia. Sendo um homem, especialmente acabado, ou recebo um olhar de lado ou um falso julgamento de pessoa invadida por acessos de caganeira compulsivos e quase incontroláveis mediados por esfíncteres que teimam em deixar de responder à vergonha e ao embaraço públicos - como quem diz, flácidos ou incontractéis.
Evitando a confusão deturpadora dos pensamentos puros, ou pelo menos não maléficos, confesso que aqueles dias se referem ao tédio existencial de quem passa os dias sem ter que fazer (entenda-se o fazer como referente a toda a acção de lazer e divertimento que em tempos caóticos não hesitaria em querer materializar-se, qual oásis no deserto). Quase desejo o trabalho tasqueiro de servir imperiais escorridas e fritar bolinhos de bacalhau para ressequirem e perfumarem esse antro a semana toda. E olhem que pelo andar da carruagem, pouco falta.
Nem as amizades tapam este buraco, não fossem os Malditos andarem migrados pelos quatro cantos do mundo, certamente e se bem os conheço, imunes a esta sina de frustrados. Gente nova, é mesmo assim; ainda têm o sangue quente, paciência e meia dúzia de trocos no bolso para correrem mundo fora.
Bem, julgo que desta feita percebo melhor, não obstante, os mesmos rostos débeis e apáticos de outros velhos que passeiam de autocarro em autocarro, suprimindo este ciclo para "meia dúzia de canecos ou uma ida à praia ver umas moças", segundo relatam. Quem sabe, não acabe no marca passo diário de "café e meio bagaço depois das refeições e uma boa suecada tarde fora debaixo da ramada a falar da bola".
Às tantas este é mais um dos dogmas da vida.

Bachiatari Sensei

Gira-discos #6



Ultimamente parece que os dias correm neste compasso: lento e pesado, mas que avança impiedoso. Sente-se o cheiro do esforço tomar corpo no ar, prenúncio de que voltamos à carga.
As novas batalhas prometem ser ainda mais duras - e agora que penso, tens toda a razão ò Espinoza: o que será de nós este ano, face ao desespero do anterior?
Talvez isto mesmo seja a solução. Sopas de cavalo cansado.

Com incentivo a aproveitarem o que vos resta,

Bachiatari Sensei

À semelhança de Pitt, caro Espinoza, dirijo-te uma breve e mesma nota acerca da inclusão de um texto num tópico por ti criado. Resta-me dizer aos restantes que "Dead Combo" vale mesmo a pena e estiveram mesmo muito bem no Porto Ritual 2009'.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Leituras & Remédios #3



Deus transcende, simplesmente existe ou é produto da razão humana?


Eis uma questão que Saramago sente necessidade de clarificar:

"O ser humano inventou Deus e depois escravizou-se a Ele"



"O novo romance de José Saramago chama-se "Caim" e tem como personagens principais aquela figura bíblica, Deus e a Humanidade "nas suas diferentes expressões". "

Pena só chegar a Portugal em finais de Outubro...


Pitt


(desculpa-me, Espinoza, por ter feito uso do teu tópico)

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Realidade percebida #5


"- Mãe?

- Sim, filha...

- Porque é que ele está sempre parado a fazer aquilo?

- Está a pensar em coisas dele, filhota!

- A fazer aquilo?

- É a maneira dele, amor.

- Ele nunca brinca, como eu...

- Ele prefere brincar sozinho, só isso... Vá, lava as mãos e vamos lanchar!

- Hum, está bem...! Quero leite com chocol (...)"



O resto deduzem.



"Ele" - Pronome pessoal, palavra indefinida e baça, susceptível a ser personalizada por um qualquer, o qual poderá estar a ser identificado por um dedo apontado a si.

Nada que nos tire o sono.

O que nos "perturba" é o que ele está de facto a fazer. Desconhecemos a sua vida, o tipo de pessoa que é, a necessidade de apoio que necessita ou o grau de socialização da sua pessoa. "Ele". Tão simples quanto isso, apreender a sua acção com um olhar observador e inquisidor, franzir o sobrolho face ao sucedido, ponderar rapidamente, achar uma explicação lógica para o sucedido, ter pena do dito cujo e da familia - se a tiver -, sentir o pesar da consciência por um momento e a vontade de sermos bons, encolher os ombros no momento seguinte e prosseguir a nossa vida convictos de que no fundo somos sortudos e podemos aproveitar a vida mais sensíveis que nunca para com os outros e certamente mais abertos à caridade. Mas não dura mais de 3 dias. 3 míseros dias depois de vermos a reportagem, lermos o artigo, presenciarmos ao vivo, o que quer que seja, já lá vai. Acaba o período de Catarse e voltamos à velha rotina facilitista dos nossos dias.

"Ele" não. De facto, nem nota a maior parte das vezes; e se o faz trata de categoricamente transparecer um desinteresse tal que é como se não tivesse em verdade notado. Pouco se importa com olhares repreendedores dos que o não compreendem ou penosos dos que o sabem. Em nada se interessa pelo frio da sua própria baba escorrida ou pelos hematomas que a si causa. Classificado como doente pela sociedade, chumba leis que desconhece e implementa os limites do seu próprio mundo. "Ele" é assim mesmo. Inacessível, talvez, mas há quem diga, feliz.

Caminha diaramente pelos olhares contemporâneos, que assume fantasmagóricos ou sombrios por conseguir ver através deles, de quem o rotule de oligofrénico, de coitado, de vesado. No seu campo de visão contempla, pelo contrário... Hum... Sabe-se lá o quê!

Quimeras gregas que interpelam o pato Donald numa colina erguida acima do vale enublado de onde pormete erguer-se "O Desejado" cavalgando um dinossauro que tenha 3 cabeças, jurando paz aos Infiéis; Todas as estações, apeadeiros, quilómetros de percurso, sinais, matrículas de carros, de motos, marcas, modelos ou componentes mecânicos. Raciocínios matemáticos tão complicados que desafiem e lógica humana e derrubem a teoria de Einstein ou expliquem passo a passo a formação do Sistema Solar como nunca antes ninguém o fez.

Como sabê-lo, no entanto? Não há maneira certa de lhes retirar o que quer que seja. Mundo deturpado, uma ditadura implementada e controlada por ditadores da sua própria palavra e do grau de abertura aos que se dizem "normais". Mas "Eles" não o são, não. Não se interessam por o ser, também. De facto, e reconcluindo, não se interessam por nada. Sofredoras, amarguradas familias que já não esperam o reconhecimento ou a amostra do carinho espontâneo de um filho pródigo que nunca há-de regressar a casa, pelo menos neste mundo que materializamos à nossa imagem.

Havia quem falasse de um Quinto Império, havia quem pusesse um D. Sebastião a cavalagar numa outra direcção - brindo à saúde do poeta -, mas como iluminar a estrada dos que a não vêm?

Havia quem conquistasse, em tempos, Terras Prometidas e desafiasse exércitos para expandir fronteiras, mas como nos aliarmos a "Eles" para a luta contra um inimigo invisivel?



A derradeira questão: " - Nós compreendemo-los, mamã?", " - Ninguém os compreende, querida!"



Façam o favor de nunca baixar os braços.



Identificar quem são, no geral, os "eles" é já, por si só, um bom indício de que em parte nos tornamos próximos de os compreender.



Bachiatari Sensei

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Imunologia popular

Conselhos sábios e de uma preciosa utilidade da autoria de Diamantino Aleixo, deixados numa bobine para o seu neto Bruno. Neste versando sobre Biologia e Medicina, no que concerne à imunidade adquirida pela pequenada. Para mais conselhos em outras áreas do pensamento e do quotidiano - entre eles um que ensina, a quem assim o desejar, a observar de forma segura e sem alarido o decote das mulheres - basta clicar aqui.




Hermenegildo Espinoza

domingo, 23 de agosto de 2009

Bachiatari Sensei #7

"Querida, mudei a casa!". Sucinto e directo.
Dando trabalho a toda esta panóplia muscular, que apesar de um pouco enferrujada pelo ócio e teimosa pelo atrito adiposo ainda tem alguma tonicidade, erguem-se os rabos dos sofás, agarram-se os panos de felpo e mãos à obra.
Remexendo em prateleiras quase infinitas entre móveis e incontáveis maços de papéis encarcerados e aleatoriamente amontoados em gavetas, levantam-se nuvens de pó quase comparáveis a tempestades de areia, altera-se o Feng Shui, para melhor ou pior, de humilde tugúrio que nos alberga e fazem-se achados maravilhosos, quase dignos de coleccionador.
É verdade. Parece que os headquarters maçónicos desta irmandade amaldiçoada sofreu uma mudança de ares. Entre livros chamuscados do Pataca, amontoados de recortes de jornais com as mais estranhissímas noticias e pêlos dos gatos do Espinoza, inventários de inidentificáveis ingredientes do Ubirajara, cuecas e soutiens que só podem vir do Cluni, voltímetros e desenhos da mais complexa física de partículas e caixas de lâminas de bisturis vazias assinadas a preto - Pitt -, lá estava ela... A reliquía, a preciosidade das preciosidades! Uma imaculada mala de couro castanho para primeiros socorros, recheada dos mais diversos tipos de unguentos, pensos, liquidos de desinfecção, fármacos, seringas, ligas, e tanto outro material útil, repito, útil, repito, útil!
Porquê o meu contentamento? Ora essa, porque fora com essa mesma mala que principiara a minha acção salvadora! Nem mais. Ainda que, confesso, outrora mais tenha parecido um boticário ou um talho, dependendo dos tempos que condicionam, claro está, o seu recheio, é uma peça essencial no salvamento urgente. E quantas vezes, caros aspirantes a Malditos, quantas vezes terei selado um cavalo à pressa e partido com esse couro aos ombros por um grito do outro lado da colina. Contornando o passado e desaguando no presente vos digo: Tenham uma sempre à mão! Claro está, mais importante que a ter, é como a saber usar, mas nem por isso descurem a utilidade desta colectânea de objectos.
Voltando às arrumações, termino dizendo-vos o quão impressionado e orgulhoso estou: Maximizamos o espaço do clube! Bastou desfazermo-nos da gigantesca estante que o Espinoza lá tinha metido e acomodar os seus livros juntos aos do Pataca e enrolar os metros, quase kilómetros, de cabos eléctricos, fios de cobre, mangueiras de diferentes tamanhos e cordas lá do senhor Pitt.

Bachiatari Sensei

A óbvia satisfação do nosso caro Adegesto Pataca, valeu-nos um arroz de pato fenomenal

sábado, 22 de agosto de 2009

...

Estive para vir aqui falar da derrocada que matou cinco pessoas numa praia do Algarve - conhecido pelo seu exímio ordenamento do território. Uma derrocada que vitimou uma família inteira (quatro das cinco pessoas falecidas eram do Porto: pai, mãe e duas filhas).
Estive para vir aqui falar da derrota do Sporting, há momentos, com o Braga, onde nem o xuxu da Luciana Abreu salvou os lagartos da derrota. Mal sabe o garoto do Djaló que ao chegar a casa lá terá de a aturar: "ó mor, estão tãooo confusa!". Rezemos, então, pelo bem do rapaz e de todas as outras criancinhas.
Estive para vir aqui falar do meu país, onde uma rapariga vítima de violação tem de esperar 12 horas para ser vista por um perito de medicina legal, num dos maiores e melhores hospitais do país que ainda está na ressaca de várias cegueiras por explicar. Num país onde um normal médico de serviço, na impossibilidade do aparecimento do perito, poderia ter feito a recolha das amostras, mesmo sem a melhor qualidade, sempre poderia poupar o desgaste psicológico de um esticar de horas de humilhação, desamparo e trauma.
Estive para vir aqui dizer que abundam os dias de desilusão com o meu país. Este cantinho tão grande na História do Mundo como o conhecemos. Continuamos, julgo, no estatuto de país empreendedor e solidário, contudo, a identidade foi-se esmorecendo. Somos agora uma imagem baça da nitidez que éramos. Essencial é incutir nas crianças-que-aí-vêm que o puxão de orelhas da História permanece, hoje, o melhor aviso para erguer a nação.
Estive para vir aqui falar mal do meu país, pedir que rezássemos pelo Djaló e destilar todos os meus actuais ódios. Estive para vir aqui fazer tanta coisa. Acabei por não fazer nada. Talvez eu mesmo seja também um retrato do meu (nosso) país.



"O Povo completo será aquele que tiver reunido no seu máximo todas as qualidades e todos os defeitos. Coragem Portugueses, só vos faltam as qualidades."

Almada Negreiros, no Ultimatum Futurista.



Hermenegildo Espinoza

terça-feira, 18 de agosto de 2009

9,58

Para quem se interessa por biomecânica, por desporto, ou prefere simplesmente comer tremoços e emborcar umas três ou quatro minis enquanto passa os olhos pela tv, isto é de bradar aos céus. De bradar aos céus, meus amigos.



Hermenegildo Espinoza

sábado, 15 de agosto de 2009

Realidade percebida #4

A inércia. O movimento do corpo subordinado a uma corrente invisível que arrasta o difuso e imaterial, sem no entanto movimentar uma massa carnal, hoje temperada por um calor de Verão amigo de bebidas frescas e ventoinhas. O conforto da poltrona substituido pelo frio azulejo do chão, bem mais sedutor. Sabe bem! Não importa a quantidade de pó, não importa quem o pisa nem com quem o partilhamos.
Depressa, absortos em ideias vagas ou simples alucinações de deserto, irrompe a poesia musical, espontânea, sem métrica nem tamanhos definidos e de rima tão livre quanto o condor.
É tarde, é noite, é o tempo que passa sem darmos por ele. Só agora me aperecebo disso, pensando bem. E o que é escrever? É divagar? Imitar? Recortar palavras caras ou bonitas e encaixá-las logicamente? É tudo, respondo. No entanto, um tudo que pode dar em nada, quando sem inspiração. Esta, por sua vez, materializando-se de um lugar inacessível à vontade, é um motor, alimentado a energia renovável ou não renovável, deixo-o ao critério de cada um - afinal somos todos diferentes -, que tem a força motriz necessária para reunir um exército,se contarmos em Kilojoules; há quem lhe chame o suco dos pensadores.
Mas não é preciso saber escrever para a expressão existir. Saber interpretar, sim. Mas não saber escrever.
Filosofia barata desbravada e posta a nú em praça pública. Coragem para aqueles que estejam desmotivados; tentativa fútil de ser inteligente, quando avaliada por Iluminados.
Um segredo: houve o tempo em que quis saber escrever. saber ser poeta, saber escrever sobre criaturas míticas e aventuras libertinas, saber ser técnico, denotando o conhecimento.
Errado. Digo-o hoje, depois de escritos textos que cumpriam esses objectivos mas não tinham a consistência necessária, a essência verdadeira de quem escreve e deposita fé nisso que faz. Tarde percebi que a escrita não obedece ao expressionismo ou à vontade. Não. A escrita flui, podendo levar ao expressionismo. De facto, a bem mais que isso.
A inspiração comanda e as ideias transmitem a essência, por sua vez montada pela veia literária, se assim lhe quisermos chamar, cuja acção é observada por uma lógica algo irracional, mas que faz crescer um fogo no peito - o sinal de que tudo vai bem. A partir daí, a escrita poderá ser ilusória, expressiva ou até abstracta. Não há espelho sob o qual vejamos o reflexo onde podemos ler em qual destes nos enquadramos; há, não obstante, um brio trazido por várias leituras, que o poderá confirmar.
Não confio nas Ninfas, essas carcaças pútridas comedoras de homens, prostitutas na sua beldade oferecida, que usam sem pudor para sugar a atenção de homens e, nos tempos que correm, mulheres também. Preferível aguardar um dia, uma semana, um ano para escrever algo de jeito. De jeito, leia-se que dê o coice na foice do cérebro acelerando de tal modo a quantidade de ideias que fluem que se torna quase impossível anotá-las a todas e organizá-las num texto coerente, aos meus olhos claro está. Dias haverão em que um simples bule de chá pareça o melhor tema do mundo, outros em que se escrevam sobre maravilhas e fenómenos. Whatever. Picasso também pintava riscos e pagavam bem por eles. Nunca o percebi, mas também não sei apreciar arte.

Sugiro bolos de gengibre para passar a noite. Fáceis de digerir e com poucas calorias. Já o dizia uma alma que não habita entre nós: "Façam o favor de serem felizes!"

Bachiatari Sensei

Relaxo na companhia do teu bom gosto musical, Espinoza. Calorosas saudações a todos vós também, restantes Malditos.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Realidade percebida #3

Porto

O ar abafado,
de ruas, escadas, vielas, calçadas, até praças, resistentes descalças,
todas sussurram, apagadas,
o silêncio de um luar citadino,
tão velho, adulto e menino.

Noite calma, noite autista, só,
nas letras que compõe e só para si tira e põe,
que embraça e percute com longas dedadas
cordas sujas de velhas guitarras.
Música insonora, mas que a alma embala, o aqui e o agora.

Assim conta as suas histórias,
escreve as páginas de grandes vitórias, de grandes glórias,
feitos, que embora em fama pouco tenham,
vénias, muitas as contam;
ao sangue, ao grito, ao patriotismo interdito,
à coragem e à ambição dos loucos de coração, roucos de palavras moucas
que por si, pelos seus, pelo seu país, se entregaram,
deram a vida, beijaram e partiram com a morte
ecoando no Céu e no Inferno, escutada por Deus e pelo Demónio,
essa pronúncia do Norte.

Rebeldes de espiríto,
audazes de boca,
andrajosos visionários,
inconsequentes,
irrepreensíveis pela acção cavaleira.
Criaram um titulo, remando contra a maré,
fertilizaram o seu povo e os estrangeiros, ergueram-se de pé
e consigo, pedra por pedra, edificaram uma invicta Ribeira.

Velejando em barcos rabelos pelo Douro,
vigiam à séculos a noite, atentos,
de um túmulo fumegante e ainda de espada na mão,
entregues ao esquecimento por modéstia,
fechando os olhos, cerrando os dentes, qual morto,
sendo queimado pelo fervor de seu sangue poeirento,
e no entanto mais acordados que nunca, pela sua cidade,
o Porto.

Hoje, pela memória de velhas revoluções,
ergamos os copos, bebamos e gritemos à sua saúde,
deles, que por ela caminharam sobre brasas trespassados,
que a cavalgaram sob o manto da noite e as cores de um só brasão,
que a embruteceram de valores, ideais e sonhos tais
que a elevaram ao Olimpo,
que a espalharam pelas bocas do planisfério
e muito, muito mais.

Exército de indeléveis,
resistente ao tempo, imune ao esquecimento,
dorido pelo custo desse momento:
conquista eterna e simultaneamente efémera.

Erguida sob colinas habituadas à vitória e ao orgulho,
dona de um povo indomado,
reflexo contemporâneo espelhado,
talvez, quem sabe, de uma essência tão antiga como a Terra.
Cuida dos seus - dos nossos e dos que dela querem fazer parte,
sem precisar de recorrer ao "Engenho" ou à "Arte"

Bachiatari Sensei

sábado, 8 de agosto de 2009

Leituras & Remédios #2


"O médico disse: isto e mais aquilo indica que deve ser isto e aquilo; mas, se não se confirmar pela análise disto e daquilo, então é de supor que tenha isto e aquilo. Mas se supusermos isto e aquilo, nesse caso...e assim por diante. Para Ivan Ilitch só uma questão era importante: a sua situação era perigosa ou não? O médico ignorou essa pergunta inadequada. Do ponto de vista do médico, a pergunta era ociosa e não merecia discussão; havia apenas que ponderar as probabilidades - um rim solto, catarro crónico ou apendicite. Não estava em questão a vida de Ivan Ilitch, mas uma discussão entre rim solto e apendicite. E essa discussão resolveu-a o médico de um modo brilhante aos olhos de Ivan Ilitch em favor da apendicite, sob a reserva de que uma análise à urina podia dar novas indicações e que nesse caso o assunto seria reconsiderado. (...) Pelo resumo do médico Ivan Ilitch concluiu que estava muito mal, mas que para o médico, e talvez para todos, isso era indiferente, mas para ele era mau. "

páginas 49 (3º parágrafo) e 50.


"Durante aqueles três dias, em que o tempo não existia para ele, debateu-se naquele saco negro para o qual o empurrava uma força invisível, irresistível. Debateu-se como se debate um condenado à morte nas mãos do carrasco, sabendo que não se pode salvar; e em cada momento sentia que apesar de todos os esforços de luta estava cada vez mais perto daquilo que o horrorizava. Sentia que o seu sofrimento era também por estar a ser enfiado naquele buraco negro e ainda mais pelo facto de não conseguir entrar nele. Era impedido de entrar pela consciência de que a sua vida tinha sido boa. Era essa justificação da sua vida que o prendia e o impedia de avançar e que o atormentava mais do que tudo."

páginas 109 e 110


Lev Tolstoi,
A Morte de Ivan Ilitch, 1ª edição Booket (livros de bolso, com prefácio de António Lobo Antunes)



(a leitura como um dos melhores remédios, e deste recomenda-se uma leitura pela vida fora, até nos tornarmos pó na bruma e na escuridão. Até.)



Hermenegildo Espinoza

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

A Essência da Medicina...


Meus Caros Malditos,


Gozava eu estas minhas férias numa futilidade não típica daquilo que é ser estudante de Medicina, até que por um momento de lucidez pensei na essência do meu ser, no meu papel perante este mundo cada vez mais desvalorizado na minha humilde opinião. Esse mesmo momento de lucidez despertou-me para a necessidade de compreender afinal o que é que eu ando a fazer, ou melhor, aquilo que vou fazer, ou seja, afinal o que é ser médico? Cada vez mais a Medicina é compreendida pela sociedade como uma profissão de prestígio, em que para entrar é necessário ser um vencedor, capaz de resistir a uma multi-selectividade, que avalia sobretudo a capacidade do nosso cérebro, e também a nossa resistência a uma situação de stress, tal como dizia numa aula de Sociologia Médica, a Professora Constança Paúl, que eu muito aprecio as suas capacidades de dialogar e o seu excelente método de avaliação. Mas pronto, deixemos isso para uma outra discussão que neste momento não se enquadra nesta questão.
Ser médico não é ter uma mera profissão, mas sobretudo uma missão, uma missão de serviço em prol do outro, ou mais concretamente, em prol da Humanidade. No entanto para que essa missão possa ser plenamente realizada é necessário que cada um de nós seja capaz de se despojar de certos banalidades que a vida actual nos propõe. É viver na radicalidade de se dar por completo ao serviço do outro. Até diria mais, olhar a nossa profissão como uma oportunidade de partilha de amor, vivendo com a ideia de que não existem doenças, mas sim doentes, cada um com a sua dignidade humana, inquebrável e vivendo cada doente na sua liberdade. Penso que todo o médico que não for capaz de satisfazer estes “pré requisitos”, chamemos-lhes assim, não sabe realmente o que é ser médico, e viverá toda a sua vida numa angústia, sentindo que seguiu um plano de vida que não o satisfaz verdadeiramente.
Era sobretudo isto que vos queria fazer reflectir, para um dia chegarmos ao final deste nosso curso, e estarmos preparados para enfrentar um mundo cada vez mais desanimador, mas sermos capazes de buscar a nossa coragem na necessidade de partilha de amor, de nos colocarmos, como dizia, ao serviço pelo outro.
Este nosso blogue, que é a nossa fuga para a libertação de pensamento, tem como objectivo isto, permitir-nos discutir a essência da Medicina, que além de uma verdadeira arte, é sobretudo a capacidade de servir os outros.

Um bem haja a Vós Todos, Malditos!
Continuação de umas excelentes férias!

Um grande abraço maldito,

Ubirajara Piatã ©

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Tailândia


...ÚLTIMA HORA!!!




Espero noticias do nosso "repórter" em campo, Bachiatari Sensei, dada a sua proximidade à zona.


(de momento não sei em que instância páras, mestre. Dá noticias...)


A maior duvida é, preto no branco:


Ia nesse voo o idolatrado Ann É?



Cumprimentos


Pitt

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

"Caso amígdalas"

Caros malditos

(salto a parte em que peço desculpas pela minha ausência, para que a massada seja eliminada “até ao tutano”)

Adiante.
Estes dias as minhas amígdalas deram de si (ou melhor, quase). Na verdade, não sei se por mera coincidência, tudo isto se sucedeu depois da minha tentativa de enriquecer o meu cadastro linguístico, no domínio do castelhano. No final de contas, ser poliglota é deveras um epíteto de virtude (apesar de não ser a línguagem do raciocínio, como disse o nosso amigo Espinoza). Até se consegue caçar piada nas entranhas de um discurso bilingue. Enfim… retomando o “caso amígdalas”. Dado o meu estado, fui ao médico, como qualquer pessoa normal quando está doente faz.
“-Sr. Pitt, o que é que o traz por cá?
- Acho que tenho a garganta inflamada, sr. doutor.
- Em primeiro lugar, sr. Pitt, um doente nunca diz que tem a garganta inflamada. Quem o diz é o médico. O que o doente tem de dizer é os seus sintomas: tenho sentido a garganta mais seca do que o costume, ultimamente; dói-me há já alguns dias…”

Mais conversa, menos conversa, exame clínico por um lado, momentos silenciosos noutros tantos, e o médico deixa escapar por entre o seu bucinador algumas dezenas de decibéis que nenhuma novidade traziam.

“-Você tem uma amigdalite. E mais na amígdala direita, não é?”

Foi preciso todo um discurso de elite, acrescido da etiqueta arrogante de médico, para me ser diagnosticada a amigdalite. Apesar dessa atitude pouco profissional, uma lição devo reter. É que a páginas tantas, aprendi a ser doente. O médico esse, se tirar as gemelas (subentenda-se remelas) dos olhos, pode ser que veja mais longe…
Pitt

Gira-discos #5

The Killers - Read My Mind (live)

Por muito que sejamos poliglotas, a linguagem do raciocínio é só uma: a associação lógica ou ilógica de pensamentos. "Quando pensas, fá-lo em que língua?" é, portanto, uma interrogação inútil, sem cabimento. Antes deveríamos perguntar:
- Em que língua extravasas os teus raciocínios ou como vocalizas a associação dos pensamentos que te assolam?
Porque o que fazemos ao pensar é convocar as imagens, os sons, os cheiros, as memórias, o abstracto e a metafísica, qualquer coisa que não o vácuo. Não falamos para os nossos próprios pensamentos, não pensamos que estamos a pensar, somos o pensamento e ele somos nós. Tudo é passível de ser associado (i)logicamente. Daí a nossa cumplicidade enquanto seres. Temos a habilidade, se assim o quisermos, de deduzir os pensamentos dos outros, de nos tornarmos, por associação, uno. As pessoas que nos são chegadas incorporam, no seu essencial, aqueles que tocam o âmago da nossa realidade. Não há cumplicidade mais extrema (amor, leia-se) do que esta: sentir que nos lêem, de acordo com a nossa vontade, os pensamentos.



I don't mind, if you don't mind
'Cause I don't shine, if you don't shine

The stars are blazing like rebel diamonds cut out of the sun.
Can you read my mind?



Hermenegildo Espinoza

quarta-feira, 29 de julho de 2009

do espinoza #9

Explicar um nome já de si difícil de pronunciar para um compatriota (tantas as vezes que estabeleci diálogos surreais enquanto me dirigia às secretarias das escolas que frequentei e noutros sítios públicos: a última vez foi na Segurança Social - um flagelo) torna-se um fracasso quando a missão é para um estrangeiro, neste caso uma bela (nos vários sentidos da palavra, não tenho pudores em admiti-lo) senhora inglesa pouco mais velha que eu, que não se encontra familiarizada com línguas de origem latina e com a forma de vocalização que os países mediterrânicos, maioritariamente, empregam.
Na avenida dos Aliados encontra-se um magnífica exposição denominada "Homem T" (mais informações aqui) e


obviamente que andava meio perdido a descodificar as várias mensagens das inúmeras estátuas (cerca de 100), algumas tão subliminares, arrojadas e de certo modo encerrando aquele je ne sais quoi tão característicos dos seres humanos que só à segunda tentativa me apercebi que a tal senhora me chamava num inglês britânico cerrado. Eu que passo sempre diluído nas multidões e tinha-me de escolher logo a mim?, pensei. Puro engano meu. O que queria ela?
- Do you know where is Lello's bookshop?
Palavra de honra que a figura da senhora transfigurou-se-me. Vejam só a minha sorte. Devo ter parecido um cão de Pavlov na esperança de ajudar na sua intenção de visitar a Lello (um dia dedicarei-lhe um post, à livraria, só para verem a importância que ela adquiriu na minha vida, juntamente com os gatos malditos). Lá incorporei um papel de guia turístico e a encaminhei até ao seu destino (a conversa propriamente dita não a revelarei por respeito). Tudo correu nos ditames normais entre desconhecidos até sairmos da livraria. Tirou fotografias à decoração exuberante, aos documentos autógrafos de Eça de Queirós e de Camilo Castelo Branco, autores que desconhecia. Interessava-se por poesia, confidenciou. Pediu uma sugestão para um livro português que pudesse levar como recordação. Mário Cesariny de imediato respondi, sabendo que dificilmente saberia lê-lo no nosso idioma. À saída agradeceu-me, tinha de voltar para o hotel. E então perguntou-me o nome:
- Hermenegildo Espinoza - respondi a medo.
- Herm.. what?
Ainda tentei uma três vezes ensiná-la a pronunciar, totalmente em vão, se bem que da sua boca o meu apelido saía num forte Spinoza. Desembaraçou-se ela da melhor maneira da situação:
- Well, Spinoza, for me, you will always be the portuguese guy from the bookshop.
E foi-se, naquele andar deslumbrado dos turistas. Regressei a casa, a questionar estas agradáveis artimanhas que a vida nos propicia. Tendo há muito estabelecido a felicidade ou o que dela se aproxima como uma soma de parcelas de bons momentos, este encaixou-se nessa equação. Há uns textos atrás um leitor num comentário disse que eu andava todo romântico. Poderá ser que sim, no entanto apraz-me dizer que, a começar a irromper algum sentimentalismo na minha existência, isso se deverá, em grande parte, às várias teias de acções que nos envolvem. Nesse sentido, quanto muito, o aparecimento da inglesa é uma consequência dessas acções (livres, suponhamos), e não parte de qualquer aptidão ou característica minha que catalisou esta situação.
É assim o mundo, uma catadupa de sobressaltos. Resta-nos a nós maximizar o que de bom nos vem à rede.




Hermenegildo Espinoza

domingo, 26 de julho de 2009

Leituras & Remédios #1


"Agora, olhando a janela do segundo andar do professor de desenho, o médico recordava-se da sua espectacular reprovação na prova prática de anatomia, em que lhe haviam passado para as mãos um frasco limoso com a artéria subclávia dentro, pintada a vermelho por entre um emaranhado de tendões apodrecidos, em como o formol dos cadáveres lhe irritava as pálpebras e como, depois de pesar na balança da cozinha os quatro tomos do Tratado sobre ossos e músculos e articulações e nervos e vasos e orgãos, declarara para si próprio diante daqueles seis quilos e oitocentos de ciência compacta:
- Caralhos me fodam se vou estudar esta merda."



António Lobo Antunes,
Memória de Elefante, pág. 101, 25ª edição, Editora Dom Quixote


(a leitura como um dos melhores remédios)



Hermenegildo Espinoza

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Lucy in the Sky with Diamonds





Vocês sabem do que eu estou a falar.




Hermenegildo Espinoza

terça-feira, 21 de julho de 2009

O Clube tem o prazer de adicionar à barra lateral o blogue d'Os Invictados, um grupo de gente bem-disposta que já andou por aí na marretada com almofadas e a parar como estátuas de gelo nas ruas do Porto - entre outras coisas - , impulsionados por um leitor (esperamos assíduo) aqui do clube, o caríssimo Tiago. Tudo muito engraçado, tudo potencialmente estranho e bizarro, mas, confirma-se, muito criativo.


O Clube dos Médicos Malditos

Resultado

Parece, pela sondagem feita ali ao lado, que a maioria do universo larguíssimo de 29 eleitores preferiria a designação de maldémio para o novo elemento da tabela periódica. Conclusões breves: ou a democracia instituída aqui no clube sai certamente fortalecida, ou, para os amantes das conspirações, alguém do clube deu a volta ao sistema de maneira que a vitória recaísse sobre a hipótese mais abonatória em relação à nossa causa. O meu conselho: não confirmem nem desmintam.
Obrigado aos que deram a sua opinião.

resultados:

Inémio - 11 (37%)
Germénio - 3(10%)
Maldémio - 15 (51%)



Hermenegildo Espinoza

sábado, 18 de julho de 2009

do espinoza #8

Dou comigo a pensar na beleza da vida. Normalmente vem-me à cabeça este pensamento quando me rendo ao prazer de estacar nos jardins da Cordoaria olhando os transeuntes que, placidamente, escorrem pela quotidiano citadino da cidade. A cidade está insuflada de turistas: espanhol, inglês, alemão, francês e outras línguas espalham-se pelo ar sôfrego. O Porto é o centro do mundo, do meu mundo.
As crianças caminham com os avós, os namorados dão as mãos, tudo se congemina na conspiração eleita das relações. Estamos sempre a chegar a um lado, sempre a partir para outro, mudamos em cada tic tac dos relógios e nenhum lugar é o nosso. Digamos que temos um débito de insatisfação concomitante com o desejo de refutar o nosso crescimento. O Michael Jackson, olhe-se para o seu exemplo, considerava-se Peter Pan de uma Terra do Nunca. A contradição que estraga qualquer concretização desta utopia é o facto, tantas vezes esquecido, de que a estabilização da nossa pessoa como criança concorre com o problema da criança jamais poder ser estável enquanto absorve as cores visíveis das várias realidades. Deixamos de ser garotos, isto é, perdemos a capacidade inata de sentir felicidade pura, daquela sem artifícios com que tendemos a iludir-nos, quando adquirimos estabilidade.
Será exequível um projecto de vida assim? Não sei, mas não custa tentar. Se o resultado for a queda, será mais uma no horizonte da evolução. O ser humano foi concebido para cair. Há quem diga que saímos das árvores na tentativa de conseguirmos voar. Não me espantaria se assim fosse. Existe um protótipo de Peter Pan em cada um de nós.



Hermenegildo Espinoza

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Esta manhã
hoje
é um nome.

Nem mesmo amanheceu
nem o sol
a evoca

Uma palavra
palavra só
a ergue

Como um nome
amanhece
clareia

Não do sol
mas de quem
a nomeia.

Fiama Brandão, "O Nome Lírico"

Pitt

segunda-feira, 13 de julho de 2009

do espinoza #7

Está um calor tão grande dentro das paredes de minha casa que tanto eu como os meus gatos transpiramos sufocadamente. Quase diria que escorre um rio de suor que se equipara ao caudal do Douro, permitam-me a hipérbole em tudo desnecessária. Convém avisar que escrever perante um calor tão intenso não é fácil, com os neurónios a dar de si. Ficamos amorfos e torna-se árdua tarefa vir aqui ao clube, que suponho que tenha ar condicionado (se tal não acontecer teremos de colocar o assunto na ordem de trabalhos do clube para os próximos tempos). De modo que arrastei-me para o computador convicto de que não possuo um assunto audaz para explanar. Denotem que a vida de um maldito, com as devidas nuances, também passa pelos dias sem objectivos, daqueles imersos na pasmaceira plácida de não fazer nenhum. Enfim, nestes ciclos ventilatórios intermitentes, vou experimentar a sesta, que há quem diga que faz bem e recomenda-se. Estou mole o bastante para me estirar no sofá da sala a dormir, na esperança de que surja algum assunto. Se tal não acontecer sempre dá para ir passear na zona da Ribeira ou ir observar os pavões nos jardins do Palácio de Cristal "pavoneando-se" (veja-se aonde chegou a pobreza deste post acéfalo) para os turistas pasmos de máquinas fotográficas em riste. Ou então enfio os meus gatos todos na banheira e dou-lhes um banho valente para refrescar-lhes o ânimo. Admitamos, também precisam.



Hermenegildo Espinoza

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Obaman(inho)

... ao que parece, o Brasil encontra-se embebido na revolta. E, na verdade, o que é que serve de veículo para esta (emoção?) coisa?... Será um atentado terrorista, sobretudo, de origem islamista ? Ou será correspondência baseada no carbúnculo? Meus amigos, nem uma epidemia de coléra os levava a este estado... Num país do "tá-se bem" a beber caipirinha, a única coisa que faz mover massas além das praias de Copa Cabana é o futebol.


O futebol é para os caras daquele país, o que a mama é para um bebé esfomeado: o sustento.


É Cissinho, Ronaldinho, Juninho... e mais alguns nomes sonantes no futebol acabados em "inho" que fazem aquele país vibrar.


Pois bem, esta lengalenga toda para vos alertar que, segundo o que os médicos malditos apuraram, o Obama teve de mudar de nome... OBAMANINHO.


Caro leitor, no Brasil é assim! Ou muda-se de nome, ou se acaba usando o manto da invisibilidade. Como o Obama não é muito adepto de novas tecnologias, ora aqui está:

o novo reforço canarinho!

Pitt



Realidade percebida #2

O que o espírito renova o corpo tem o dom de consumir. Via-o antes e vejo-o agora.

Insistiu o Rui que fosse com ele ao poço do conhecimento de onde diariamente bebe, juntamente com todo o bando de miúdos e graúdos, mais ou menos sabedores e escalonados pelo hierárquico respeito de diferentes anos de curso.

Já tinha ouvido falar da fama dos estudantes de Medicina - nerds de olhos cansados com conversas mais que técnicas e científicas de que ninguém percebe patavina, mas deambulando orgulhosos, ainda assim, do triunfo que lhe relega o estatuto de pertencerem ao estereótipo da elite social preconizada por velhos e novos que rastejam atrás da placa de senhor doutor. Aos últimos lhes digo, erguei-vos, não como cavaleiros, mas como inconscientes mentes que cospem na própria dignidade ao subjugarem-se de tal maneira. Aos primeiros atalho que a pomposidade de um peito cheio de ar de nada serve sem resultados, sem alguém com quem a partilhar e mais acrescento que valores hão-de ser mais importantes que uma placa com nome - "o rei só nada fará, se alguém tiver que o faça por ele".

Não obstante e calando protestos direi que sim, deve ser reconhecido valor a um médico pelos anos que dedica ao estudo e pelas privações a que tem que obedecer. E é mesmo assim, porque vitimas aqui não existirão e antes não existissem de todo. No entanto, jamais fazer-se valer do prestígio e conhecimento adiquiridos pela douta mente para satisfazer caprichos de real alteza ou enxovalhar a imagem do pobre analfabeto controlando a sua mente hipocondríaca.

É isto que o espirito renova: o conhecimento. De geração em geração de médicos, passa conhecimento ancestral e novo é adquirido, requerendo nova paciência, mas trazendo novas vantagens. São essas, as vantagens, digo, que pela tentação de bolso descarrilam o comboio e com as quais o corpo se encarrega de fortalecer. Leia-se corpo como o individuo fisíco; sim, esse mesmo, que vai em viagens, participa em "congressos", que compra novos carros trianualmente.

De isto me lembrei eu, enquanto assistia ao estudo de três almas que sonhavam com o estetoscópio e a bata branca. Um sonho de rico, literalmente, não só a julgar pela pronúncia e gestos oratórios, mas pelo teor da conversa em si. Um verdadeiro núcleo da Foz ou de Cascais, que salvo meia dúzia de pardas almas dessas terras nada se aproveita, entre filhos de papás e pipis cuja realidade distorcida pelo dinheiro faz do seu ego pedestálico demasiado altívolo para pousar na humilde integridade de um profissional de saúde com todas as letras, cujos joelhos batem no chão e mão toca o coração, ao som da melodia hipocrática de um juramento que lhes traça na palma das mãos a sina de um compromisso.

Lia eu numa placa à entrada "O médico que só sabe Medicina, nem Medicina sabe". Hão-de estar o autor e o galardoado, que por razões desconhecidas não coincidem, a dar volta no caixão a cada palavra desses que referi.
Dias virão, em que eu fale nos verdadeiros estudantes desta arte.

Bachiatari Sensei

terça-feira, 7 de julho de 2009

Ubirajara_meditações_ANGÚSTIA

Deito-me na cama
Sinto um vazio em mim
Um vazio tão profundo
Que não consigo eliminar
Esta angustia que sinto
É o fruto duma ansiedade que não tem fim

Olho para a noite que me cerca
E sonho ser uma das estrelas que se escondem na imensidão do Universo
Oh alma maldita!
Porque me fazes pensar assim?
Quem me dera não pensar!
Quem me dera ser um mero animal
Que se limita a viver instintivamente
Oh instinto invejável!

Então penso nos dias de outrora
Em que eu era feliz
Em que acordava de manhã
E sentia o vento na minha face
Como sinal de esperança
Ouvia os gemidos da Natureza
Que me lembravam da minha existência
E sentia o aroma de campos floridos
Que belos tempos!
Que nunca mais esquecerei…

Espreito pela janela do meu quarto
E vejo um mundo que não tem fim
Olho para o céu
E vejo o caos que é ordem
Ou a ordem que é o caos…
Não sei o que dizer
Mas o sono vem
Vem, vem, vem…

Ubirajara Piatã

do espinoza #6

Para ver o amanhecer, acordo muitas vezes no silêncio da casa e caminho até à minha pequena varanda. A cidade dorme muitas vezes sem saber da minha insónia. No prédio em frente, uma mulher insiste em partilhar esse momento de incapacidade de dormir com os meus olhos que raramente pedem companhia. Nunca lhe aceno, jamais lhe dou um sinal. Nem ela. Ainda assim, há mais de um ano que acordamos antes do mundo e vislumbramos o nascer dos dias tantas vezes sem sentidos. Como exercitar a vida? Como é possível acordarmos diariamente e levantarmo-nos da cama? Tudo isso para quê? Há uma gravidade a puxar-nos para baixo e não é inversamente proporcional ao quadrado da distância do que nos separa dos objectos ou dos corpos, mas sim inversamente proporcional ao ímpeto das vontades que carregamos. Só assim se explica o porquê de não me limitar a ficar na cama esperando que os dias passem e que a entropia acabe com a maravilha deste sistema.
São cinco e meia da manhã. Carrego uma vontade em quase tudo inócua que me levanta da cama. Na varanda do outro prédio espera-me a mulher das vigílias da alvorada. Está um bom tempo para lhe mostrar que ainda tenho músculos da mímica dignos de um sorriso franco.




Hermenegildo Espinoza

sábado, 4 de julho de 2009

Dos nossos mestres #1

Um enorme regozijo e orgulho acaba sempre por cair em nós vindo da altura daqueles que nos dotam do saber necessário para exercer, convenientemente, a nossa profissão.
Para nosso agrado, o Prémio Gulbenkian Ciência 2009 foi atribuído a Maria João Saraiva, cientista do Instituto de Biologia Molecular e Celular (IBMC) e professora catedrática de Bioquímica no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS), pela sua importante contribuição na compreensão dos mecanismos da Polineuropatia Amiloidótica Familiar (PAF), vulgarmente designada por doença dos pezinhos, que foi identificada e caracterizada, pela primeira vez, pelo neurologista e também co-fundador do ICBAS, o Dr. Corino de Andrade.
Congratulamo-nos pela força de vontade e pertinência demonstradas pela família icbasiana em prol do conhecimento biomédico.
O nosso agradecimento e o maior dos aplausos aos nossos mestres.



O Clube dos Médicos Malditos

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Bachiatari Sensei #7

Parece que me mudei para a casa errada com o colega de quarto certo.
Dando-vos um toque de um serão de um velho com genica e de um estudante vanguardista, o desenho que terão à vossa frente combinará pizza, consolas, xadrez e, como que por coincidência, a arte da medicina. Pois é. Eis que o teleporte para uma realidade moderna, me trouxe a uma paragem familiar; ancorei navio numa casa especilizada em linguagem maçónica que em tudo me é conhecida, ganhando a oportunidade de enriquecer de cultura uma massa cinzenta ligeiramente poeirenta, interpelando antigos métodos semilógicos de palpação, com a tecnologia e metodologia actuais - convenhamos que as ressonâncias magnéticas, qual mistica da física médica, faz cruzar antigas linhas paralelas da observação terapêutica visceral e da não invasão de tecidos - fabuloso!

Preciso de respirar. (...)

Retomando o rumo da questão, digamos que objectivos comuns e ideais partilhados ajudam no entendimento mútuo. Os serões habituais de aguerridas disputas a grande velocidade e nuvens de poeira do pó de Dakar que só não invadem o espaço morto anatómico das vias aéreas, porque o ecrã da televisão não o permite, dão lugar ao debate de casos clínicos e dissecções de carne de porco, pelo menos na última semana, em tempo de frequência - é aí que o chá impera o seu poder tranquilizante, qual Valdispert administrado em overdose.
E o ambiente podia ser sempre assim, não fosse o mau estado do edíficio a comprometer o sossego entre vizinhos, dadas as inúmeras lacunas parietais por todo ele - entre gritos de socorro de actividade nocturnas depravadas da vizinha de baixo e os roncos do vizinho de cima, isto parece um posto avançado da ala de psiquiatria, do São João.
Valham-nos os peixes, mas acima de tudo o camarão: os primeiros, pelo hipnotizante jogo de cores e o brio que dão à casa e às noites de insónia; o segundo, que pelo bizarro e desconhecido modos operandi sempre arranca uma gargalhada ou um comentário, não mencionando o sadismo ecológico de seus actos necrófagos de quem come os colegas de habitat que perecem.

Bachiatari Sensei